segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Fugindo do calor

E você se achava fissurado - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

ISLÂNDIA

É a verdadeira terra do gelo (Iceland). Um país insular no continente europeu mas que tem como vizinho mais próximo a Groelândia. Sua formação é vulcânica, semelhante ao Havaí. A ilha tem 103.125 km², e tem uma população fixa de aproximadamente 320 mil habitantes. A pesca é uma importante atividade econômica, mas o turismo cresce bastante. Atualmente a população do país chega a dobrar na alta temporada do verão. No inverno, quando quebram as melhores ondas, o clima é frio e a água, literalmente, chega a congelar em alguns pontos. A maioria dos picos são em praias de pedras vulcânicas (point breaks), existem também bocas de rio e algumas lajes, que são as ondas mais pesadas e tubulares da região, só que dependem muito da sincronia de swell, maré e vento.

JACK O'NEILL

Também conhecido como "The Cheese", foi quem desenvolveu a roupa de borracha, Jack nem sequer pegava onda de prancha, mas de peito. Fazia roupas para o uso próprio, que acabaram se tornando extremamente populares, transformando sua pequena loja, chamada "Surf Shop", em uma gigante das marcas de surfe, a O'Neill. Atualmente existem roupas de borracha com tecnologia de aquecimento e materiais superflexíveis facilitando muito a prática em temperaturas extrema. Gorros, botinhas e uma boa dose de vodka também ajudam. E por falar em bebida, na Islândia comemora-se o dia da cerveja, 1º de março. Porém o Estado é rigoroso quanto ao consumo de bebidas, que são vendidas com as taxas mais altas da Europa. A gasolina também é super taxada, para desincentivar a população a andar de carro, bêbado ou não.

ESPORTES

É parte importante da cultura islandesa, apesar do surfe ser bastante desconhecido ainda. A prática mais tradicional se chama Glíma, uma luta que dizem ter sido criada pelos Vikings. Talvez pela proximidade com a Inglaterra, o futebol é atualmente o esporte mais popular na ilha. Os campeonatos são jogados apenas durante a primavera e o verão, devido às baixas temperaturas do inverno e congelamento dos gramados. O maior e mais tradicional clube é o Knattspyrnufélag Reykjavíkur, imaginem a dificuldade da torcida para apoiar o time no estádio.

COLD TOUGHTS

É o novo projeto do surfista e cinegrafista Timmy Turner. Autor do premiado "Second Thoughts", eleito o melhor vídeo do ano pela Surfer em 2004, o californiano agora procura a onda perfeita em lugares gelados e, muitas vezes, inóspitos. A Islândia foi um dos picos visitados no projeto. Timmy ficou famoso também por sua luta contra uma infecção gravíssima no cérebro, o que lhe custou alguns anos afastado da água e diversas visitas a mesa de cirurgia. De volta a ativa, só precisa seguir um conselho médico: não se expor ao calor tropical (já que suas chances de contrair uma nova infecção são grandes em tais condições climáticas).

O IDH

Índice de desenvolvimento humano é usado desde 1993 pelas Nações Unidas para classificar, anualmente, os países de acordo com o bem estar da população. Como o bem estar de cada um é relativo, o IDH e suas variáveis também o são, mas basicamente esse índice usa três fatores: renda, educação e longevidade da população. Antes da crise, a Islândia encabeçava a lista divulgada pela ONU. Ou seja, é considerado um dos melhores países do mundo para se viver. Um bom exemplo, no ano de 2007 foi registrado apenas um homicídio em toda a ilha. Como somos surfistas, acrescentaríamos ao IDH a variável qualidade das ondas. Será que a Islândia continuaria no topo do ranking? Pela quantidade de picos inexplorados e o potencial apresentado tudo indica que sim!

domingo, 27 de dezembro de 2009

2010 é hora de investir em nosso quintal

É preciso investir em nossos atletas - Foto: Eric Tedy
O surf terá um ano decisivo em 2010. A tentativa da ASP de agitar o esporte com mudanças nas regras da principal competição mundial e o calendário de provas mostram que existe grande insatisfação com o cenário atual. Sob ameaça de ver as feras do circuito se debandando para um "tour paralelo", os homens que mandam no "circo" procuram alternativas para tornar a competição mais emocionante. A saída é turbinar os prêmios e fala-se em distribuir 12 milhões de dólares entre todas as categorias.

