sexta-feira, 31 de julho de 2009

De Souza, o Mineirinho que já faz parte da história do surf

Mineiro é esperança de título mundial - Foto: Marcelo Bolão
Por Bruno Ruy

Toda criança, menos uma (Peter Pan), cresce. Adriano de Souza descobriu isso quando recebeu sua primeira proposta para ganhar um dinheiro através do surfe ─ tinha acabado de completar 10 anos. "Por que você não se desenvolve e ganha o tão sonhado título mundial para o Brasil?", imagino ter sido esse o desafio que lhe propôs seu empresário na época.

Alguns anos depois, na Austrália, Sean Doherty, narrava assustado a bateria da terceira fase, entre a grande esperança australiana, Josh Kerr e o atual campeão mundial junior, Adriano de Souza, a verdadeira final do campeonato de juniors em North Narrabeen, descrevia-o. Parko, Occy, Taj e Luke Egan torciam desesperadamente por uma vitória australiana, enquanto Mineiro abria a disputa com um aéreo muito alto, duas vezes a altura da onda e quase o completa.

Kerr já tinha uma equipe montada em cima do seu arsenal de manobras impressionantes. Não era publicado um único exemplar sequer de revista de surfe sem uma foto de um aéreo do Josh Kerr em 2004 e Mineiro parecia querer dar o seguinte recado ao mundo: "Vocês acham que ele é o cara dos aéreos? Vejam isso..." De Souza atropelou Kerr ─ o recado foi mandado.

Não foi a primeira vez que Adriano era o melhor surfista do campeonato e não levantava o caneco. Foi assim também em 2002, com incríveis 15 anos, quando destruiu todos os adversários em Durban, na África do Sul, no extinto formato do Mundial amador.

Toda criança cresce. Campeão paulista iniciante e estreante aos 12; mirim e brasileiro aos 13 e 14; mais jovem surfista a vencer uma etapa do circuito brasileiro e profissional, aos 15; mais jovem a classificar-se para o Super Surf, aos 16; surrou sem pena, em casa, o australiano Shaun Cansdell para tornar-se campeão mundial junior antes de completar 17; campeão do WQS com um abismo de pontos do segundo colocado, aos 18. Sétimo do mundo na maioridade.

Ao contrário de Peter Pan, Mineirinho acelerou sua maturidade e abandonou a infância mais cedo que todo mundo para poder ganhar o planeta. Logo, abandonou seu patrocinador de longa data, Hang Loose, e acertou um contrato com a Oakley, um ato de coragem e pouca afeição.

Desde garoto, a imprensa cisma de jogar no Mineiro a responsabilidade de carregar toda essa expectativa de um país em suas costas. Uma maldade sem tamanho que fazem com ele desde que levantou o primeiro campeonato. Mineiro não carrega nada nas costas, a não ser uma enorme força de vencer a qualquer custo.

Em 2006, depois de arrancar um estupendo terceiro lugar na primeira etapa do Tour na Gold Coast, Slater previu que Mineiro venceria uma etapa ainda na sua primeira temporada. Não conseguiu. Mas em 2009, Mineiro já foi capaz de chegar em duas finais, contra um Parko imbatível em Bells Beach, e contra o próprio Slater em Imbituba. O careca que seria mais para frente uma de suas vítimas.

Em Huntington Beach, na Califórnia, palco do US Open Surfing, Mineirinho escreveu mais um capítulo importante em sua história. Diante um píer lotado, o paulista conquistou sua primeira vitória contra o melhor surfista de todos os tempos. Adriano quebrou em tabu de 10 confrontos e, se no Brasil não deu, em águas californianas, onde mora atualmente, foi Kelly Slater quem saiu da água com um total de pontos inferior ao do brasileiro.

Mineiro tem apenas 22 anos, há tanto por fazer ainda que qualquer previsão pode ir para o brejo. Mas uma coisa é fato, Adriano de Souza deixou de ser promessa faz tempo. Enquanto Dane Reynolds e Jordy Smith chegam ao WCT cheios de câmeras e holofotes, Mineiro já é um veterano e seus objetivos são de tamanhos variados. Jordy e Dane, já chegam com um surfe pronto para o título mundial, mas pecam pelo que Adriano tem de sobra: garra.

Mineirinho ainda tem muito tempo para corrigir seus defeitos e mais cedo ou mais tarde, conseguirá conquistar todos os seus objetivos e realizar seus sonhos.

