terça-feira, 10 de agosto de 2010

Elite dropa no Rio de Janeiro em 2011

Jadson defende título da etapa brazuca - Foto: ASP / Kirstin
Depois de receber os melhores surfistas do mundo durante os últimos oito anos, 2011 verá o ASP World Tour sair de Santa Catarina e dropar no Rio de Janeiro.

Além da mudança para a cidade maravilhosa, o evento estará fazendo história com uma premiação inédita de US$ 500 mil para os homens e US$ 120 mil de premiação para as mulheres.

Antecipando-se à Copa do Mundo de futebol em 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016, a ASP e a Billabong pretendem capitalizar a comunidade do esporte e aumentar o foco do país no surf profissional.

"A vitória de Jadson André neste ano agitou o país", diz Adriano de Souza. "Ele provou que um brasileiro pode vencer em alto nível na própria casa. E esta vitória animou a todos. E o aumento na premiação é fascinante. Mas o mais importante desta mudança é deixar as pessoas animadas com o Brasil. A cidade do Rio tem uma grande população e isso levará muito interesse no esporte", afirma Mineirinho.

A praia da Barra será o palco principal do evento. E as esquerdas do clássico pointbreak do Arpoador vão abrigar a estrutura secundária. Mas se os ventos não forem favoráveis em nenhum destes picos, as ondas do Canto do Recreio vão entrar em ação.

Fonte: ASP World Tour

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Surf rebocado na teoria e na prática

Cesar Calejon pratica tow in em Ubatuba - Foto: Arquivo pessoal
Por Cesar Calejon

Acredito que a grande maioria dos surfistas pensa que fazer tow in é "fácil", assim como eu pensava. Afinal, você agarra o cabo e o cara te joga nas bombas que você não conseguiria acessar na remada, sem ter que varar a arrebentação e tomar na cabeça, certo? Não exatamente.

Durante este último fim de semana, acompanhei o curso básico de tow in da Jet Resgate, empresa especializada em consultoria, treinamento e serviços aquáticos, em parceria com a Apnea Sports Consultoria Esportiva, que aconteceu em Ubatuba. Ministrado pelo Romeu Bruno, Zecão e João Capilé, todos watermen gabaritados, e pelo Christian Dequeker, profissional referência em apnéia no País, o treinamento discorreu sobre os fundamentos básicos do tow in. Tanto na teoria quanto na prática, a coisa é um pouco mais complexa.

No primeiro dia, as lições giram basicamente em torno do equipamento e noções elementares de segurança, desde como retirar o jet ski da carreta, passando por como você deve esquiar, até como proceder após a vaca. O curso tem protocolo para cada situação e existem mais situações do que você pode supor inicialmente. Paralelamente, técnicas de apnéia são oferecidas para capacitar fisicamente o surfista.

Toda essa metodologia é transmitida antes de ir para a água e reforçada na prática quando entramos no mar. No segundo dia, quando você coloca a alça no pé e finalmente acredita estar pronto para dropar as bombas, é que o bicho realmente pega. Soltar o cabo antes da hora, cair de cara, entre outros erros crassos são tão comuns na primeira vez que você fica chocado. Ainda bem que neste momento você está começando em 0.5 metro (obviamente sem um único surfista remando nas redondezas) e não em 12 pés havaianos de onda, que "de tow in é mamão". Isso sem falar da dor nas costas, bíceps, coxas etc, que você sente depois de pegar poucas ondas e esquiar um pouco.

A minha conclusão prática é que este é um esporte totalmente diferente, ou seja, não importa o quanto você seja bom no surf, você vai precisar ser humilde para aprender a teoria e prática do tow in a fim de atingir o preparo equipo, físico e mental necessários. Não é nada fácil!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A perfeição de J-Bay só pode ser coisa divina

Em 2008, Kely Slater venceu em J-Bay - Foto: Arquivo ASP
Por Bruno Ruy

Por mais incrédulo que você seja, fica difícil duvidar da intervenção divina em Jeffrey's Bay, no sul da África do Sul, quando o swell começa a entrar alinhado na baía. Com os seus tubos milimetricamente impecáveis e as longas paredes manobráveis, J-Bay é a materialização do sonho da onda perfeita. "Jeffrey's é a jóia gelada do hemisfério sul e indiscutivelmente o point de melhor forma do mundo", disse Wayne Bartholomew, campeão mundial em 1978. A temperatura baixíssima da água e os fortes ventos obrigam os surfistas a usarem roupa de borracha espessa e que cubra o corpo todo.

A onda de Jeffrey's Bay pode ser dividida basicamente em cinco seções distintas: Boneyards, Supertubes, Impossibles, Tubes e The Point. Boneyards é a mais outside e difícil de quebrar. Depois vêm Supertubes e Impossibles, que com os seus tubos mágicos, longos e velozes são as mais clássicas e responsáveis direitas pela idolatria em torno de J-Bay. Para encerrar, duas seções menos intensas, mas não menos perfeitas, Tubes e The Point são normalmente tomadas por longboarders e iniciantes.

Em dias raríssimos, pode-se surfar da Boneyards à The Point em uma única onda. O surfista agraciado com tamanha dádiva percorre mais de um quilômetro e fica até dois minutos em cima da sua prancha. Em 1984, Picuruta Salazar, um dos maiores campeões da história do surfe brasileiro, realizou a proeza em ondas de 6 a 8 pés. Para registrar o feito, depois de passar por todas as seções, Picuruta saiu da água e desenhou um P gigante na areia.

AS PERFORMANCES ÉPICAS

As condições únicas de Jeffrey's formam o palco ideal para performances épicas dos surfistas de vanguarda através dos tempos. Na década de 70, o australiano Terry Fitzgerald e o sul-africano Shaun Tomsom, campeão mundial de 1977, foram os primeiros a dominar por inteiro a onda e mostraram ao mundo como andar rápido e dentro dos canudos no pico.

Nos anos 80, o australiano Mark Occhilupo, que viria a ser campeão mundial em 1999, provou com o seu backside attack que era possível surfar as direitas de J-Bay de costas para a parede tão bem quanto de frente. Mais recentemente, o americano Kelly Slater redefiniu os limites do lugar ao completar manobras para lá de radicais em pontos críticos da onda e ficar entocado mais fundo do que qualquer outro jamais conseguira.

SURFANDO COM O INIMIGO

Nem tudo são ondas no paraíso. O astral em J-Bay mistura os ventos terrais gelados, as roupas de borracha, as patrulhas de madrugada, as longas remadas e... o medo dos tubarões-brancos. Uma vez dentro da água, a sensação de estar sendo observado, ou até mesmo escolhido, é constante. Em 1998, após 12 anos sem nenhum registro, seis ataques aconteceram em um raio de 100 km ─ um deles, fatal. Os golfinhos também são locais do pico e costumam aparecer às dezenas, quando não às centenas, para dividir as ondas com os surfistas.

POR QUE JEFFREY'S BAY?