Essa medida, por um lado, aumenta o apetite dos atletas, mas acaba encarecendo a organização dos eventos e reduz as etapas da elite. Piora a coisa a instabilidade climática que não permite que se tenha certeza de boas ondas em vários picos e a distância entre uma competição e outra leva ao desinteresse da grande mídia. A consequencia é que o surf fica sem divulgação constante e não consegue aumentar sua influência e ganhar mais adeptos. Já não são poucas as pessoas com água salgada nas veias que reconhecem a necessidade de o futuro trazer as piscinas artificiais que permitirão uma programação mais regular das etapas e a prática do surf em países onde a natureza não foi generosa na hora de distribuir as esquerdas e direitas.

Enquanto esse "futuro in-door" não chega, o Brasil precisa aproveitar para falar alto no mundo das pranchas. Temos mais de oito mil quilômetros de costa, onde se destacam picos emocionantes e podemos nos organizar para mandar bem nas provas que acontecem aqui, não só na etapa do "Dream Tour". Porém, não adianta fazer bonito quando os gringos pintam por aqui e esquecer de nosso quintal. O mais urgente, agora, é apoiar nossos atletas, não só para conseguirem marcas internacionais, mas para darem espetáculos em casa, o que vai estimular a nova geração a gostar do esporte.

Precisamos de idéias criativas para nossas competições nacionais despertarem interesse não só da galera ligada no mar, mas trazer novos adeptos. Viver de um grande nome de sucesso internacional como Mineirinho que está se transformando em californiano é repetir a sina do tênis que teve Guga como fenômeno e quando ele declinou voltou a ser secundário. O exemplo vem do vôlei que investiu nos novos, teve patrocínio, foi para a mídia e hoje é referência mundial. Vamos arrumar nosso quintal e sair para conquistar os mares internacionais.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nem na trave

Sem boa estrutura não se faz campeões - Foto: Projeto Onda
Por Bruno Ruy

Um antropólogo tentava explicar para um indignado entrevistador porque músicas como "Egüinha Pocotó" fazem tanto sucesso no Brasil. Interessante a teoria dele: "o brasileiro come mal, mora mal, tem acesso a uma educação péssima e a um atendimento médico pior ainda, porque então queremos que ele escute boa música?".

O que isso tem a ver com surf? Tudo. Olha só. Um garoto chega à praia pra fazer uma aula na escolinha de surf, com um técnico super bem intencionado que tira grana do próprio bolso pra pagar inscrição de campeonato. O moleque parece meio cansado e o professor diz pra ele: "tomou café da manhã, tomou leite, comeu frutas?" E vem a resposta: "bem que eu queria, mas na minha casa não tem". E aí, como fica? Como um moleque desse vai ter força pra remar? Como ele vai competir com moleques sarados, criados à base de "cereais mágicos de milho"? E você pode contra-argumentar: "mas os atletas da Etiópia correm descalços, não comem e são campeões mundiais". E eu respondo: "mas eles têm um adicional de fábrica chamado ‘DETERMINAÇÃO’, que nossos surfistas não têm". Infelizmente.

É sempre a mesma ladainha: "não tenho patrocínio decente, não tenho grana pra viajar, os juízes me boicotam, o mar estava ruim pra mim, faltou onda, estava gigante, a prancha não funcionou, dou azar, estava com dor nas costas". Não faltam desculpas pra encobrir a falta de coragem de meter as caras e entender de uma vez por todas que vida de atleta não é conto de fadas. Falta técnico, manager, ou sei lá quem, explicar que quando a bailarina sobe no palco e desliza sorridente, seus pés estão ensangüentados dentro da sapatilha e ela precisa suportar dores lancinantes. E suporta.

Competição é isso. Horas intermináveis dentro de vôos apertadíssimos, com chegada horas antes da bateria, meses longe de casa, da namorada (se não souber conciliar, melhor nem se apaixonar, muitos caras promissores "morrem na praia" por causa de parceiras histéricas na areia). Surf competitivo é profissão. E como qualquer profissional do terceiro milênio, quem não se atualizar, dança. A fila tem que andar. Não dá tempo de ficar passando a mão na cabeça porque o atleta está com problemas pessoais. Resolve e rema. Senão cai fora. A vida é assim mesmo. Difícil.