Bruno Ruy é estudante, admira a garra de Mineirinho e sabe que ele terá um lugar de destaque na história do surf.

A fórmula da inspiração move o mundo do surf

Imagens inspiram a imaginação do homem - Foto: Cesar Calejon
Por Cesar Calejon

Luz, câmera e muita ação. Esses são os elementos que compõem o trabalho de quem se dedica a produzir imagens de surf. Sempre fui literalmente um fotógrafo amador de surf, considerando que não vivo da fotografia e faço porque sou apaixonado. Como jornalista, escrever é a minha ocupação profissional. O texto, na minha opinião, funciona muitíssimo bem quando o intuito é estimular o raciocínio, fazer pensar. Mas imagens funcionam muito melhor quando a intenção é levar ao resto do mundo um pouco da sensação de estar absolutamente envolvido pelo oceano, acelerando sobre a face de uma onda, dentro de um tubo ou em uma praia paradisíaca, por exemplo. Imagens funcionam melhor para fazer sonhar.

Uma das boas entrevistas que eu acredito ter realizado na minha carreira, publicada em maio de 2009 no NEXTSURF, foi com o fotógrafo australiano Tim Mckenna. (Confira a entrevista!) Quando questionado sobre qual seria o maior legado de uma vida como fotógrafo, Mckenna afirmou que se sente "feliz por ter criado algo original e duradouro. Imagens que fazem as pessoas sonharem e respeitarem mais a natureza".

Eu concordo plenamente: essa é a grande riqueza do trabalho desenvolvido por todos os profissionais que produzem imagens e textos de surf. A idéia é criar matérias que inspiram, fazem sonhar, porque sonhos são fundamentais para a elaboração de metas, que por sua vez necessitam ser concretizadas para que possamos atingir a felicidade.

É como disse o falecido poeta norte-americano JD Salinger: "o universo inteiro conspira a favor do homem que sabe o que quer". Sonhar, idealizar e concretizar, essas são as etapas que formam o ciclo iniciado pela fórmula da inspiração.

Cesar Calejon é jornalista, apaixonado por surf e já registrou imagens nos mais badalados picos do mundo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O tamanho exato - como medir uma onda

O tamanho da onda é sempre discutível - Foto: Divulgação
Por Henrique Chaves (O Visionário do Surf)

Falar em altura das ondas no Brasil nunca foi fácil. E nunca será. E não é para menosprezar o nosso país. Comprovadamente vivemos em um país repleto de swells e condições para a prática do surf. Muito próximo aos países com as melhores ondas. Ainda mais este ano em que estamos sendo beneficiados com uma variedade e constância superior a épocas passadas.Talvez perdemos um pouco em qualidade, devido aos nossos fundos, na maioria de areia, que encontram-se em constantes modificações. Mas que elas estão ao nosso redor e ao nosso alcance, isso é verdade.

Quanto ao menosprezo falo sobre nós, surfistas. O quanto é duro, em roda de amigos, dissertar sobre o tamanho das ondas de hoje ou daquele dia épico, de gala, aonde escutamos, através de diversos conhecidos, ter quebrado de meio metro até três metros overhead. E torna-se pior e mais difícil ainda se nesse dia você chega mais tarde e ouve a célebre frase: "Mais cedo estava melhor"! Como é que você poderá saber realmente o tamanho das ondas?

Ainda não consigo acreditar de que, amigos de longa data dentro e fora da água, possam desconhecer a forma como são medidas as ondas, para obter-se uma definição da altura. E também não me conformo quando estes arriscam suas medições, sempre muito ABAIXO do que normalmente está quebrando. Hoje não procuro mais levantar a questão de ‘quanto é que está hoje’ para não perder um tempo discutindo. Primeiro penso em pegar as ondas. Após a queda procuro finalizar a questão com fotos. Tendo estas em mãos fica muito mais fácil comprovar o tamanho das ondas, eliminando todo o tipo de discussão.

E deixo claro desde já: as ondas são medidas pela sua face, pela frente.

Alguns lembrarão como textos eram descritos nas revistas especializadas, definindo o tamanho das ondulações por ‘pés hawaianos’. Lembram-se? Eram muito estranhos, pois definidas e publicadas as ondas com alguns pés de tamanho, o que se via nas fotos e/ou filmagens era no mínimo o dobro de seu tamanho. E sempre seguida com a explicação: ‘No Hawaii medem-se as ondas por trás’.