A cidade da onda mais famosa da África do Sul foi batizada com o nome do caçador de baleias J. A. Jeffrey, que em 1848 fundou o primeiro hotel do então pacato vilarejo. O antigo povoado de pescadores se transformou em uma bela e organizada cidade de veraneio, com freqüentadores de alto padrão e mansões imponentes de frente para a praia. Há algumas versões diferentes sobre quem foi o primeiro surfista a desbravar as ondas de J-Bay. A mais difundida é a de que na Páscoa de 1964, meia dúzia de surfistas da Cidade do Cabo tentaram pegar algumas ondas em Supertubes. Foram surpreendidos pela rapidez das ondas e acabaram surfando The Point. Supertubes só seria conquistada alguns anos mais tarde.

Bruno Ruy é estudante, apaixonado por surf e acredita que paraísos como J-Bay precisam ser preservados.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O paraíso pode ser aqui

Beleza e potência das ondas em Sampa - Foto: Cesar Calejon
Por Cesar Calejon

Durante o primeiro jogo do Brasil na Copa 2010, nesta última terça-feira (15), tive uma folga no trabalho e fui surfar no Guarujá (SP). Fiquei realmente impressionado com o dia que tivemos em uma das praias da região.

Além das ondas, que quebravam entre 4 e 6 pés, com a formação boa (algumas fechavam, mas estava bom) e praticamente ninguém na água, o sol, a fauna e a flora do local me fizeram pensar que de vez em quando o paraíso também é aqui.

Surfei por quase duas horas e é verdade que as condições no Brasil raramente se assemelham às encontradas na Indonésia, Taiti, Maldivas, entre outros picos tropicais com fundos de pedra ou recife, mas um dia como terça-feira pode ser tão especial quanto os proporcionados nestes lugares. E depois, para completar, o Brasil ganhou da Coréia do Norte. Tudo bem, não convenceu, mas venceu! Que dia!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Surf feminino também existe e precisa de apoio

Silvana dando show nas águas peruanas - Foto: Morris
Veio em muito boa hora, a vitória de Silvana Lima, nas ondas peruanas. Agora, a cearense pegou moral e pode ir pra cima das australianas que estão na sua frente no ranking. Silvana já está mandando bem há um bom tempo e "quase" levou o título: uma vez teve o direito de reclamar do julgadores e a na outra não tinha como bater essa fenomenal revelação do surf, que é Stephanie Gilmore. A parada está muito difícil este ano, mas há sempre a esperança que é a última a morrer.

Nossa heroína cearense enfrenta, além de todos os problemas que afetam os atletas brasileiros dos dois sexos, o tratamento diferenciado que se dá ao surf feminino. Por mais que alguns patrocinadores e as entidades que comandam o esporte neguem, é evidente que as gatinhas recebem menos apoio. O argumento e claro, são as feras do masculino que dão mais retorno para os investidores. Essa verdade seria suficiente para calar a boca de quem reclama, se a desproporção entre os tratamentos não fosse muito grande.

Quem acompanhou a etapa de San Bartolo, no Peru, viu um surf de qualidade, comparável às grandes disputas envolvendo as feras do masculino. Porém, o destaque conseguido entre os admiradores do esporte foi bem menor. É verdade que essa diferença de tratamento acontece também em outras modalidades. Os brasileiros veem sua equipe de futebol feminino sem apoio e os americanos não admiram suas campeãs no basquete. Talvez, apenas o vôlei e o tênis conseguem uma repercussão semelhante e isso tem a ver com a estética das atletas.

O Brasil tem uma boa safra de gatinhas que impressionam nas ondas e poderia iniciar sua luta para se impor no cenário internacional pelo feminino, pois a concorrência é menor. Enquanto Mineirinho e, agora, a revelação Jadson André, enfrentam nomes consagrados, as meninas têm apenas as australianas (que são boas) para atrapalhar. De qualquer forma, independente de ser uma estratégia de expansão, precisamos apoiar mais o surf feminino, inclusive prestigiando as iniciantes. A nova vitória de Silvana mostra que temos espaço para crescer.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um mergulho na história ao som de Beach Boys

Fico se impressiona com aviões de guerra
Por Raphael Levy, o Fico

Tive a oportunidade de conhecer San Diego uma das cidades mais bonitas da Califórnia.. Estive lá em abril, convidado para uma festa de uma empresa de aparelho auditivo, que promovia um congresso do qual minha esposa foi participar. San Diego tem vários picos muito legais para conhecer, como praia, barzinhos, etc. Foi uma oportunidade para unir o útil ao agradável e pude relembrar o som dos Beach Boys, uma banda da minha época de surf e rever Alegrias de Verão, um filme emocionante.

Durante o congresso, muitas festas rolam à noite, em vários lugares. Uma das empresas resolveu fazer a festa dentro do Midway. O que é Midway? É um porta-aviões que está ancorado em San Diego e onde construíram um museu. Tem que pagar para entrar e o acesso é maravilhoso, na entrada tem uma estatua enorme de um marinheiro se despedindo da noiva. Eles criaram um ambiente do lado de fora com um microfone em uma saída de navio e você entra no clima. Tem brinquedos, mas ele é um porta-aviões verdadeiro, que foi para guerra. Ele fica ancorado lá com todos os aviões e helicópteros de todas as guerras que os EUA participaram. Eu tive a oportunidade que você vê na foto de tirar foto junto com os aviões e nessa festa, na realidade, tinha vários points de comidas e bebidas, tinha mais ou menos 6 mil pessoas, o que me deixou mais impressionado nesse porta aviões, não foi só você poder entrar nos aviões de guerra, mas ficar dentro daquele ambiente que é de impressionar, até de assustar, como uma guerra, a gente vê imagem de televisão de guerra, bomba tudo isso, que é assustador. E quando você está muito perto desses aviões, você se assusta muito mais. Vocês não podem acreditar o quanto eles investem, uma coisa grandiosa para por o navio para ir para guerra e aquilo lá se tornar um museu e você ver aquela coisa bonita, sendo que já matou muita gente.

A festa foi feita nesse ambiente, porque na pista de pouso, no último andar, eles criaram um palco e chamaram os Beach Boys, uma banda da minha época de surf, então eles montaram um palco com coqueiros e tinha um telão, passando Alegrias de Verão, aquele filme da época dos anos 70 de surf com longboard. Os Beach Boys, os caras com 60 anos, tocando, nossa! Parecia que eu tinha ganho um presente, ao invés de estar em um congresso, na realidade, foi mais uma oportunidade que eu tive de ver a banda, dentro de um porta aviões. Passou tanta coisa na minha cabeça, passou guerra, passou a beleza dos aviões e no final fui premiado com o show dos Beach Boys. Para se ver quanto se gasta para se fazer um marketing de um evento tão grandioso, essas empresas de aparelho auditivos, eles me deram de presente o show por eu estar participando dessa festa. O final de um evento desse, é que me deixa acreditando em Deus, Ele me mandou para uma festa de aparelho auditivo, o ambiente era legal em um porta aviões que transmitia guerra e no final, estava tocando Beach Boys, uma banda de surf com um filme de surf. Eu fui para a festa, porque eu deveria estar naquela festa. Tem tudo a ver".

Raphael Levy, o Fico, é empresário, apaixonado por surf, e foi um dos pioneiros na profissionalização do esporte no Brasil.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um olho na Copa e outro nas ondas

Jadson comemora gol de placa na Vila - Foto: ASP / Kirstin
Quem dera o surf recebesse a mesma atenção que o futebol no Brasil. Em ano de Copa do Mundo então, as atenções estão todas voltadas para a redonda e os convocados de Dunga. O país para, a população se aperta na frente de uma televisão para acompanhar a abertura, os jogos e o encerramento. Sem falar na matada no horário do trabalho que todo mundo adora.

