sábado, 17 de outubro de 2009

Já dizia um velho ditado

Mineiro é esperança brazuca - Foto: ASP
Por Stephanie Sayuri

Mineirinho que de mineiro só tem o apelido, provou também que "não come quieto". Botou pra baixo, arrancou highs scores dos juízes, euforia da galera, "uhuls" dos companheiros e desconcertou o Velho Mundo com seus poucos e comprovadamente maduros vinte e dois anos. Com sua audácia, Mineirinho chegou até a repaginar a imagem do tradicional azarento número treze, lembrando em sua primeira entrevista após a final da coincidência entre sua primeira vitória no tour em 13 de outubro e seu aniversário comemorado em 13 de fevereiro. Coincidência ou não, esse tal de 13 trouxe ao Mineiro sua primeira conquista no circuito e ao surf brasileiro o nascimento de uma das suas maiores esperanças da atualidade.

Confirmou não ser promessa e sim realidade. Em terras ibéricas mostrou fazer jus ao velho ditado espanhol "Si quieres buena fama, no te dé el sol en la cama", "Se queres boa fama, não te ache o sol na cama" - se quer que os outros te respeitem, é preciso trabalhar e não ser preguiçoso. "Buena fama" ele conquistou, graças a falta de preguiça e muito trabalho que deve manter a constância e o padrão, uma vez que o trem desse mineiro está "bão" demais.

É, o garoto, menino, moleque, mineiro, paulista, do Guarujá, de Minas, da Espanha, do Brasil, do mundo, renova nossas esperanças e imprimi orgulho em nosso peito. É preciso e foi provado que se deve acreditar no surf brasileiro, pois como já dizia nosso velho ditado "Eu sou brasileiro e não desisto nunca".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Renascer

Guilherme Costa chegando no Tahiti - Foto: Arquivo pessoal
Por Bruno Ruy

O Oceano estava lá, como sempre, em toda sua majestade com seu infinito manto azul subindo e descendo, balançando com ternura seus súditos e seres que fazem desse manto e reino seu habitat natural. Dono do maior império já visto, alcança todo o redor do globo, chega nos lugares mais inóspitos e produz os mais diferentes cenários, desde a movimentada província Atlântica a misteriosa e ironicamente denominada Pacífica. O Pacífico, a maior das províncias, esconde mistérios e embora sustente uma imagem paradisíaca, revela-se altamente temperamental.

Repleto de verdadeiras obras de arte naturais, as ilhas do Pacífico são almejadas tanto pelos ricaços de plantão atrás de luxuosos resorts, quanto por aventureiros, particularmente os maiores deles, os surfistas, visto que a maior ameaça do Pacífico encontra-se em suas ondas. Estas crescem aos olhos e sonhos de surfistas de todos os cantos do mundo que ano a ano largam a terrinha em busca das mais fortes, porém perfeitas ondas.

E assim, observador atento de toda essa aventura, num dia qualquer, cansado da mesmice do céu, um anjo daqueles típicos loirinhos e de olhos claros, deixou não sua terrinha, mas seu céuzão para ir ao encontro do reino Oceano, mais especificamente na província Pacífica. A pista de pouso escolhida, um país de dimensões continentais, multicultural, multiétnico, bonito por natureza, cheio de lugares a se explorar e ondas espalhadas por um vasto litoral banhado pela província Atlântica. O campo de concentração, uma ilha ao sul deste país. Escolhido seu lar e família, era questão de tempo para o anjo crescer e partir rumo ao sonho.

O anjo, agora adulto, enfim corre atrás de seu destino e entre tantas a serem escolhidas no Pacífico, a primeira parada seria um novo país, este também de dimensões continentais, dessa vez cercado pelo Oceano por todos os lados. Após sete anos residindo tão longe de casa e tão próximo da realização de um sonho, as férias já estavam programadas e o destino era o que buscou desde o princípio quando desceu dos céus atrás da emoção de chegar a um arquipélago no meio do Pacífico, onde os surfistas alucinados deliciavam-se com o maior encanto do Triângulo Polinésio, as ondas. Algum tempo trabalhando, alguma grana poupada e o anjo entregou-se ao prazer: desfrutou do aqui e o agora como se fosse seu último dia na terra. E poderia ter sido mesmo, deslizando sobre o majestoso reino Oceano.

