quarta-feira, 31 de março de 2010

G-land e Bankvaults de responsa

Cesar se posiciona para entrar no cofre - Arquivo pessoal
Por Cesar Calejon

Duas das ondas mais perfeitas do mundo são G-land, em Java, e Bankvaults, nas Mentawai.

Ambas possuem características distintas, mas vão te proporcionar os melhores momentos da vida como surfista. A primeira roda para a esquerda e tem 3 seções: Kongs, Money Trees e Speedies. Speedies é mais buraco e rasa, mas uma onda acima de 6 pés havaianos em qualquer uma delas vale por toda uma vida de tédio. G-land é aquela onda desafiadora, que pode te meter medo, mas, ao mesmo tempo, é tão perfeita, lisa, verde, dá chance de dropar com segurança....vai? Leva uma gun, primeiros socorros, botinha, capacete, muito protetor e repelente, vacinação em dia etc etc. G-land fica no meio de uma selva e lesões mais sérias podem ser fatais. Dias antes de chegarmos em 2008, um francês quebrou a pélvis e quase morreu. Escapou porque um helicóptero veio resgatá-lo.

Já Bankvaults é uma onda que quebra bem cavada para a direita. O problema é que o lineup sempre muda naquele lugar, ou seja, você vai tomar na cabeça não importa o tamanho. Além disso, ela também é razoavelmente rasa. Caso você consiga administrar bem estas duas características, provavelmente você vai surfar o melhor tubo da sua vida, com 6, 8 pés, por centenas de metros, talvez. Bankvaults tem esse nome, que significa "cofre de banco", porque é exatamente isso o que ela é: difícil de entrar e pesada. Não importa o quanto antes você reme, a parede está sempre vertical na hora do drop. Escolha uma prancha um pouco maior nesse pico, tipo uma 6,7 para 6 pés de onda.

Essas foram as minhas dicas considerando dois dos lugares onde eu vi e peguei as melhores ondas da minha vida até aqui. Espero que elas possam te ajudar a fazer o mesmo.

terça-feira, 30 de março de 2010

A busca pelos tubos

Tubos são caçados incansavelmente - Foto: Eduardo Vertullo
Por Eduardo Vertullo

Indiscutivelmente o tubo é o ponto máximo para qualquer surfista, seja grande ou pequeno, todos sonham em surfar ondas perfeitas e tubulares.

Para nós brasileiros a busca pelos tubos é interminável, no país do futebol sofremos um pouco com isso, porém sempre novos picos estão sendo descobertos em nosso litoral e muitos com ótimos tubos, além dos picos já famosos por seus cilindros. Rio de Janeiro e Santa Catarina carregam já há algum tempo essa fama se tornando exemplos que em terras tupiniquins é possível pegar bons tubos, claro que sempre dependemos das melhores condições para isso.

Menos famosa por seus tubos é São Paulo, todos imaginam São Paulo somente como uma gigantesca cidade urbana aonde o caos toma conta da vida de seus habitantes, e isso é verdade, mas bem perto de todo esse caos existem maravilhosas praias e muitas com ótimos tubos, principalmente no litoral norte do estado, nas praias de São Sebastião e Ubatuba é possível confirmar isso.

Ainda não podemos comparar os tubos tupiniquins com tubos internacionais, digamos que alguns sim, mas a maioria não, porém não podemos mais menosprezá-los, é certo que temos que ter um pouco de paciência, mas eles aparecem, basta estar no local e momento certos.

Serial trip de inverno

Ondas e clima de inverno fazem a cabeça - Foto: Cortesia Quiksilver
Por MichelSP

6:00 da manhã o despertador toca. O barulho da leve chuva batendo na janela do quarto e o frio da noite que se estende pela manhã, junto com o corpo cansado de uma semana inteira de trabalho, torna mais difícil a missão de abandonar a cama.

Desligado o alarme, o interfone é que acaba com o silêncio da manhã cinza e fria em um apartamento vazio. A pressa me consome. Ainda desorientado pelo sono, escuto o celular tocar. Não o atendo e continuo preparando minha bagagem. Coisas simples, porém essenciais.

Deixo o ambiente tranqüilo do apartamento e entro no elevador. Pelo hall do prédio o frio aumenta. Com um irônico sorriso de canto da boca, o porteiro questiona minha bagagem. "É um defunto que você carrega?". O comentário só alimenta meu mau humor. Mas continuo meu caminho.

Com um agasalho e um capuz me protejo do frio e da chuva, enquanto coloco o "corpo" coberto que carrego dentro do porta malas de um carro que bem poderia ser de uma agência funerária.

Ninguém na rua e poucos carros passam sem pressa, observando, com olhar de testemunhas, o que duas pessoas faziam naquela hora.