Não podemos comparar o esporte que possuímos o Rei e fabricamos príncipes com o surf onde o dono do trono é da Flórida, e os príncipes se espalham pela Austrália e Hawaii. Mesmo que, ao invés de Kelly Slater, o Rei fosse Carlos Leite, ainda há dúvidas se as atenções se dividiriam. Infelizmente é cultural. O País é do futebol, mas nunca é tarde para começar.

O retorno financeiro do futebol é muito maior, mas o investimento também. O salário faz a molecada sonhar em jogar no Morumbi, mas toda criança que tem a possibilidade de conhecer o mar e suas ondas esquece, nem que seja por alguns segundos, as pedaladas de Robinho e se fascina com o deslize de uma prancha. As dancinhas de Neymar perdem a graça, comparado ao "voar" sem asas de um surfista. Nem que seja por um instante.

Voltando a realidade, futebol gera muitos lucros, mas o surf pode gerar se existir investimento e comprometimento. Não temos Reis, mas Adriano, que não é o Imperador, mas sim o Mineirinho, pode aprontar no melhor estilo "surf moleque" e assumir o trono. Jadson, que tinha tudo para seguir a carreira de jogador de futebol como seu pai, está na "Copa do Mundo do Surf" buscando seu espaço, enquanto Neymar e Ganso aguardam, contra a vontade do povo, suas oportunidades de vestir a amarelinha na equipe principal.

Se o Brasil revela jogadores de futebol de monte, podemos falar o mesmo em relação ao surf. Gabriel Medina é um exemplo, assim como Alejo Muniz, Wiggolly Dantas, Jessé Mendes, entre outros.

O investimento no esporte é muito escasso, comparado ao que gera de renda o mercado surf. Como dizem: "Quem divide, multiplica". E assim, vamos abrir os olhos para outros esportes e dividir para que o Brasil seja o País do Futebol Sport Surf, Surf Futebol Clube, Novo Basquete Surf, Surf Federação brasileira de Vôlei ...

sábado, 1 de maio de 2010

Magrelinho com fome de vitória

Jadson faz a festa da torcida brasileira - Foto: Zé Eduardo
Por Michel SP

O potiguar Jadson André entrou para a história na etapa do mundial da ASP no Brasil. Depois de mais de 10 anos, um brasileiro voltou a vencer e convencer juizes e competidores. O público é um caso a parte. Afinal, era um tupiniquim na água. Com manobras modernas nas esquerdas da Vila e muita pancada de backside nas direitas do pico (lado que sacramentou a vitória sobre Mr. Slater na final), Jadson encarou todos os seus adversários como se fossem free surfers, como se estivesse disputando ondas na remada para impressionar a ninguém, ou alguma gata na areia, a lycra colorida era um mero detalhe.

Quem quer ser campeão deve ter o espírito de vencedor mesclado com a alegria de se fazer o que gosta. Não adianta apenas estratégia de bateria, saber usar a prioridade, posicionamento no pico. O sentimento de chegar aonde se chegou feliz da vida por poder deslizar em pé numa prancha é essencial.

Pressão? Nenhuma. Pra que? Só atrapalha. Tudo pode acontecer, até tubarão aparecer. Então o melhor é relaxar, se pintar a necessidade de marcar o careca, ótimo, caso contrário, segue pegando onda, decolando e abusando dos reverses.

E foi isso que Jadson fez em todas as suas baterias. Perdeu quando podia perder e depois surfou como se estivesse no quintal de casa na maioria do tempo e quando precisou partir para a estratégia, fez da melhor maneira possível. Todo grande atleta conta com ajuda da sorte. Contra o queridinho da mídia Dane Reynolds, vacilou nos minutos finais. Perdeu a prioridade, coçou a cabeça e, quando tudo parecia perdido, quebrou uma esquerda de high score para garantir a vaga. Sem desespero, perder não é o fim do mundo, para alguns.

"O Jadson estava com tudo na bateria. Ele surfou os cinco primeiros minutos da bateria como se eu nem estivesse lá. Demorei pra entrar no jogo e quando eu vi ele já tinha um 7 e um 8 e eu não tinha nada. Além de estar surfando muito bem, ele teve o apoio da torcida.", palavras de Dane.

Infeliz na bateria decisiva e nos comentários, Kelly Slater pareceu não saber perder para um jovem brasileiro cheio de disposição, feliz da vida por ter vencido seu ídolo e acreditar que sua conquista foi um "milagre".

Caro Slater, todos na praia sonhavam, torciam e acreditavam que Jadson poderia chegar a final. Ele apresentou o melhor surf da competição, seria injusto ele ficar de fora do lugar mais alto do pódio.

"Acho que todos aqui imaginariam uma final contra o Mick (Fanning), o Joel (Parkinson), mas estou feliz pelo Jadson vencer aqui em casa", disse Slater. Será?

"Agora ele precisa evoluir em ondas mais difíceis, como Jeffreys Bay (África do Sul), Teahupoo (Taiti), onde os aéreos não são tão valorizados", finalizou Kelly.

Evolução é importante para todos. Até para o careca no auge de seus 38 anos e 9 títulos mundiais. Mas, não importa em qual terreno o gol do campeonato foi marcado, como dizem, gol é gol.

O Jadson precisa melhorar, Mineiro também, mas são essas vitórias que fazem o surfista crescer e acreditar que um dia pode chegar aonde o careca chegou tantas vezes. Se o potiguar vai apresentar um bom surf em J-Bay ou Teahupoo, não sabemos. O que sabemos é que o magrelinho vai com fome de vitória para cima de seus adversários sem medo de ser feliz.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Jadson mostra que o surf brasileiro tem futuro

Jadson André abusa das manobras aéreas - Foto: ASP / Daniel Smorigo
Quem foi a praia da Vila esperando ver show de Mineirinho e Neco, teve a surpresa de comemorar uma façanha verde-amarela, mas de outra fera de nosso surf. O potiguar Jadson André, em sua estréia na elite mundial, foi o campeão da etapa do World Tour decidida nesta quinta-feira (29). E a nova sensação brasileira não se intimidou em enfrentar nomes consagrados, chegando à final contra a lenda Kelly Slater e encarando o nove vezes campeão sem medo.

Além de ser uma vingança pelo ano passado quando Slater derrotou Mineirinho, o resultado mostra que o Brasil pode se transformar em um centro formador de talentos sobre pranchas. Infelizmente, por ironia, a conquista acontece em um ano em que o evento foi patrocinado por uma multinacional. Sabemos que a globalização econômica provocou uma concentração entre as empresas que reduziu a concorrência a alguns gigantes e, só esses, têm chance de bancar o custo de uma etapa da elite. Mas, assim mesmo dói ver que as marcas brasileiras estão encolhendo.

Os muitos "Jadsons" e "Mineirinhos" que brilham em nossos picos só poderão ter a oportunidade de se revelar se tiverem apoio e patrocínio. A vitória que a praia da Vila viu entra para a história como um momento de afirmação do surf nacional e, principalmente, como prova de que temos muitas opções de candidatos a vencedores.