As ilhas eram a visão do paraíso e após boas ondas e longos dias tranquilos, o reino revoltou-se, o anjo já estava na água desde as seis e quarenta e cinco da manhã, o Oceano dava estranhos sinais e, atento, o anjo sentiu algo errado. Sentimento este confirmado com o repentino recuo do mar, que voltou-se maior e mais forte contra o arquipélago. Estava formada a tsunami que deixara um rastro de destruição, varrendo casas, prédios, sonhos e famílias. Com toda sua força, o anjo agarrou-se em uma pedra para salvar sua vida e mesmo cercado de aflição e apreensão, sua aura brilhou e com sua força e poder de anjo resgatou em meio a escombros lágrimas e medo, crianças assustadas que viram a esperança renascer dentro do abrigo formado pelos braços e prancha deste anjo vindo de longe. Seus olhos claros lhes transmitiram confiança, seus braços segurança e sua prancha um passaporte para sobrevivência.

Sobrevivente de uma tsunami devastadora provocada por um tremor que alcançou a magnitude de 8 graus na escala Richter em setembro de 2009 atingindo intensa e principalmente as Ilhas Samoa no Triângulo Polinésio no Oceano Pacífico, Guilherme Costa de 27 anos, estava de férias no arquipélago, reside atualmente na Austrália e sua família em Florianópolis. Ele loiro de olhos claros, que provou ser um verdadeiro anjo, nasceu no Brasil e renasceu em Samoa.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A velha polêmica do Tow In

Dupla treinando em ondas de 1 metro - Foto: Eduardo Vertullo
Por Cesar Calejon

Durante o último dia 3 de outubro, fui surfar em São Pedro, no Guarujá (SP). Acompanhado do fotógrafo Edu Vertullo, cheguei para conferir as condições do mar por volta de 9:00h da manhã. Grata surpresa foi encontrar ondas de 1 metro abrindo muito, com a arrebentação fácil e pouco crowd na água.

Após surfar boas esquerdas e direitas por quase uma hora, tive outra grande surpresa, esta nada boa: duas duplas de tow in começaram a passar entre os surfistas, ao ponto de que em algumas situações eu vi o piloto desviar de surfistas que estavam sentados esperando a série. Isso mesmo, os caras estavam fazendo tow in em 1 metro de onda, no meio de pelo menos meia dúzia de surfistas que assistiam indignados às cenas bizarras.

Não sou contra o tow in, muito pelo contrário, admiro muito o esporte, apesar de não praticar. O problema é que a modalidade está se disseminando com muita intensidade e pouca organização ou respeito. Muito se fala em associações, regulamentação etc, mas a verdade é que isso não tem acontecido na prática. Sinceramente, vejam as fotos deste dia ao qual me refiro. Compare as imagens dos surfistas de remada e as imagens que o fotógrafo Du Vertullo fez dos surfistas de tow in. Além de todo o treinamento que aborda pilotagem, técnicas de resgate, primeiros socorros, entre tantas outras que o tow in demanda, os surfistas que usam o jet precisam de muito bom-senso. Surfar ondas de 1 metro em meio a outros surfistas é no mínimo perigoso e imprudente, para não dizer constrangedor!

Cesar Calejon é jornalista, surfista e não é contra o surf rebocado, desde que seja praticado em determinadas condições.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Surfando um tsunami

É possível surfar um tsunami? - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

Surfistas viciados em adrenalina se desdobram diante das previsões de bóias de medição oceânicas para encontrar a maior onda do planeta.

O atual mito é a onda de 100 pés, que equivale à altura de um prédio de dez andares, nunca antes surfada. Já parou pra pensar na força desse vagalhão? Muitos surfistas se preparam para esse grande desafio, mas será que algum deles já se imaginou surfando algo com volume de água 5.000 vezes maior?

Uma onda bem menor que Jaws, em altura, porém, bem maior em largura; um outro gigante, capaz de devastar cidades e desaparecer com milhares de pessoas. Como a tragédia que aconteceu na semana passada, na Ásia.

O tsunami com certeza não atinge os 100 pés de altura, que acreditam poder alcançar um dia a onda de Cortes Bank, mas sem dúvida é a mais tenebrosa onda do planeta, aquela na qual ninguém gostaria de ser pego desprevenido, ou... poderíamos dizer... sem sua prancha?

QUEM SE AVENTURA?