Ora essa, e desde quando se surfa a onda por trás? Os eventos de ondas grandes, que acontecem no Brasil e no mundo, nos deixam claro a forma correta de medir a altura dos vagalhões. Suas ultimas medições têm nos comprovado. Toda e qualquer onda surfada será medida por sua face, pela sua frente. Não é a toa que estamos chegando a impressionantes 60’, 70’, 80’ ou mais, conforme o big surf vai se profissionalizando.

Todos sabem que a medição por trás é inviável. Cansei de surfar dias com ondas quebrando sempre acima da cabeça, as vezes bem maior, e ao sair da água você escuta:" tava só um metrinho".

Uma onda que me impressiona até hoje foi a surfada por Pete Cabrinhas em Jaws para a esquerda. Uma 66’(medida oficial) limpa, lisa e em linha. Coisa impressionante. Se alguém me contasse que era uma onda de 20’ hawaianos (aqueles medidos por trás) eu cairia na risada.

Quem viu imagens desta onda sabe do que estou falando. Quando você olha para a foto, você fica com vontade de estar no lugar dele. Talvez pela combinação dos fatores como: Sol, Altas Ondas, Linha Limpa. Fatores estes que implicam e interferem na medida real. Como? Por exemplo, um mar de 1 metro buraco forte. Em um dia de sol e água azul transparente, acreditamos de estar num playground com ondas pequenas. Agora imagine esta mesma situação com o tempo fechado, chuva e água escura, ventando. Com certeza a nossa previsão vai para um metrão e meio fechadeira.

Mas, devido a todas estas confusões, invenções e pirações do folclore criado por nós, surfistas do mundo todo, e conhecendo as formas como medimos as ondas para dissertarmos (sim, dissertarmos, pois devido a tanta discordância precisamos sentar e debater sobre teses), criei uma tabela que possa ajudar a entender o real tamanho de uma onda (baseado, como já disse, no folclore do nosso litoral).

Veja e confira se você e seus amigos se enquadram na forma de falar das ondas abaixo (folclórico). O tamanho que falamos de uma onda e qual é a sua real altura.

Confira:

QUANDO FALAMOS: NA VERDADE TEMOS (relacione com a sua altura):

Quando falamos: 0,5 metrinho (meio metrinho) - Temos: 0,5 metro (meio metro) (não é que aqui não foge muito do inicial?!)
Quando falamos: 0,5 metro (meio metro) - Temos: 1,0 metro (um metro) (aquela onda que bate no seu peito não tem um metro?)
Quando falamos: 0,5 metrão (meio metrão) - Temos: 1,5 metro (um metro e meio) (esta está na altura do seu rosto)
Quando falamos: 1,0 metrinho (um metrinho) - Temos: até 2 metros (muito usado em dias de ondas boas com muito sol)
Quando falamos: 1 metro (um metro) - Temos: entre 2 metros e 2,5 metros ( dias bons. pense na onda acima de sua cabeça!)
Quando falamos: 1,0 metrão (um metrão) - Temos: acima de 2,5 metros (olha, não é difícil de acontecer)

Parece-me que o nosso problema é o menosprezo sobre a altura. Isso já é histórico, cultural. Costumávamos falar que as ondas estavam sempre menores só para falar que aquela situação era fácil para nós. Eu acho que hoje não precisamos mais nos prender a essa situação de diminuir tamanhos para nos valorizar.

BEM VINDO AO MUNDO DO SURF VISTO PELOS MEUS OLHOS!

Henrique Chaves é MBA em marketing esportivo, diretor do Ibrasurf e surfa há 27 anos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O objetivo é pranchas melhores e que durem mais

Modernização na fabricação de pranchas - Foto: EasyDrop
Por Bruno Ruy

Pranchas de EPS, vulgo isopor, laminadas com resina epoxy de última geração: esses materiais foram desenvolvidos nos EUA especificamente para pranchas sendo os blocos fáceis de shapear ainda que na mão, proporcionando grande qualidade no acabamento, pintura e pranchas mais brancas e resistentes aos raios ultra-violetas. E o mais importante, o segredo: flexibilidade! Durante o longo reinado do poliuretano esqueceu-se de um aspecto muito importante: a flexibilidade da prancha, que é exatamente a vida da mesma. E é exatamente isso que o isopor tem de melhor ─ performance!