Além disso, vale lembrar que Carlos Burle foi coroado no sábado (24), na Surfing Heritage Foundation, em San Clemente, Califórnia (EUA), campeão Mundial de Ondas Grandes e Maya Gabeira conquistou pela quarta vez consecutiva o prêmio XXL Big Wave.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Segredos de um click

A beleza da fotografia por Edu Vertullo
Por Eduardo Vertullo

Após sua invenção em 1839 a fotografia altera de modo significante o modo de vida das pessoas do século retrasado. Atinge diretamente os pintores de ofício, direcionando os serviços antes feitos pelos pintores (retratos, vistas de cidades e de campos, reportagens, ilustrações etc.) para os fotógrafos.

A tecnologia aplicada para a captação de imagens faz da fotografia o meio mais rápido e fiel de se guardar a realidade de uma cena por um longo período, mesmo sendo uma recordação pessoal e familiar como também de fatos marcantes de importância nacional e internacional, de personalidades do meio artístico, político do esporte etc.

A fotografia permite ver um grande número de detalhes que escapam à percepção visual e à atenção visual, sendo capaz de transmitir sensações sutis ao se observar uma boa foto.

Sua relação com as artes não foi só de direcionar o trabalho dos pintores para uma atividade de elite, mas também ajudou os grandes mestres das artes a avaliarem suas obras do ponto de vista da pesquisa sobre a visão.

A invenção da fotografia e o seu desenvolvimento tecnológico permitiram ao homem uma nova visão sobre a realidade e o meio ambiente, trazendo para mais perto o que está longe de nossa percepção visual.

quarta-feira, 31 de março de 2010

G-land e Bankvaults de responsa

Cesar se posiciona para entrar no cofre - Arquivo pessoal
Por Cesar Calejon

Duas das ondas mais perfeitas do mundo são G-land, em Java, e Bankvaults, nas Mentawai.

Ambas possuem características distintas, mas vão te proporcionar os melhores momentos da vida como surfista. A primeira roda para a esquerda e tem 3 seções: Kongs, Money Trees e Speedies. Speedies é mais buraco e rasa, mas uma onda acima de 6 pés havaianos em qualquer uma delas vale por toda uma vida de tédio. G-land é aquela onda desafiadora, que pode te meter medo, mas, ao mesmo tempo, é tão perfeita, lisa, verde, dá chance de dropar com segurança....vai? Leva uma gun, primeiros socorros, botinha, capacete, muito protetor e repelente, vacinação em dia etc etc. G-land fica no meio de uma selva e lesões mais sérias podem ser fatais. Dias antes de chegarmos em 2008, um francês quebrou a pélvis e quase morreu. Escapou porque um helicóptero veio resgatá-lo.

Já Bankvaults é uma onda que quebra bem cavada para a direita. O problema é que o lineup sempre muda naquele lugar, ou seja, você vai tomar na cabeça não importa o tamanho. Além disso, ela também é razoavelmente rasa. Caso você consiga administrar bem estas duas características, provavelmente você vai surfar o melhor tubo da sua vida, com 6, 8 pés, por centenas de metros, talvez. Bankvaults tem esse nome, que significa "cofre de banco", porque é exatamente isso o que ela é: difícil de entrar e pesada. Não importa o quanto antes você reme, a parede está sempre vertical na hora do drop. Escolha uma prancha um pouco maior nesse pico, tipo uma 6,7 para 6 pés de onda.

Essas foram as minhas dicas considerando dois dos lugares onde eu vi e peguei as melhores ondas da minha vida até aqui. Espero que elas possam te ajudar a fazer o mesmo.

terça-feira, 30 de março de 2010

A busca pelos tubos

Tubos são caçados incansavelmente - Foto: Eduardo Vertullo
Por Eduardo Vertullo

Indiscutivelmente o tubo é o ponto máximo para qualquer surfista, seja grande ou pequeno, todos sonham em surfar ondas perfeitas e tubulares.

Para nós brasileiros a busca pelos tubos é interminável, no país do futebol sofremos um pouco com isso, porém sempre novos picos estão sendo descobertos em nosso litoral e muitos com ótimos tubos, além dos picos já famosos por seus cilindros. Rio de Janeiro e Santa Catarina carregam já há algum tempo essa fama se tornando exemplos que em terras tupiniquins é possível pegar bons tubos, claro que sempre dependemos das melhores condições para isso.

Menos famosa por seus tubos é São Paulo, todos imaginam São Paulo somente como uma gigantesca cidade urbana aonde o caos toma conta da vida de seus habitantes, e isso é verdade, mas bem perto de todo esse caos existem maravilhosas praias e muitas com ótimos tubos, principalmente no litoral norte do estado, nas praias de São Sebastião e Ubatuba é possível confirmar isso.

Ainda não podemos comparar os tubos tupiniquins com tubos internacionais, digamos que alguns sim, mas a maioria não, porém não podemos mais menosprezá-los, é certo que temos que ter um pouco de paciência, mas eles aparecem, basta estar no local e momento certos.

Serial trip de inverno

Ondas e clima de inverno fazem a cabeça - Foto: Cortesia Quiksilver
Por MichelSP

6:00 da manhã o despertador toca. O barulho da leve chuva batendo na janela do quarto e o frio da noite que se estende pela manhã, junto com o corpo cansado de uma semana inteira de trabalho, torna mais difícil a missão de abandonar a cama.

Desligado o alarme, o interfone é que acaba com o silêncio da manhã cinza e fria em um apartamento vazio. A pressa me consome. Ainda desorientado pelo sono, escuto o celular tocar. Não o atendo e continuo preparando minha bagagem. Coisas simples, porém essenciais.

Deixo o ambiente tranqüilo do apartamento e entro no elevador. Pelo hall do prédio o frio aumenta. Com um irônico sorriso de canto da boca, o porteiro questiona minha bagagem. "É um defunto que você carrega?". O comentário só alimenta meu mau humor. Mas continuo meu caminho.

Com um agasalho e um capuz me protejo do frio e da chuva, enquanto coloco o "corpo" coberto que carrego dentro do porta malas de um carro que bem poderia ser de uma agência funerária.

Ninguém na rua e poucos carros passam sem pressa, observando, com olhar de testemunhas, o que duas pessoas faziam naquela hora.

Um café puro na padaria da esquina ajudava a espantar o sono e aquecer meu corpo. Poucas palavras. Ambiente vazio. Céu escuro e chuva fina. Sigo meu destino.

Dentro do carro conversa em tom baixo, clima, pode-se dizer, amistoso. Limpador de pára-brisa no máximo. Aceleração intensa só do coração. Assim, sigo em frente.

Longa estrada, descidas e curvas consomem a atenção. Policia na área. Velocidade controlada.

O som psicodélico do Pink Floyd é a trilha sonora. O caminho é longo, mas tem fim e, quanto mais próximo, maior a ansiedade.

A chuva dá uma trégua, o destino se aproxima. Está chegando a hora. O responsável pela direção encosta o carro.

Pronto. Chegou a hora! Local vazio depõe a favor. Tiro certeiro. Os "corpos" são retirados do carro. Ninguém por perto.

Aceleramos os passos. Eufóricos e desconfiados, a roupa justa e grossa dificulta os movimentos, mas não nos segura. O frio neste momento é só na barriga.