Um café puro na padaria da esquina ajudava a espantar o sono e aquecer meu corpo. Poucas palavras. Ambiente vazio. Céu escuro e chuva fina. Sigo meu destino.

Dentro do carro conversa em tom baixo, clima, pode-se dizer, amistoso. Limpador de pára-brisa no máximo. Aceleração intensa só do coração. Assim, sigo em frente.

Longa estrada, descidas e curvas consomem a atenção. Policia na área. Velocidade controlada.

O som psicodélico do Pink Floyd é a trilha sonora. O caminho é longo, mas tem fim e, quanto mais próximo, maior a ansiedade.

A chuva dá uma trégua, o destino se aproxima. Está chegando a hora. O responsável pela direção encosta o carro.

Pronto. Chegou a hora! Local vazio depõe a favor. Tiro certeiro. Os "corpos" são retirados do carro. Ninguém por perto.

Aceleramos os passos. Eufóricos e desconfiados, a roupa justa e grossa dificulta os movimentos, mas não nos segura. O frio neste momento é só na barriga.

Os pés congelam por segundos. Corpos sobre "corpos" se aquecem em movimento. Aos poucos a situação entra no trilho.

Tudo acontecendo de acordo com o programado. Mas nunca pode se descuidar. Em fração de segundos tudo vai por água abaixo. O entrelaçamento hostil entre os corpos provoca o fim. Ironia do destino. Nem sempre o fim é totalmente triste. Os momentos bons na memória fazem a cabeça.

De volta a selva de pedras com céu claro e leve vento frio, retorno ao apartamento. Em tom de brincadeira com um sorriso largo, pode-se dizer, mostro uma prancha dividida em duas partes ao porteiro "Mãe Diná" e respondo a então pergunta feita pela manhã: "Agora sim!"

sábado, 27 de março de 2010

Santa Cruz - a verdadeira surf city

Locais fizeram a festa no pico - Foto: Marcelo Bolão
Por Marcelo Bolão

Embora Huntington Beach tenha ganhado na justiça o direito de usar o título "Surf City USA", quem entende de surf sabe que Santa Cruz é a autêntica cidade do surf americana.

Huntington Beach tem boas ondas, um dos campeonatos mais tradicionais de surf mundial e as mais importantes lojas especializadas no esporte.

Mesmo com muitos surfistas profissionais morando em Huntington, a cidade é infestada pelos chamados "simpatizantes". Eles se vestem como surfistas, falam como surfista, alguns até possuem pranchas de surf, mas não entram na água nem para pegar jacaré.

Santa Cruz é diferente, a começar pela temperatura da água que é gelada. Não foi por acaso e sim por necessidade que um local de Santa Cruz (Jack O'Neill ) inventou a roupa de borracha. Os surfistas de Santa Cruz não estão preocupados em comprar a ultima bermuda da moda, eles estão preocupados em descobrir quando o próximo swell vai encostar.

Jeff Clark surfou Mavericks sozinho por 15 anos até a comunidade de big riders tomar conhecimento do pico. Enquanto Huntington Beach só tem beach breaks, Santa Cruz possui vários point breaks de nível mundial.

Apesar da fama de encrenqueiros que os locais de Steamer Lane tem, no dia que tirei essas fotos, havia pouquíssimos surfistas na água. Se você chegar sozinho e esperar a sua vez no outside, pegará as melhores ondas da sua vida. Pode acreditar!

Para saber mais sobre o trabalho de Marcelo Bolão, acesse http://www.chutaobalde.com/.

sexta-feira, 12 de março de 2010

“Rebeldia” tem limite

Slater 'ferve' a careca sobre o assunto - Foto: Grambeau
O início da temporada da elite do surf em 2010 tinha lances dignos de concentrar o interesse dos amantes do esporte, especialmente as novidades na classificação e os critérios de julgamento das disputas. Porém, o que mais deu o que falar acabou sendo a as palavras do grande Kelly Slater sobre o chamado "circuito rebelde". O nove vezes vencedor do campeonato mundial se enrolou bastante e quem não conheceu a história das negociações para a criação de um novo "Tour" milionário e restrito às grandes estrelas pode pensar que tudo foi invenção da mídia.

Na verdade, Slater poderia ter ficado calado pois pegou mal ele vir com essa conversa de que não esteve envolvido na tentativa de lançar um circuito paralelo. Se não tocasse no assunto não daria a impressão de que "amarelou" e se submeteu às regras de quem coloca dinheiro no evento. O povo costuma dizer "manda quem pode, obedece quem tem juízo" e foi isso que aconteceu. Os grandes patrocinadores podiam mandar e os atletas obedeceram, inclusive a lenda viva Slater.