Tenho escutado de alguns amigos a mesma informação: como as pranchas de epoxy são rápidas e retomam a velocidade nas manobras, usa-se menos força para manobrar. Tudo de bom? Não, o isopor não é tão fácil de consertar, a resina requer uma proporção correta, não pode ser no olho, e absorve mais água, ou absorve água mais rapidamente. Então deve-se sair do mar para evitar que entre muita água. Porém, toda água que entra sai, basta deixar a prancha secando por alguns dias.

Já o poliuretano absorve menos água, mas somente 70% da água infiltrada sai da prancha, o resto fica. Para a epoxy, assim como para a resina normal, já existe secagem ultra-violeta, ou seja, a resina seca quando exposta à radiação, o sol, às lâmpadas de bronzeamento. Assim o conserto da epoxy fica bem mais fácil. Outra vantagem da epoxy: a flexibilidade da prancha dura muitos anos, ou seja, a mesma funciona como nova por bastante tempo, já que a de poliuretano tem uma velhice precoce.

Pranchas mágicas deixam de funcionar tão bem somente com o passar do tempo, porque a resina de poliester e o poliuretano tendem a enrijecer-se rapidamente. Outra vantagem é em função do peso, como as de epoxy são muito leves, pode-se variar bastante a laminação de acordo com o uso da prancha e o surfista. Já o poliuretano, se for produzir uma prancha reforçada, com certeza teremos excesso de peso. As E-flex, sem longarina, que agora entram em produção total; são pranchas com vida útil de 5 anos ou mais, muito leves e de ótima performance.

Bruno Ruy é estudante, curte surf desde a infância e acompanha as pesquisas que apontam como facilitar a vida do atleta.

domingo, 19 de julho de 2009

A onda do social media

twitter@nextsurf - Endereço NextSurf
Por Cesar Calejon

As redes de relacionamento que funcionam na internet, tais como Orkut, Facebook, Blip, entre tantas outras, estão crescendo de forma acentuada e promovendo mudanças significativas na forma como as pessoas, surfistas inclusive, se comunicam e trocam experiências em todo o mundo. Recentemente, o Twitter ganhou notoriedade com destaque em matérias de veículos tradicionais da mídia brasileira. Mas o que é o Twitter e o que leva surfistas como Jamie Obrien, Joel Parkinson, Mick fanning, Bobby Martinez, o cineasta Taylor Steele, a ASP e o próprio Next Surf a usarem esta ferramenta?

O Twitter possibilita que você literalmente siga as atualizações de quem você quiser, do seu vizinho, passando pelo seu surfista predileto, até o presidente dos Estados Unidos. Funciona assim: você escolhe seguir alguém e, na tela inicial, visualiza todo o conteúdo que a pessoa eventualmente postar em tempo real. As mensagens podem conter no máximo 140 caracteres, mas elas aceitam qualquer tipo de link, ou seja, a mensagem em si é um convite para um universo de conteúdo sobre determinado tema.

Além disso, o Twitter é extremamente dinâmico e por isso está se tornando tão popular. Por exemplo, durante as baterias da última etapa do WCT, o australiano Joel Parkinson, atual líder do circuito mundial, escrevia após cada duelo contando como foi a experiência e o resultado final. Você tem acesso a uma quantidade inesgotável de informações em primeira pessoa. O Next Surf também está no Twitter. Nosso endereço é twitter@nextsurf. Cadastre-se e nos siga para receber o melhor conteúdo do surf no Brasil.

Cejar Calejon é jornalista, apaixonado por surf e especializado nas técnicas de mídia social.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O surfista urbano e os contrastes entre concreto e natureza

Paraísos são raros nos dias de hoje - Foto: www.imotion.com.br
Por Bruno Ruy

A paisagem da praia deserta com coqueiros dá lugar a selva de concreto, a água transparente ganha uma tonalidade meio marrom e finalmente, aqueles seus poucos amigos que curtiam o pico se multiplicam, e o pior, não são mais tão amigáveis. Essa é a rotina do surf nas grandes cidades, a princípio parece estressante e agressiva, mas a interação concreto-natureza forma uma nova estética do surf. A onda e o prédio se contrastam e se completam em uma composição única.

O surfista urbano está em constante interação física com a civilização, não há como se desligar dessa relação. Porém, quando está no mar, ele se isola do ritmo frenético da cidade, se torna um espectador dessa realidade tão distinta da que vive naquele momento em que interage somente com as ondas.