Os pés congelam por segundos. Corpos sobre "corpos" se aquecem em movimento. Aos poucos a situação entra no trilho.

Tudo acontecendo de acordo com o programado. Mas nunca pode se descuidar. Em fração de segundos tudo vai por água abaixo. O entrelaçamento hostil entre os corpos provoca o fim. Ironia do destino. Nem sempre o fim é totalmente triste. Os momentos bons na memória fazem a cabeça.

De volta a selva de pedras com céu claro e leve vento frio, retorno ao apartamento. Em tom de brincadeira com um sorriso largo, pode-se dizer, mostro uma prancha dividida em duas partes ao porteiro "Mãe Diná" e respondo a então pergunta feita pela manhã: "Agora sim!"

sábado, 27 de março de 2010

Santa Cruz - a verdadeira surf city

Locais fizeram a festa no pico - Foto: Marcelo Bolão
Por Marcelo Bolão

Embora Huntington Beach tenha ganhado na justiça o direito de usar o título "Surf City USA", quem entende de surf sabe que Santa Cruz é a autêntica cidade do surf americana.

Huntington Beach tem boas ondas, um dos campeonatos mais tradicionais de surf mundial e as mais importantes lojas especializadas no esporte.

Mesmo com muitos surfistas profissionais morando em Huntington, a cidade é infestada pelos chamados "simpatizantes". Eles se vestem como surfistas, falam como surfista, alguns até possuem pranchas de surf, mas não entram na água nem para pegar jacaré.

Santa Cruz é diferente, a começar pela temperatura da água que é gelada. Não foi por acaso e sim por necessidade que um local de Santa Cruz (Jack O'Neill ) inventou a roupa de borracha. Os surfistas de Santa Cruz não estão preocupados em comprar a ultima bermuda da moda, eles estão preocupados em descobrir quando o próximo swell vai encostar.

Jeff Clark surfou Mavericks sozinho por 15 anos até a comunidade de big riders tomar conhecimento do pico. Enquanto Huntington Beach só tem beach breaks, Santa Cruz possui vários point breaks de nível mundial.

Apesar da fama de encrenqueiros que os locais de Steamer Lane tem, no dia que tirei essas fotos, havia pouquíssimos surfistas na água. Se você chegar sozinho e esperar a sua vez no outside, pegará as melhores ondas da sua vida. Pode acreditar!

Para saber mais sobre o trabalho de Marcelo Bolão, acesse http://www.chutaobalde.com/.

sexta-feira, 12 de março de 2010

“Rebeldia” tem limite

Slater 'ferve' a careca sobre o assunto - Foto: Grambeau
O início da temporada da elite do surf em 2010 tinha lances dignos de concentrar o interesse dos amantes do esporte, especialmente as novidades na classificação e os critérios de julgamento das disputas. Porém, o que mais deu o que falar acabou sendo a as palavras do grande Kelly Slater sobre o chamado "circuito rebelde". O nove vezes vencedor do campeonato mundial se enrolou bastante e quem não conheceu a história das negociações para a criação de um novo "Tour" milionário e restrito às grandes estrelas pode pensar que tudo foi invenção da mídia.

Na verdade, Slater poderia ter ficado calado pois pegou mal ele vir com essa conversa de que não esteve envolvido na tentativa de lançar um circuito paralelo. Se não tocasse no assunto não daria a impressão de que "amarelou" e se submeteu às regras de quem coloca dinheiro no evento. O povo costuma dizer "manda quem pode, obedece quem tem juízo" e foi isso que aconteceu. Os grandes patrocinadores podiam mandar e os atletas obedeceram, inclusive a lenda viva Slater.

Se houve algum aumento nas notícias sobre a revolta das estrelas ou um fato não confirmado, isso não quer dizer que não havia a vontade de mudar o esquema e elitizar o surf mundial. O eneacampeão comemora as mudanças em implantação como resultado do movimento (isso já significa que ele reconhece que houve a tentativa). De resto, ele sabe que para ainda sonhar com o décimo título tem de ficar onde está, recebendo milhões e divulgando seu patrocinador, que banca duas etapas do Circuito da ASP.

Slater tem o direito de mudar de opinião e de se negar a explicar porque está negando o que todos sabem. Esperamos que ele continue dando show na água, mas com cautela nos comentários.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Superbank ou Kirra? Eis a questão

A mão humana influencia na Gold Coast - Foto: ASP Kirstin
Por Bruno Ruy

A Gold Coast é um pedaço de litoral famoso em todo o mundo por suas incríveis ondas em diversos point breaks. O que a maioria não sabe é que as praias na Gold Coast sempre tiveram a mão do homem para alterar o que antes era natural.

Mineração de areia, estabilização da saída de rios para facilitar a navegação, quebra-mares para a manutenção das praias e muitos outros experimentos.

A última empreitada foi dragagem do rio Tweed no sul da Gold Coast, ao lado de Duranbah. O objetivo era bombear a areia na baía de Coolangatta, pois Kirra sempre perdia enormes proporções de areia na época dos ciclones e a erosão da praia era um problema sem fim. A prefeitura então resolveu solucionar o problema e foi assim que surgiu o Superbank, sem a menor intenção de criar uma onda espetacular.

Porém, como tudo que é bom dura pouco (e lá foi um esculacho), a antes longuíssima onda que começava em Snapper, passando por little Marley, Greenmont e Kirra, terminando no little groyne, (onde antes havia o segundo quebra-mar de Kirra) foi uma doideira durante 1 ano mais ou menos e depois quando os ciclones vieram, o fundo mudou e a onda começou a ficar seccionada. Outro problema e esse bem agravante, foi que onde antes haviam as quatro ondas citadas acima, para todos os níveis de performance, virou uma só e o crowd ficou ainda pior do que já era.

Com a onda do Superbank perdendo sua qualidade original, várias perguntas vieram à tona e aquela que criou mais alarde foi o que poderia ser feito para recuperar a lendária onda de Kirra, que hoje raramente quebra.

Segundo o local e ex-presidente da ASP, Wayne Bartholomew, quando a prefeitura iniciou o projeto de bombear a areia na baía de Coolangatta, eles também modificaram o famoso quebra-mar responsável pela alta qualidade das ondas. "Se em algum lugar do mundo eles tivessem a melhor onda do planeta, não acho que eles deixariam desaparecer. Nós precisamos trazer de volta o big groyne (o quebra-mar grande) para as dimensões de antes do ajustamento. Isso não é teoria, nós temos um banco de dados de 23 anos que prova isso".

O comentário de Rabbit foi seguido de um fórum público atendido por mais de 200 pessoas que procuravam a solução para trazer de volta o lendário tubo de direita, uma das ondas mais desejadas de todo o mundo.

Rabbit ainda diz: "acho que se nos concentrarmos em restaurar a qualidade da onda de Kirra, podemos fazer com certa facilidade, pois não é necessária intervenção estadual (lá também sempre rola problema entre o estado e as prefeituras). Foi a prefeitura da Gold Coast quem construiu o quebra-mar e o modificou, eles então poderiam recuperar as antigas dimensões".

Porém, um pesquisador da Griffith University Gold Coast, encarregado de achar uma solução, diz que uma opção para recuperar os dias gloriosos seria deixar a natureza tomar seu próprio curso.