Nós, brasileiros, temos essa idéia paternalista de tentar ajeitar as coisas, facilitar, dar tudo mastigado. Um alicerce meio boca que vai acompanhar o atleta pelo resto da vida. É só lançar um olhar mais atento e crítico a indústria dos campeonatos. Há tantos eventos que dá pra viver da miséria dos prêmios e ser chamado de surfista. Uma bermuda aqui, um bloco ali. Biscates do surf. Triste, mas é verdade. O moleque ainda está de fralda e todo mundo enxergando um futuro Slater. E o resto da história a gente já conhece. Alguns veteranos dando show, garantindo o nome do Brasil no pódio e a nova geração se perdendo no caminho. Salvo raríssimas exceções, é claro.

E aí, acabamos sobrecarregando uma meia dúzia de atletas, que na verdade são nossas únicas fichas. E fingimos indignação por não termos um campeão mundial. Só pode ser fingimento. Senão seria burrice. Ou inocência.

Os empresários, que fique claro, os poucos empresários brasileiros que têm uma visão empresarial do surf, deveriam cobrar de seus atletas o dinheiro neles investido. Agir como pais de adolescentes. Marcação cerrada. Liberdade com responsabilidade. Um relacionamento maduro que implicaria em um "toma lá dá cá". O verdadeiro atleta já espera essa postura da empresa. Aliás, é a consciência de seu real valor e produtividade que permitem que ele consiga um patrocínio condizente com seu desempenho. Quantos atletas temos nessas condições atualmente? O resto? Bem, o resto é resto, e vai engrossar as estatísticas dos atletas conformados.

Como dizem: "Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor". Enquanto isso, o caneco continua desfilando em mãos menos bronzeadas e gringas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Como evitar problemas no North Shore

Backdoor ou Pipeline? Dúvida cruel... Foto: ASP / Cestari
Colunista do NextSurf, Bruno Ruy dá dicas de como passar uma boa temporada no Hawaii, evitando roubadas e gastos desnecessários.

Confira algumas informações que podem ajudar antes do embarque e quando já estiver no paraíso de frente para as melhores ondas do planeta.

Respeito garante respeito (e conserva os dentes)

O localismo existe, mas você consegue perceber quem são os locais, seja andando na rua, seja pelo jeito de agir ou falar. Ficar tranqüilo, ser simpático e respeitar as regras são dicas para garantir uma estadia sem problemas por lá. Não fale alto dentro ou fora da água, espere suas ondas pacientemente e, se possível, converse sempre em inglês. Se o Hawaii fosse no Brasil, seria muito pior. Lá a lei funciona e mantendo a calma tudo acaba dando certo.

Entenda o mar antes de entrar

Não se deixe levar pela euforia, entrando na água com tudo. Analise bem o pico onde deseja surfar. Saber por onde entrar e por onde sair é fundamental. Veja onde estão quebrando as ondas e por onde outros surfistas estão entrando, saindo e onde é o canal. O tamanho das ondas pode variar com uma velocidade impressionante. Fique sempre ligado.

Saiba onde você está

No outside, ache um ponto de referência na areia. As correntezas são muito fortes e não é bom ser arrastado sem perceber. Isso lhe ajudará a se posicionar para pegar as melhores ondas.

Deixe a natureza te ajudar

Nunca lute contra a correnteza, isso será inútil. Se sua cordinha estourar, não nade para o canal, onde fica quase impossível sair da água. Vá em direção à zona de impacto e tome uma onda na cabeça. Vai dar uma chacoalhada, mas naturalmente você será arrastado em direção à areia e chegará com maior facilidade à praia.

Escolha um lugar para ficar

O primeiro passo quando se planeja viajar para o Hawaii é escolher um lugar para ficar. Principalmente nas últimas cinco temporadas, tem ocorrido uma superlotação no North Shore. Definir o local ainda no Brasil é muito importante para evitar roubadas e um gasto duas ou três vezes maior com estadia. A melhor maneira de fazer isso é pegar contatos com amigos ou conhecidos que já estiveram por lá ou negociar pela internet com os proprietários. Quanto mais tempo você ficar, mais barato será.