Por outro lado, muitas vezes observa o mar através da janela de um carro ou do escritório, apreciando aquele ambiente sublime que, apesar de perto fisicamente, proporciona sentimentos totalmente o opostos a dinâmica da vida nas grandes cidades. O surf urbano é isso, o contraste acentuado, seja no visual ou no "feeling". A agressividade das grandes cidades como moldura das ondas forma um quadro único, diferente do conceito tradicional de surf em um lugar paradisíaco e deserto.

De qualquer forma não importa a sujeira na água, as ondas pequenas e ruins e o crowd se digladiando por elas, o surf se infiltra em qualquer ambiente, criando novas estéticas e conceitos ao interagir com essa paisagem urbana.

Bruno Ruy é estudante, curte surf desde a infância e admira os surfistas urbanos que conciliam natureza e desenvolvimento.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A garota que realizou um sonho em Imbituba

Mineiro realiza parte do sonho na Vila - Foto: Stephanie Sayuri
Por Stephanie Sayuri

Esta não é a história round por round ou bateria por bateria do WCT de Imbituba, encerrado na quinta-feira passada (2). Na verdade, é a síntese do simples e feliz relato de uma garota de 17 anos que o mais próximo que esteve do sonho WCT foi quando, mais nova, resmungava dentro de casa no sul da ilha de Floripa pelo fato de não poder ir sozinha assistir a etapa que rolava no leste da ilha, na Praia da Joaquina e que, agora depois de anos, esteve na Praia da Vila. O que já parecia ser um sonho realizado, surpreendeu-a ainda mais quando seu jeito comunicativo ou até mesmo sua beleza, proporcionou-lhe o inesperado acesso a uma parte privilegiada para fotografias (ofício pelo qual também é apaixonada) e o contato com todos os seus ídolos destes seus poucos, mas intensos quatro anos de surf.

1. A mudança: Muito embora todos os anos o comentário geral seja de uma possível transferência da etapa brasileira para outro pico do nosso litoral, a verdadeira transferência foi muito mais delicada,e aparentemente sutil e, para os mais atentos, totalmente propícia: foi no calendário. O tour mudaria de estação, de ares, geral atrás de gorros, as meninas sem biquínis e o fim das chances de se decidir o título mundial em terras canarinhas como em outros anos. Mas nada que faça surfistas, admiradores do esporte, enfim, os de bom senso, trocarem a época em que as principais ondulações chegam ao sul do Brasil.

2. As promessas: Tantas mudanças remetem a promessas e, como mudanças buscam sempre o melhor, as promessas e suas expectativas pareciam maiores ainda. E de promessas estávamos cheios: eram os grandes swells de inverno, era um bom público devido à época de férias, era a vinda dos grandes competidores. Sem dúvida, possibilidades de encher os olhos de qualquer um e que só seriam realmente confirmadas se não na abertura da etapa, apenas alguns poucos dias antes. Vale lembrar que a data e o local já estavam confirmados e entusiasmando todos um ano antes. Enfim, era fato, por muitos foi dito "a promessa é de que esta seja a melhor etapa do tour já realizada no Brasil".

3. O sonho: a promessa virando realidade e mais um pouco.

Misture 1, 2 e 3. Agora escolha uma cidade pequena, simpática e organizada com uma praia paradisíaca, de ótimo astral, mar aberto emoldurado por morros, ilhas tão próximas e estrategicamente posicionadas como um capricho da natureza para encantar nossos olhos e claro, ondas, altas ondas. Tempere com Burrows, Slaters, de Souzas, Hobgoods, Fannings... Complemente com cut backs, floaters, batidas e aéreos (só ficaram faltando os tubos). Acrescente um bom público, atencioso e animado. Um marketing, algumas propagandas. Concursos bobos de beleza para não perder o costume. Adicione emoções extras, algumas surpresas. Não se esqueça de uma estrutura consistente e organização. Coloque tudo de baixo de um dia nem tão frio, maravilhoso, ensolarado e sem vento. Curta bastante e entre no astral: foi essa a receita e o clima do WCT Brasil 2009.