Neil Lazarov surfa a mais de 20 anos, trabalhou na Surfrider Foundation Australia e chefia o time de pesquisa encarregado em procurar soluções para o problema, ao mesmo tempo em que protege a costa. Ele diz que a qualidade da onda piorou no decorrer dos anos por causa do projeto de dragagem do rio Tweed, que bombeou um excesso de areia na baía de Coolangatta e não houve tempestades com força suficiente para mover a areia adiante.

Ele diz também que várias soluções de engenharia foram postas em prática para evitar a erosão e reposição de areia nas praias nos últimos 20 anos, como dragagem, bombeamento de areia, quebra-mares etc.

"Nós estamos tentando elaborar o projeto junto com a comunidade do surf... se o verdadeiro objetivo for melhorar a qualidade da onda, cada opção possui os prós e os contras e isso fica a critério da comunidade e não da universidade".

Vamos ver o que acontece. A verdade é que sempre que mexemos com a natureza, nunca sabemos realmente no que vai dar. O que possuímos são inúmeras estatísticas de todos os tipos que podem nos dar uma falsa previsão dos fatos, visto que casualidades podem ditar o curso dos acontecimentos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Rifles é isso!

Por Cesar Calejon
Calejon se aventura pelas direitas - Foto: Arquivo pessoal

Lembra de um filme das antigas chamado Lost At Sea? Ele tem algumas sessões com Andy Irons, Cory Lopes e o time da marca na época em tubos muito fáceis, tipo 5 pés, perfeito e rodando por centenas de metros. Água azul e tubos de 10 segundos ou mais. Bom, o "muito fácil" foi como o filme me impactou na época, vendo os melhores profissionais do mundo quebrando aquelas ondas, porque Rifles é isso: uma bomba.

Localizada quase em frente ao Kandui Resort, nas Mentawai, esta direita roda muito forte sobre uma bancada rasa de reef. Vacar feio num dia acima de 6 pés representa quase certeza de bater no fundo, e se cortar. Após algumas quedas mais atiradas você provavelmente vai começar a procurar defesas, como roupa de borracha full suit, botinhas etc, mesmo com a água quente. Tem uma prancha no Kandui, autografada pelo Slater, na qual ele escreveu o seguinte: "Shred so bad you burn your stoke?", que quer dizer basicamente: "Será que você está tão cortado que começa a se questionar se vale a pena?". Rifles é isso, e a resposta é sim, claro, ainda que todo cortado, que vale a pena.

Uma única onda com mais de 4, 5 pés em Rifles pode pagar a sua viagem. Ela é totalmente perfeita, o que te oferece a chance de tentar drops atrasados e acertar aquele tubão, ou não! Além disso, ela se desloca por muitos e muitos metros, e o que é melhor: com uma intensidade e punch para ninguém botar defeito. Rifles é isso, essa onda que vai te fazer vender tudo que você possui e redirecionar a sua vida para o que realmente interessa: Surfar!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Santos surf-City

Santos tem estrutura, segurança e ondas - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

PIONEIROS

A baía de Santos assistiu o primeiro surfista brasileiro levantar-se sobre uma prancha em 1934. Thomas Rittsher resolveu fabricar um daqueles estranhos barcos que descobriu na revista Popular Mechanics e imitar os sujeitos que viu nas fotos. E caminhou sobre as ondas. Bem, não foi assim tão fácil como ele mesmo publicou: "Sem a mínima orientação comecei a remar nas ondas com a ponta estreita da tábua voltada para frente. Percebi, entretanto, que ela tendia a afundar, inclinando-se para frente, o que obviamente impedia de correr toda a onda. Resolvi então inverter a posição da prancha e colocar a ponta arredondada para frente, foi aí que funcionou". Depois de descobrir o que era rabeta e bico e o prazer de "andar sobre as ondas" ajudou seu amigo João Roberto Haffes, a construir uma segunda prancha. Surgiu o primeiro crowd. Mais pranchas e novos praticantes apareceram na praia. Osmar Gonçalves era um deles. E assim o surf caminhou por ali, sobre as ondas, tranqüilo e quase despercebido até o começo dos anos 60.

ESCOLA DE PAI PRA FILHO

Existe uma razão quase antropológica para a cidade que abriga o maior porto do Brasil ser o que é. O surf surgiu na ilha como mais uma de suas atividades praianas. Cresceu como cultura local, conseqüência lógica de um ambiente propício aos esportes aquáticos. Remo, natação, jacaré, pranchinha de isopor e planondas já faziam parte do cardápio familiar daqueles oito quilômetros de praia divididos por seis canais que criam boas bancadas de areia. Ali tudo é propício. Caso seu pai não seja o primeiro a incentivá-lo a surfar, com certeza você acabará indo com um tio, primo ou alguém bem próximo.

O clima é quente no verão e agradável na maior parte do ano, assim como a temperatura do mar, já que as correntes frias de leste passam por fora da baía. Ondas amigáveis proporcionam pura diversão. A arrebentação não chega a ser complicada e facilita a vida de quem está começando. "Para quem quer aprender Santos é uma onda perfeita. Se o cara quiser ser surfista e não conseguir aprender aqui, pode desistir porque não vai aprender em nenhum outro lugar. Santos é uma escola", diz Picuruta Salazar, santista e ícone do surf no Brasil. Cisco Araña vai mais longe: "O surf cresce na cidade porque aqui você tem uma iniciação prazerosa, muita segurança e o exemplo de felicidade de tantos adeptos de todas as idades. É uma onda divertida, uma coisa familiar. Aqui é o berço do surf brasileiro. Dá pra sentir isso até na atitude das pessoas dentro d’água. Se você vier, não importa quem seja ou com que tipo estiver, acredite, não tem briga. O espírito de ALOHA está aqui".

GENÉTICA × PRECONCEITO

"É a maior concentração de surfistas do litoral paulista, com certeza. É incrível o número de pessoas que encontro na rua que já pegou onda e ta querendo voltar, até por não ser mais marginalizado, é inacreditável". Quando Picuruta diz que há muita gente ele não está brincando. Pardal já contou 790 pessoas no line up do Canal 5 até o Canal 1: "Os havaianos nos ensinaram isso. Quando as ondas aparecem todo mundo pára de fazer o que está fazendo e vai pro mar. Esse é o espírito. Está logo ali. Quando dá onda você vê que a cidade fica mais feliz".

A praia é o quintal, o clube e a academia da cidade. Tudo é perto e plano. Sete quilômetros. Essa é a maior distância do mar. Você chega à praia em não muito mais que meia hora, seja lá de onde for que você venha com sua bike, veículo amplamente utilizado. A movimentação é surpreendente em dias de onda. O gerente do banco surfa na hora do almoço, o estudante matutino cai de tarde. Empresários mudam suas reuniões para aproveitar o terral... Hoje em dia não há preconceitos com essas atitudes como atestou Picuruta: "Estava conversando com um senhor de 70 anos que está fazendo aulas com o Cisco. Ele me dizia: ‘Quem diria que hoje estaria aprendendo a pegar onda? No passado falava para os meus netos não irem surfar porque era coisa de vagabundo. Eu mesmo cuspi no prato que estou comendo’. É bacana constatar que criamos um lance que pode ajudar as pessoas hoje a viverem algo bom para o espírito e saúde delas". Realmente as coisas mudaram desde o começo dos anos 70 como lembra o Cisco: "Na época a prática do surf não era permitida. Inclusive era aqui mesmo no Posto 2, que as pranchas ficavam presas ou eram quebradas. Hoje a Escolinha Radical está aqui, uma escola pública de surf. Independente do profissionalismo e competições, aqui surgiram os surfistas que mostraram que o caminho podia ser diferente. A informação no nosso gene e o reflexo que está aí é de que o surf faz bem pra vida da gente, pra nossa cabeça, para o corpo, para fazer amigos... nem sempre a competição traz isso. Existem pessoas que começam e nem sabem que são tão talentosas assim, mas sorriem como a gente. O caminho do surf santista é exatamente esse. Tudo está no mesmo nível... o cara ali é competidor, mas eu também surfo e está tudo certo".