Na tentativa de entender como seria essa loucura, algumas pessoas até comparam a idéia com surfar uma pororoca gigante. Seria preciso uma prancha com flutuação bem maior para suportar a força das suas águas e também a ajuda de potentes jet-skis, pois o tsunami é 20 vezes mais rápido que a onda comum. Tomar cuidado para não trombar com troncos de árvores e pedaços de casas no meio do caminho também não seria exagero, já que o tsunami avança a 800 km/h pelo oceano e, quando chega à costa, varre como uma avalanche praias e cidades, arrastando detritos. Isso mesmo, uma avalanche. Essa é a forma de um tsunami, uma enorme espuma branca... Já pensou perder sua prancha por ali?

Fui pesquisar se haveria algum candidato para tal loucura, e descobri um voluntário a cair na água no meio de uma grande tormenta. Ele contou na reportagem que "numa onda de maremoto eu iria, mas teria de ser de tow-in e com um bom parceiro me rebocando. Já caí no mar no meio de um furacão no México. Tinha 25 pés de onda, e fui o único a estar ali". Além disso, ele completa "mas o tsunami mesmo eu não sei se daria para surfar, porque a onda não tem parede e a espuma dele te varre".

Já que a tarefa parecia inviável, fui ver se valeria a pena sair a bordo de um jet-ski ou barco a motor procurando um lugar em alto-mar, onde talvez seria possível surfar o tsunami. Ao perguntar a um amigo e estudante de oceanografia, ele diz não acreditar que esse lugar exista, porque a formação do tsunami é diferente à de uma onda comum. "O tsunami em alto-mar é uma ondinha muito baixa e que não quebra. Tanto que ele pode até passar despercebido".

Mas é interessante imaginar o surf sobre um tsunami. O peruano Felipe Pomar certa vez disse ter realizado a proeza, em 1974, numa ilha próxima de Lima, capital do Peru. Ele e o amigo Pitti Block estavam no mar, pegando ondas de 1 metro, quando o local foi atingido por um violento terremoto. Os surfistas foram sugados por quase 2 quilômetros oceano adentro, e meia hora depois Pomar teria conseguido pegar e surfar um tsunami de 3 metros até a praia. "Remei através dos destroços e cheguei a terra. Pitts chegou um pouco depois. As pessoas vinham correndo dos morros, sem acreditar que estávamos vivos", contou Pomar, anos depois, em uma entrevista na revista Surfer.

Bruno Ruy é estudante, surfista do Rio de Janeiro e, agora, pesquisador de tsunamis surfaveis pelo planeta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Brasil não pode desperdiçar esta onda

Surfistas comemoram escolha do Rio - Foto: Maurício Val / Fotocom.net
É só olhar para os lados e se vê que não faltam problemas ao Brasil. São muitas crianças nas ruas pedindo esmolas, uma estrutura educacional deficiente, serviços de saúde longe do ideal, medo da insegurança nas ruas e políticos corruptos agindo na cara dura. Porém, não se pode negar que nunca nosso país esteve em condições de surfar uma onda tão boa na área econômica e se fazer respeitar no mundo.

A grande evidência de que temos de aproveitar a oportunidade foi a impressionante vitória conseguida na corrida para sediar as Olimpíadas de 2016. A gente sabe que o evento não será a solução de nossos problemas, não acabará com a corrupção, não garantirá comida para os meninos e meninas que perambulam pelas esquinas e nem modernizará a estrutura do nosso surf. Mas, é inegável que haverá benefícios para todos.

O Rio deverá herdar várias melhorias em sua estrutura urbana e a economia vai girar com mais intensidade. Isso acontecendo, conseguiremos consumir mais comida e roupas e as empresas deverão investir em divulgação. Não é sonho acreditar que sobrarão recursos para patrocínio de atletas e competições de surf. Afinal, nosso esporte tem uma imagem ligada à juventude e esta faixa etária deve ser a que estará em destaque daqui a sete anos, quando a tocha olímpica for acesa em nossas terras.

No entanto, para que tudo não se transforme numa vaca, será preciso que a população acompanhe cada passo da organização. Há um medo geral de que aconteçam desvios de recursos e outras irregularidades na preparação do Rio 2016. Não podemos permitir isso. Como disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no discurso que emocionou o mundo, o Brasil recebeu um crédito de confiança. Não podemos perder esta onda. Vamos provar que temos condições de fazer jogos memoráveis e de melhorar a vida de nossa gente. A hora é esta e os amantes do surf, como bons brasileiros, não fugirão da batalha.