O campeonato que deu a largada já no primeiro dia da janela só aconteceu em seu primeiro sábado e domingo. Por três dias esteve parado, para voltar com tudo no dia 2 de julho, inaugurando bem o início do mês e as férias de muitos que estavam presentes. Em todos os dias do evento, as ondas embora não muito grandes estiveram constantes, a Praia da Vila recebeu um swell no primeiro dia que prolongou-se até o domingo e que teve sua formação prejudicada devido ao vento forte, para o retorno dos surfistas às águas da Vila ocorreu na quinta-feira outro swell que se estendeu por todo o dia seguinte, encerrando o campeonato. Nos primeiros dias ocorreram todas as baterias iniciais bem como as repescagens. Algumas surpresas que já não têm sido tão surpreendentes como a perda de Kelly Slater logo no início do campeonato encaminhando-o para a repescagem, vencida em cima do brasileiro Bernardo Pigmeu. Mineirinho, mesmo também tendo ido para repescagem, recuperou-se e encaminhou.

Após boas baterias o campeonato estava se encaminhando e afunilando não apenas os primeiros colocados do tour bem como surfistas imponentes como Slater e Bede Durbidge. A torcida brasileira ia loucura a cada bateria vencida por Mineiro que tanto quanto o público se entusiasmava e por muitas vezes após suas ondas ao chegar no inside comemorava forte e chamava a torcida para cima. Mesmo tendo enfrentado pedreiras como o atual líder do tour Joel Parkinson, Mineirinho não decepcionou e no quintal de casa chegou à final, a segunda de sua carreira e a primeira em seu país. Paralelo a toda essa emoção patriota, estava Slater que mesmo não sendo brasileiro levantava o público sim, ver o nove vezes campeão mundial mandar um floater de nove metros em sua prancha teste (Slater tem feito testes no tour com novas pranchas) só poderia mesmo animar qualquer um que admira uma onda bem surfada e no quintal de casa ou não, era ele quem enfrentaria Mineirinho na final, levando todos a uma expectativa maior ainda.

Enfim, a final. Um pequeno intervalo de 15 minutos e lá estavam eles. O comentário era geral e inevitável "a final dos sonhos". A consagração de Mineirinho ou o ressurgimento da lenda viva Slater. A expectativa não era grande, era enorme. Ao vê-los entrando no mar através do canal ao lado da Ilha Santana de Dentro todos pararam. Tenho certeza, muito pensaram: pra quem torcer? Reconhecia-se e respeitava-se Slater, entretanto, o lado patriota bateu e a praia inteira manifestava-se a favor de Mineiro, se vencesse Slater ganharia pela quadragésima primeira vez uma etapa do tour e Mineirinho pela primeira. Tão jovem, dedicado, grande esperança do surf brasileiro e em casa? A festa tinha de ser verde e amarela. E não foi, mesmo após levantar todos com seu high score de 8 pontos, tendo liderado por um bom tempo e já comemorado muito durante a bateria, quem realmente comeu quieto ao estilo mineiro e levou a taça foi Slater.

Slater pegou uma onda e logo atrás Mineirinho dropou também, entretanto, desta vez, ao contrário de todas as outras ondas de Mineiro o público se calou, Slater tinha acabado de fazer uma onda quase perfeita e todos já haviam sentido isso, a nota? 9.27. Seguida de um 8.67 e da necessidade de Mineirinho tirar 9,94 para superá-lo. Aos minutos finais todos sabiam que seria difícil, no entanto, não abandonaram Mineirinho. Na festa do pódio, os dois foram ovacionados e de mãos dadas e braços erguidos, a lenda gringa e a esperança nacional reconheceram o público e seu poder contagiante, agradeceram a todos, agradeceram um ao outro e tenho certeza, agradeceram como devem agradecer todos os dias a energia que o surf proporciona a eles e a toda essa comunidade que como já dizia o velho bordão não vê o surf como esporte e sim, um estilo de vida, fazendo as promessas de dias melhores virarem realidade e mais um pouco.

Stephanie Sayuri é uma apaixonada pelo surf que vai poder contar sempre que estava na Praia da Vila em um momento mágico de Mineirinho e Slater.

Precisamos (e podemos) ter mais brasileiros na elite

Jadson decola para a elite - Foto: Dara
Passada a ressaca do WCT de Imbituba, a galera brasileira que gosta do surf volta os olhos para a agitação de duas provas do WQS que vão rolar por aqui. Em Floripa, os atletas já estão na água procurando garantir pontos que os coloquem na elite em 2010. Depois da etapa catarinense, a parada será em Saquarema.