OUTROS PALANQUES

É isso. Em Santos o surf é visto além de uma disputa pelas ondas. Picuruta até se queixa disso: "Fico até meio chateado com esse lance. Tanta gente pega onda na cidade e não aparecem mais competidores. Depois da nossa geração não conseguimos revelar muitos talentos. Apareceram Renato Wanderley, Piu (únicos a chegarem ao WCT), Jairzinho, Andrew Serrano, Sininho, mas sempre poucos. Não há realmente uma nova geração representando Santos fora daqui. O surf é mais lazer que competição. E nos perguntamos, eu e Almir: Será que erramos em algum ponto? Faltou alguma coisa na fórmula? Conseguimos fazer muita gente surfar, mas não conseguimos formar campeões!". Verdade, a cidade produziu grandes competidores e campeões estaduais, Cisco foi destaque nos anos 70 e 80. O primeiro paulista a quebrar a hegemonia carioca no "Festival Brasileiro" em Ubatuba foi Paulo Rabelo, seguido por Picuruta, na segunda colocação. Na época isso foi muito importante para deflagrar a expansão do esporte na Baixada Santista. Mas Pardal tem uma teoria quanto à falta de mais competidores hoje: "Aqui existem muito mais oportunidades além do surf, ou não é tão importante economicamente para tantos meninos. Não que Santos seja melhor que outros lugares, mas fora daqui existem garotos que dependem exclusivamente disso para contribuir com a renda familiar. Santos é diferente. Temos mais faculdades, uma economia melhor e toda história da cidade, desde a independência, faz com que Santos tenha muitas lideranças. Temos gente, formada em nossas bases, atuando em todos os setores do surf. Todos esperam que façamos novos campeões, mas acho que com tantos setores funcionando, na cultura, organização esportiva... essa sinergia em prol de algo maior irá somar de forma diferente, levando o surf a outro patamar".

GEOGRAFIA DA BAIXA VELOCIDADE

Esqueça água verde. Não, não é sujeira. A cidade foi construída numa ilha com características de manguezal, por isso a areia é escura, assim como as ondas. A baía fechada bloqueia a entrada de ondas grandes. A ondulação de sul é recebida desde a barra (onde os navios ficam atracados) por um raso fundo de areia compacta, fazendo com que se arraste, perdendo velocidade e força até chegar à praia. Mas do Canal 6, onde a praia termina e forma-se o canal de entrada dos navios ao porto, até o Quebra-Mar, divisa com São Vicente, temos uns 50 picos. "Com um bom swell de sul e vento nordeste você pode achar ondas maravilhosas só pra você. São ondas que podem ser até tubulares no Canal 3, 4, 5... Canal 6, por exemplo, é perfeito!", conta Cisco ainda empolgado com as ondas que forjaram seu estilo.

Esse "estilo" é outro ponto peculiar do surf santista. Questões econômicas e culturais transformaram a maneira de surfar e forjaram pranchas diferentes das que se usava normalmente no mundo e no Rio dos anos 70. Isso definiu a maneira dos filhos dessa ilha expressarem-se nas ondas, atacando-as com um jeito mais "australiano". Lequinho, irmão mais velho de Picuruta, inventava trocas de base no meio de batidas enquanto o maior colecionador de troféus do país vencia os primeiros eventos dos anos 70 apresentando "cavalos de pau" e outras manobras que só eram possíveis sobre aquelas pranchas, menores, mais finas e adaptadas para a diversão e criatividade nas lentas ondas de Santos. "Ondas muito manobráveis, a diferença no surf e nas pranchas é por causa disso. Temos essa característica muito mais australiana. Os cariocas tinham um lance mais havaiano por conta da extensão menor das ondas e seus tubos. Daniel, Ptizalis... só o Cauli, depois dos anos 80, mudou isso... Santos tem esse estilo mais agressivo. O Mudinho já dizia que essa onda com um metro ou um e meio possibilitaria uma quantidade de manobras incríveis, permitindo o desenvolvimento daqueles cutbacks famosos e tantas manobras expressivas. Tivemos grandes mestres, fui da primeira equipe do Homero e queríamos mostrar nosso surf pro resto do país e íamos com as inovações do Homero e hoje até eu contribuo com a prancha adaptada para deficientes visuais. Não tínhamos onde expressar nossas manobras e por isso gostávamos de ir aos campeonatos. Os santistas sempre gostaram de desenvolver as coisas".

DESENVOLVIMENTO

O esporte se desenvolveu em Santos numa época em que a informação era difícil, especialmente para a maioria daquela galera que muito embora vivesse ao lado do Porto, porta de entrada de tudo que vinha de fora rumo à capital, não tinham muita grana. Não havia revistas especializadas, a não ser que você fosse até o aeroporto de Congonhas (SP) para comprar uma Surfing ou Surfer e a maioria nem lia inglês. Cisco e Picuruta foram alguns dos surfistas mais conhecidos a viajarem para fora primeiro e isso já foi quase nos anos 80. A Internet ainda não existia e a única referência a ser vista na TV eram aquelas bobagens estereotipadas de Hollywood tipo: "Alegrias de Verão", "Folias na Praia" ou o clássico "Mar Raivoso". O "Endless Summer" começou a ser reproduzido no Cine Indáia, em 67 e tenho certeza de que aquelas tardes de cinema influenciaram muita gente. Aliás, Santos foi a primeira cidade a exibir o filme no Brasil graças ao Toninho Campos, dono dos cinemas, que já surfava e surfa até hoje.

O fato é que já pelos anos 70 havia um certo número de praticantes que começaram na década de 60 e já existia gente fabricando pranchas a partir do que imaginavam ser esse objetivo. Homero foi um dos pioneiros e acabou por revolucionar a industrialização e o conceito de design. Kareca começou em 69 e continua na ativa. Avelino Bastos seguiu a linhagem e inova até hoje assim como tantos outros profissionais da plaina que produzem na Baixada. As pranchas e o próprio surf desenvolveram-se de forma distinta que em outros lugares como Guarujá ou Rio. Sem muitas referências, o negócio foi produzir aquilo que servia para as ondas santistas. Isso fez com que as pranchas fossem diferentes assim como o surf "radical" que começava a surgir na orla de Santos.

Pranchas finas porque vinham de outras descascadas. Há que acelerar para mandar manobras. Existe espaço e tempo pra manobrar muito e desenvolver a criatividade. Isso tudo misturado fez a diferença.

