quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Um novo formato: Futuro incerto no surf

Evolução no surf ou grana no bolso?
Por Henrique Chaves (o Visionário do Surf)

O grande mestre Slater dispensa apresentações. Atravessou mais de uma década no surf à frente de todos. Dentro e fora da água. Tive a oportunidade de vê-lo surfar várias vezes. Duas muito me marcaram. Em Snapper Rocks / Kirra, na Gold Coast australiana e outra em Maresias, São Sebastião, SP. Esta última durante o Legends, evento com os grandes nomes da história do surf nacional e com algumas presenças internacionais. Mar pequeno (muito), praia lotada, crowd insuportável. Olhando para o mar a sensação que tínhamos era de um monte de pescadores gastando tempo dentro do oceano. E eis que aparece nosso homem, saindo de dentro de uma casa a beira-mar, sem palavras. Apenas uma rápida olhada e lá está ele, em 3 ou 4 ondas aonde todos ignoravam, no inside. Simplesmente achou "agulhas" no palheiro. Surf de outro mundo. Até tubo sobrou nestes 15 minutos de queda. Não me perguntem como ele conseguiu. Apenas testemunhei.

Anos se passam com o domínio de Kelly. E agora volta a cena de novo. Ou melhor. Não sai dela. Apenas começa a direcionar o seu trabalho para outros investimentos. Um deles um novo circuito mundial. Ou um paralelo ao formato original do WCT. Penso: "Cara, que bom, Slater pensa o mesmo que eu. Pensa na melhoria dos eventos de surf, nas remunerações para atletas e staffs, na entrada de novos investidores, em novas formas de colocar o surf na mídia de massa e muito mais".

Um projeto como este, vindo do nosso Pelé do surf (se é que não o Pelé é o Kelly do futebol, pois a superioridade de KS em sua modalidade é superior ade Pelé no futebol), apoiado por pessoas do mais alto calibre no surf e seus segmentos, faz-me acreditar que aos poucos ajustaremos nosso esporte entre os maiores e mais rentáveis da história, seguindo os modelos do tênis e do golfe profissional.

Apego-me a conseguir informações sobre este novo modelo de competição. Interessantes por sinal. Período reduzido, com a média de cinco meses no ano para a realização de oito etapas; Lugares extremamente escolhidos a dedo, após um estudo de anos sobre ondulações e condições de surf de cada local em potencial; premiações que extrapolam o imaginado hoje em dia. Para termos uma idéia, hoje o atleta que é desclassificado na primeira rodada do WCT embolsa quase R$ 5.000,00. Isso ajuda com os custos básicos de permanência no local durante a etapa. Os "sem patrocínio" agradecem. Mas nesse novo molde, aquele que sair derrotado na primeira fase embolsará uma quantia próxima de R$ 40.000,00. Não sei porque me espantei no início, logo eu que acho isso justo, pensando na profissionalização do esporte e na sua evolução profissional fora da água. Mas um salto como este de uma hora para outra pega a todos de surpresa.

Outras benfeitorias estão dentro do pacote proposto pelo nosso líder no surf. Acho grande parte delas de muita valia. Mas uma informação assusta a todos os amantes e seguidores do esporte. Um evento "apenas" para convidados, com um volume de participantes variando entre 12 e 16 surfistas. Definidos pelo critério de capacidade do atleta em evoluir e desenvolver o surf em si, além dos limites impostos hoje em dia. Então me pergunto: "Esta ação é uma evolução para o surf competição ou uma evolução financeira para uma ´elite`, com membros ´convidados`, com fins totalmente lucrativos para um pequeno grupo?"

Esse evento fará com que muitos deixem de participar e de correr o circuito mundial apenas por sonhar em fazer parte desta comunidade. Muitos já começam a discursar que estão cansados do modelo atual, que já não se interessam mais pela competição, que são mais ´free surfers` e que precisam de tempo livre maior para cuidar de outros projetos, ou até mesmo da família. Ou seja, alguns estão de olho no que esse nosso circuito possa oferecer de melhoria para eles, não pensando na modalidade.

Entendo que um campeão se faz com um esforço sobrenatural, em todos os momentos de nossa vida. A pressão, as desilusões, as condições das competições, a dificuldade de acesso a materiais de qualidade, a diferença entre competidores sobre conhecimento, educação, a língua, o desconhecido.

Um campeão, para mim, deve enfrentar todas as adversidades a qualquer instante e, num certo momento, procurar o equilíbrio para vencer e avançar a cada batalha. Condição das ondas, vento, clima, tudo isso influencia também. Acredito até que aumentar o tempo de férias seja justo. Mas limitar a poucas pessoas, na forma de convites, a participação nas provas, faria com que todos perdessem o interesse em competir para valer, porque afinal, para que eu gostaria de ser um surfista profissional se o lugar que investe e distribui quantias milionárias nunca irá olhar por mim?

Vejo este evento como um novo EDDIE AIKAU – Eddie Would Go, no Hawaii, aonde convidados e alternantes brigam por uma vaga. Um espaço. Não podemos esquecer que lá, no Hawaii, vivemos a reclamar da forma como nós, estrangeiros, somos tratados como sub-seres. Ficamos a mercê das decisões da cúpula hawaiana. E nem as grandes autoridades locais tem poder sobre as autoridades do surf. O evento do Slater passa a seguir a mesma linha, fechando cada vez mais o mercado e desestimulando novos potenciais competidores.

Será mesmo que será um grande evento? Será que o KS realmente acredita que achou a fórmula certa? Afinal, ele está acima de todos e tem cacife para bancar isso. Só que para mim não. Ou será que estou errado?

Henrique Chaves é MBA em marketing esportivo, diretor do Ibrasurf e acredita que todos devem ter chances iguais no surf e na vida.

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