Com certeza, é muito justo que os olhos de todos acompanhem as manobras de Adriano Mineirinho, o compatriota que pode realizar nosso sonho de ter um campeão mundial na elite do surf. Porém, é preciso ser realista e pensar sempre no futuro. O lado real é que precisamos ter algumas feras entre os 15 que serão promovidos no ano que vem, pois dificilmente manteremos o trio que está nos representando nesta temporada.

Não é excesso de pessimismo, mas as chances de Jihad Kodhr e Heitor Alves virarem o jogo nesta altura da disputa estão diminuindo muito. Se o ano terminasse hoje eles seriam substituídos por Jadson André, o potiguar que está em quarto no ranking, e Marco Polo, catarinense que surge em 13º. É uma situação de alto risco para o surf nacional que no ano passado já viu diminuir seu número de representantes na elite.

Com um litoral tão extenso e tantos garotos se iniciando no esporte não há sentido em ver o Brasil com tão poucos nomes entre as feras do esporte. A explicação, logicamente, está na falta de apoio oficial e na filosofia de alguns patrocinadores que só pensam no imediato. É preciso olhar para o futuro e ver que é preciso investir na base. Talentos não faltam em todos os cantos do Brasil.

Com relação a 2010 a situação é mais preocupante, pois a disputa está apertada e só com uma reação forte, que exige preparo e recursos para viagens e material, poderemos aumentar o exército brazuca no WTC.

sábado, 4 de julho de 2009

Ondas de probabilidade

A mente pode influenciar no oceano? - Foto: Arquivo
Por Cesar Calejon

Você acredita que pode determinar o tamanho, deslocamento ou projeção de uma onda no oceano? Impossível? Loucura? Por mais incrível que isso pareça, muitas evidências fornecidas pela física quântica, ciência que estuda também a natureza da realidade, apontam nesta direção. Segundo Fred Alan Wolf, físico quântico e escritor, "a realidade como você a conhece é formada por ondas de probabilidade organizadas pela consciência humana, ou seja, você observa, as coisas acontecem, você não observa, elas não acontecem", afirma.

Muitos estudos como o Gerador de Eventos Aleatórios (GEA) e a Mensagem da Água, entre outros, demonstram o que o surf parece nos mostrar na prática, com aquelas sensações de "nossa, hoje todas estão vindo para mim" ou "não peguei nada hoje". "Investigando a matéria subatômica você descobre níveis de pura abstração, e que isso de alguma maneira forma um campo universal, que interliga todas as coisas, é o que chamamos de Teoria do Entrelaçamento (Entanglement Theory) e que une todas as coisas existentes como um único organismo vivo, no qual a consciência humana imprime os reflexos dos seus pensamentos e intenções", diz Wolf.

O GEA, por exemplo, é um estudo que utiliza basicamente uma máquina simples, que produz 0s ou 1s, em dez casas, quando um botão é acionado. Teoricamente, 50% para cada um dos dois números, considerando que o mecanismo não recebe programação ou instrução prévia. Os cientistas notaram então que o resultado produzido pelo mecanismo variava de acordo com quem apertasse o botão e o observasse. Variação natural do aparelho? Mas eles constataram também que durante eventos que reúnem grandes quantidades de atenção humana, como o caso do atleta O.J Simpson, 11 de setembro, entre outros mapeados, "o mecanismo deixa de ser imparcial. A aleatoriedade do aparelho parece sumir, e isso nos diz muitas coisas acerca de como o ímpeto humano afeta a natureza do que nós chamamos de realidade", acrescenta o físico.

A Mensagem da Água, do cientista japonês Masaru Emoto, é um estudo obrigatório para todo surfista. Ele demonstra como a água reage às emoções humanas e os cristais que produzem refletindo cada intenção. O trailer do filme diz: "se os nossos pensamentos fazem isso com a água e nós somos 70% feitos de água, imagine o que eles não fazem com nós".

Existem muitos estudos, livros e filmes de diversas partes do conhecimento humano sobre o tema e, apesar de utilizarem métodos diferentes, todos parecem apontar nesta direção: "você cria o seu próprio Universo na forma como escolhe deliberadamente observar o mesmo". E no mar? Você cria as suas ondas?

Links interessantes sobre o tema:


Cesar Calejon é jornalista, já pegou ondas nos mais badalados picos do mundo e acredita que tudo que cerca o ser humano vale ser estudado.