NEW OLD SCHOOL

Essa diferença pode ser constatada pelo perfil dos santistas que hoje aparecem nas revistas especializadas. Daniel Cortez, Rodrigo "Sininho", Gringo, Rodrigo "Baby", Cassio Sanches e tantos outros levam o nome da cidade adiante de forma irreverente. Freesurfers ou competidores de eventos onde o que conta é a ousadia. Aéreos, tricks e competições de uma nova geração de profissionais. WQS, CT? Talvez um dia. O que importa para os santistas é continuar no mar. O que vale é a energia e o orgulho que surge por criarem o Museu do Surf, Santos Surf Festival, Campeonato Pioneiros, Unipran (Universidade da prancha) e tantos outros eventos e ações que desvendam o espírito da cidade.

Uma das marcas nascidas ali promove o Natural Art Pro-Am de Surf com período de espera, organizado pela Associação Santos de Surf e com apoio da Prefeitura. Santos tem ondas, basta esperar. Quem é de lá sabe disso, não tem pressa, vive ali, de frente para o mar. A cidade entende isso de tal forma que os estudantes são liberados das aulas para competirem no meio da semana, se preciso for. A própria Secretaria de Educação entende o evento como promoção da cultura local. É Surf City ou não?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Era digital invade o outside

Por Bruno Ruy

A era digital, um dos braços da era da informação, é imprevisível. Em 2004, uma empresa situada no norte da Califórnia se lançou no mercado com uma linha de pequenas câmeras, no estilo "faça você mesmo", voltada para alguns esportes radicais específicos. Com o sugestivo nome de GoPro, os caras começaram a produzir equipamentos que podiam ser acoplados aos carros de corrida, capacetes de moto e, o mais relevante para nós, pranchas de surfe.

Voltando um pouco no tempo, as câmeras são conseqüência do crescimento desenfreado do mercado digital, principalmente sua vertente para amadores. Os grandes fabricantes investiram maciçamente em câmeras fotográficas e filmadoras totalmente voltadas para a maior fatia do mercado, a do consumidor amador. Graças à tecnologia digital tudo se tornava mais viável e simples, desde o clique a impressão. Esse tipo de produção ganhou espaço e se desenvolveu rapidamente, até tornar-se acessório obrigatório do homem do século XXI. Fatos esses que, em pouco tempo, se tornaram uma dor de cabeça para os profissionais da área de mídia. No caso do surfe quem mais sofria eram fotógrafos e vídeomakers, vendo a linha que divide o profissionalismo e o amadorismo cada vez mais tênue. Muitos conservadores se recusaram por bastante tempo a usar equipamentos digitais alegando a falta de qualidade, se comparado à película. Mas, salvando-se casos muito específicos, isso é puro papo. O digital vinha engolindo tudo e todos que não o acompanhavam. Porém, em 2004, quando a câmeras de reduzida dimensão, resistente ao impacto e à prova de água, foi lançada como grande revolução para surfistas amadores, poucos deram bola e nem de longe era uma ameaça à fotógrafos e vídeomakers, graças a um simples fato: ninguém usava a tal câmera. O produto era visto como tão amador que chegava a ser de "prego", o bom surfista arrumava alguém que fizesse suas imagens, nem que fosse com aquela câmera digital mais vagabunda que vendia através de um 0800.

De volta a 2009, fica a pergunta: o que mudou nessas câmeras para se tornarem a febre, entre surfistas amadores e profissionais, que são atualmente? Entre muitas respostas, uma se sobressai: a publicidade. A empresa, no ano passado, investiu forte em atletas capacitados que divulgaram imagens produzidas pela câmera em ondas de respeito. Todos viam com os próprios olhos o potencial do produto.

Outra grande propaganda foi feita de tabela por caras como Brian Conley e Timmy Turner, nos filmes "My Eyes Wont Dry" e "Second Thoughts". Apesar de usarem um equipamento muito mais sofisticado do que a da empresa da Califórnia, a "tube vision" é praticamente a mesma. Assim, a "xeretinha", que já foi tirada de "prega", deu a volta por cima e é considerada atualmente inimiga nº1 dos que vivem de produzir imagens de terceiros, também conhecidos como fotógrafos ou vídeomakers. Mas também se tomou uma das melhores amigas dos surfistas, afinal eles dividem a mesma onda sem reclamações.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Diversão de alma

Rasta se diverte - Foto: Hilton Dawe / transworld
Por Bruno Ruy

Apesar do senso poético que norteia minha vida, sempre questiono qual a melhor definição pra surf de alma. E pra outra pérola do nosso esporte: "o verdadeiro espírito do surf". E nesse caso, como seria o "falso espírito do surf" ou o "surf sem alma". Essas definições são tão concretas quanto o meio onde se desenvolve o surf. Tudo é extremamente relativo.

Pra quem desce 50 pés de onda, o verdadeiro espírito do surf está na possibilidade de "chamar a natureza pro pau" e dar conta do recado, mesmo que pra isso seja necessário um amigo de jet ski na retaguarda. Ai, vem alguém que faz isso na remada e diz: "o verdadeiro espírito do surf é encarar isso no braço, porque a máquina mata a essência do surf". Percebe?

Sonhar com a primeira vez no Hawaii incorpora o verdadeiro espírito do surf. Chegar lá e ficar no inside de Pipe, seria surf sem alma? Quem perde a balada, despista a namorada, tudo, só pra poder surfar, tem mais alma de surfista do que o maluco que transou a noite inteira, bebeu todas, riu muito e só consegue pegar as sobras mexidas no final de tarde?

Campeonatos à parte, por que alguém surfa? Prazer? Só isso? Ou a platéia importa? Os reis havaianos surfavam tranqüilos em praias reservadas pra eles. Aos súditos cabia fazer o coro de uhuuu!!! a cada boa manobra realizada e se contentar com os piores picos e pranchas. Hoje, todo mundo tem um toco que bóia e a democratização do esporte terminou em crowd, que por sua vez, gera a competitividade. A realeza, nesse caso, é conseguida pelo fato de você ser local do pico ou surfar muito mais do que os outros. O homem é competitivo por natureza, desde a pré-história. E esse jogo do "sou mais forte pra proteger minha caverna", inevitavelmente invade o campo do lazer, mesmo quando esse é aquático como o nosso.

Acho o máximo quando vejo alguém que surfa mal e ao sair da água relata com detalhes incríveis uma merreca que nem parede tinha e faz com que pareça que surfou Mavericks. Tem gente que nunca entubou, mas sai da água dizendo: viu meu tubo? Ai eu penso: bom, se ele acha que entubou, ou que a onda tinha um tamanho 5 vezes maior do que o real, então esse cara é muuuuito feliz. Porque o surf tem que ser pra você, pra mais ninguém. Se depois de um dia de surf você for dormir se achando o máximo, quem tem o direito de dizer o contrário?

Se eu tivesse que definir mesmo o surf de alma, diria que é a sensação da primeira onda surfada que se carrega pela vida afora, como se fosse um vírus para o qual não acharam a cura. A eterna dependência da água salgada e a fissura de poder deslizar em ondas que nunca se repetem. Um desvirginar eterno que concede um poder especial ao homem.

Conheço muita gente que vendeu a alma pro diabo pra poder surfar. Aí não resta alternativa a não ser botar pra baixo. Mesmo desalmado.