Se houve algum aumento nas notícias sobre a revolta das estrelas ou um fato não confirmado, isso não quer dizer que não havia a vontade de mudar o esquema e elitizar o surf mundial. O eneacampeão comemora as mudanças em implantação como resultado do movimento (isso já significa que ele reconhece que houve a tentativa). De resto, ele sabe que para ainda sonhar com o décimo título tem de ficar onde está, recebendo milhões e divulgando seu patrocinador, que banca duas etapas do Circuito da ASP.

Slater tem o direito de mudar de opinião e de se negar a explicar porque está negando o que todos sabem. Esperamos que ele continue dando show na água, mas com cautela nos comentários.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Superbank ou Kirra? Eis a questão

A mão humana influencia na Gold Coast - Foto: ASP Kirstin
Por Bruno Ruy

A Gold Coast é um pedaço de litoral famoso em todo o mundo por suas incríveis ondas em diversos point breaks. O que a maioria não sabe é que as praias na Gold Coast sempre tiveram a mão do homem para alterar o que antes era natural.

Mineração de areia, estabilização da saída de rios para facilitar a navegação, quebra-mares para a manutenção das praias e muitos outros experimentos.

A última empreitada foi dragagem do rio Tweed no sul da Gold Coast, ao lado de Duranbah. O objetivo era bombear a areia na baía de Coolangatta, pois Kirra sempre perdia enormes proporções de areia na época dos ciclones e a erosão da praia era um problema sem fim. A prefeitura então resolveu solucionar o problema e foi assim que surgiu o Superbank, sem a menor intenção de criar uma onda espetacular.

Porém, como tudo que é bom dura pouco (e lá foi um esculacho), a antes longuíssima onda que começava em Snapper, passando por little Marley, Greenmont e Kirra, terminando no little groyne, (onde antes havia o segundo quebra-mar de Kirra) foi uma doideira durante 1 ano mais ou menos e depois quando os ciclones vieram, o fundo mudou e a onda começou a ficar seccionada. Outro problema e esse bem agravante, foi que onde antes haviam as quatro ondas citadas acima, para todos os níveis de performance, virou uma só e o crowd ficou ainda pior do que já era.

Com a onda do Superbank perdendo sua qualidade original, várias perguntas vieram à tona e aquela que criou mais alarde foi o que poderia ser feito para recuperar a lendária onda de Kirra, que hoje raramente quebra.

Segundo o local e ex-presidente da ASP, Wayne Bartholomew, quando a prefeitura iniciou o projeto de bombear a areia na baía de Coolangatta, eles também modificaram o famoso quebra-mar responsável pela alta qualidade das ondas. "Se em algum lugar do mundo eles tivessem a melhor onda do planeta, não acho que eles deixariam desaparecer. Nós precisamos trazer de volta o big groyne (o quebra-mar grande) para as dimensões de antes do ajustamento. Isso não é teoria, nós temos um banco de dados de 23 anos que prova isso".

O comentário de Rabbit foi seguido de um fórum público atendido por mais de 200 pessoas que procuravam a solução para trazer de volta o lendário tubo de direita, uma das ondas mais desejadas de todo o mundo.

Rabbit ainda diz: "acho que se nos concentrarmos em restaurar a qualidade da onda de Kirra, podemos fazer com certa facilidade, pois não é necessária intervenção estadual (lá também sempre rola problema entre o estado e as prefeituras). Foi a prefeitura da Gold Coast quem construiu o quebra-mar e o modificou, eles então poderiam recuperar as antigas dimensões".

Porém, um pesquisador da Griffith University Gold Coast, encarregado de achar uma solução, diz que uma opção para recuperar os dias gloriosos seria deixar a natureza tomar seu próprio curso.

Neil Lazarov surfa a mais de 20 anos, trabalhou na Surfrider Foundation Australia e chefia o time de pesquisa encarregado em procurar soluções para o problema, ao mesmo tempo em que protege a costa. Ele diz que a qualidade da onda piorou no decorrer dos anos por causa do projeto de dragagem do rio Tweed, que bombeou um excesso de areia na baía de Coolangatta e não houve tempestades com força suficiente para mover a areia adiante.

Ele diz também que várias soluções de engenharia foram postas em prática para evitar a erosão e reposição de areia nas praias nos últimos 20 anos, como dragagem, bombeamento de areia, quebra-mares etc.

"Nós estamos tentando elaborar o projeto junto com a comunidade do surf... se o verdadeiro objetivo for melhorar a qualidade da onda, cada opção possui os prós e os contras e isso fica a critério da comunidade e não da universidade".

Vamos ver o que acontece. A verdade é que sempre que mexemos com a natureza, nunca sabemos realmente no que vai dar. O que possuímos são inúmeras estatísticas de todos os tipos que podem nos dar uma falsa previsão dos fatos, visto que casualidades podem ditar o curso dos acontecimentos.