Vá com o quiver certo

Saia com duas a três pranchas do Brasil, que vão funcionar bem em ondas de até 6 pés e garantem boa diversão em locais como Rocky Point, Off The Wall e outros picos alternativos. Mas para surfar as ondas mais pesadas como Pipeline e Waimea, onde você coloca sua cabeça em jogo, o melhor é comprar uma ou duas pranchas já no Hawaii. Os shapers de lá estão acostumados e sabem o que uma prancha precisa ter para ser usada nesses mares.

Não acredite em lendas

Todo mundo costuma falar que o North Shore é muito crowd, que as ondas são pesadas e muito difíceis por causa dos locais. Tudo isso é verdade, mas o Hawaii é um lugar alucinante. Se você for com paz de espírito, muita disposição e paciência para esperar sua hora, com certeza surfará as ondas da vida. Vibe boa é sinônimo de bons resultados.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

De molho na areia

Ficar sem surfar é castigo para surfista - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

Impressionante como os problemas do corpo parecem pequenos frente à dor psicológica causada pela impossibilidade de surfar. Já perdi a conta do número de vezes que vi surfistas chorando feito crianças, porque estavam intimidados, por motivos médicos, a ficar longe da água salgada.

No Tombo, há alguns anos, por conta do esgoto que saía no Bostrô, houve uma epidemia de hepatite. Imagine só, a galera desesperada quando o diagnóstico apontava para pelo menos um mês de cama. Tinha neguinho que com duas semanas largava o tratamento e preferia arriscar uma seqüela no fígado, do que amargar a perda de um canto direito de gala. Sobreviveram.

Tenho um amigo que em menos de um ano conseguiu duas lesões graves. Na primeira, jogando futebol, adquiriu uns pinos no tornozelo e dois meses fora d'água. Foram intermináveis dias de queixas pelo MSN. Da segunda, surfando, conseguiu uma torção no joelho, que rendeu um enxerto no ligamento e seis meses fora de cena. Desta vez, conseguiu a solidariedade do fisioterapeuta que também é surfista e exibe um joelho "turbinado" com pinos. Ele garante que preferia morrer se tivesse que deixar de surfar. Um tanto quanto radical, mas bem próximo do sentimento que afeta os fissurados que são obrigados a fincar os pés na areia enquanto o corpo se recupera. Aliás, outro dia escutei uma definição bem engraçada: um desesperado de plantão diz ter descoberto duas coisas importantes quando teve que ficar uns meses no seco: a primeira foi que detesta praia e a segunda que os melhores mares quebram quando você não pode entrar. Faz sentido.

Surfistas realmente parecem sofrer algum tipo de metamorfose quando passam um tempo fora do mar. Sabe aquele comercial do garotão na piscina do clube, quase morrendo, que só recupera os sentidos quando os amigos o seqüestram e jogam no mar? E aí rolam tentativas desesperadas pra salgar o corpo e a alma. E dá-lhe filme, revista, games de surf virtual. Vale tudo pra sentir-se o mais próximo possível da sensação de deslizar pelas ondas. Mas, como não há mal que sempre dure... Um dia o corpo se recupera e você percebe que toda a privação só serviu pra estimular ainda mais seu tesão e a volta é sempre triunfal, com gosto de primeira vez.

Na real, esse texto surgiu no dia em que um grupo de amigos, no qual me incluo, descobriu que um dos tripulantes estava com câncer e um tipo de câncer que afeta os ossos. O susto da notícia foi minimizado pela informação de que há cura, mas quando soubemos que por conta do risco de fraturas haveria a necessidade de ficar longe do mar, a indignação foi unânime: "mas essa médica sabe das seqüelas que a falta do surf vai trazer?" Não, ela não sabe. Nem imagina. Isso é o surf!

Sabemos que em breve o nosso brother vai voltar e a galera estará lá no outside esperando pra dropar junto. A única preocupação é que esse cara é tão fominha, daqueles que pega uma e sai remando de volta feito um louco pra não perder nada, que já está todo mundo se preparando, porque a volta vai ser irada.