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| Sem boa estrutura não se faz campeões - Foto: Projeto Onda |
Por Bruno Ruy
Um antropólogo tentava explicar para um indignado entrevistador porque músicas como "Egüinha Pocotó" fazem tanto sucesso no Brasil. Interessante a teoria dele: "o brasileiro come mal, mora mal, tem acesso a uma educação péssima e a um atendimento médico pior ainda, porque então queremos que ele escute boa música?".
O que isso tem a ver com surf? Tudo. Olha só. Um garoto chega à praia pra fazer uma aula na escolinha de surf, com um técnico super bem intencionado que tira grana do próprio bolso pra pagar inscrição de campeonato. O moleque parece meio cansado e o professor diz pra ele: "tomou café da manhã, tomou leite, comeu frutas?" E vem a resposta: "bem que eu queria, mas na minha casa não tem". E aí, como fica? Como um moleque desse vai ter força pra remar? Como ele vai competir com moleques sarados, criados à base de "cereais mágicos de milho"? E você pode contra-argumentar: "mas os atletas da Etiópia correm descalços, não comem e são campeões mundiais". E eu respondo: "mas eles têm um adicional de fábrica chamado ‘DETERMINAÇÃO’, que nossos surfistas não têm". Infelizmente.
É sempre a mesma ladainha: "não tenho patrocínio decente, não tenho grana pra viajar, os juízes me boicotam, o mar estava ruim pra mim, faltou onda, estava gigante, a prancha não funcionou, dou azar, estava com dor nas costas". Não faltam desculpas pra encobrir a falta de coragem de meter as caras e entender de uma vez por todas que vida de atleta não é conto de fadas. Falta técnico, manager, ou sei lá quem, explicar que quando a bailarina sobe no palco e desliza sorridente, seus pés estão ensangüentados dentro da sapatilha e ela precisa suportar dores lancinantes. E suporta.
Competição é isso. Horas intermináveis dentro de vôos apertadíssimos, com chegada horas antes da bateria, meses longe de casa, da namorada (se não souber conciliar, melhor nem se apaixonar, muitos caras promissores "morrem na praia" por causa de parceiras histéricas na areia). Surf competitivo é profissão. E como qualquer profissional do terceiro milênio, quem não se atualizar, dança. A fila tem que andar. Não dá tempo de ficar passando a mão na cabeça porque o atleta está com problemas pessoais. Resolve e rema. Senão cai fora. A vida é assim mesmo. Difícil.
Nós, brasileiros, temos essa idéia paternalista de tentar ajeitar as coisas, facilitar, dar tudo mastigado. Um alicerce meio boca que vai acompanhar o atleta pelo resto da vida. É só lançar um olhar mais atento e crítico a indústria dos campeonatos. Há tantos eventos que dá pra viver da miséria dos prêmios e ser chamado de surfista. Uma bermuda aqui, um bloco ali. Biscates do surf. Triste, mas é verdade. O moleque ainda está de fralda e todo mundo enxergando um futuro Slater. E o resto da história a gente já conhece. Alguns veteranos dando show, garantindo o nome do Brasil no pódio e a nova geração se perdendo no caminho. Salvo raríssimas exceções, é claro.
E aí, acabamos sobrecarregando uma meia dúzia de atletas, que na verdade são nossas únicas fichas. E fingimos indignação por não termos um campeão mundial. Só pode ser fingimento. Senão seria burrice. Ou inocência.
Os empresários, que fique claro, os poucos empresários brasileiros que têm uma visão empresarial do surf, deveriam cobrar de seus atletas o dinheiro neles investido. Agir como pais de adolescentes. Marcação cerrada. Liberdade com responsabilidade. Um relacionamento maduro que implicaria em um "toma lá dá cá". O verdadeiro atleta já espera essa postura da empresa. Aliás, é a consciência de seu real valor e produtividade que permitem que ele consiga um patrocínio condizente com seu desempenho. Quantos atletas temos nessas condições atualmente? O resto? Bem, o resto é resto, e vai engrossar as estatísticas dos atletas conformados.
Como dizem: "Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor". Enquanto isso, o caneco continua desfilando em mãos menos bronzeadas e gringas.

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