quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um olho na Copa e outro nas ondas

Jadson comemora gol de placa na Vila - Foto: ASP / Kirstin
Quem dera o surf recebesse a mesma atenção que o futebol no Brasil. Em ano de Copa do Mundo então, as atenções estão todas voltadas para a redonda e os convocados de Dunga. O país para, a população se aperta na frente de uma televisão para acompanhar a abertura, os jogos e o encerramento. Sem falar na matada no horário do trabalho que todo mundo adora.

Não podemos comparar o esporte que possuímos o Rei e fabricamos príncipes com o surf onde o dono do trono é da Flórida, e os príncipes se espalham pela Austrália e Hawaii. Mesmo que, ao invés de Kelly Slater, o Rei fosse Carlos Leite, ainda há dúvidas se as atenções se dividiriam. Infelizmente é cultural. O País é do futebol, mas nunca é tarde para começar.

O retorno financeiro do futebol é muito maior, mas o investimento também. O salário faz a molecada sonhar em jogar no Morumbi, mas toda criança que tem a possibilidade de conhecer o mar e suas ondas esquece, nem que seja por alguns segundos, as pedaladas de Robinho e se fascina com o deslize de uma prancha. As dancinhas de Neymar perdem a graça, comparado ao "voar" sem asas de um surfista. Nem que seja por um instante.

Voltando a realidade, futebol gera muitos lucros, mas o surf pode gerar se existir investimento e comprometimento. Não temos Reis, mas Adriano, que não é o Imperador, mas sim o Mineirinho, pode aprontar no melhor estilo "surf moleque" e assumir o trono. Jadson, que tinha tudo para seguir a carreira de jogador de futebol como seu pai, está na "Copa do Mundo do Surf" buscando seu espaço, enquanto Neymar e Ganso aguardam, contra a vontade do povo, suas oportunidades de vestir a amarelinha na equipe principal.

Se o Brasil revela jogadores de futebol de monte, podemos falar o mesmo em relação ao surf. Gabriel Medina é um exemplo, assim como Alejo Muniz, Wiggolly Dantas, Jessé Mendes, entre outros.

O investimento no esporte é muito escasso, comparado ao que gera de renda o mercado surf. Como dizem: "Quem divide, multiplica". E assim, vamos abrir os olhos para outros esportes e dividir para que o Brasil seja o País do Futebol Sport Surf, Surf Futebol Clube, Novo Basquete Surf, Surf Federação brasileira de Vôlei ...

sábado, 1 de maio de 2010

Magrelinho com fome de vitória

Jadson faz a festa da torcida brasileira - Foto: Zé Eduardo
Por Michel SP

O potiguar Jadson André entrou para a história na etapa do mundial da ASP no Brasil. Depois de mais de 10 anos, um brasileiro voltou a vencer e convencer juizes e competidores. O público é um caso a parte. Afinal, era um tupiniquim na água. Com manobras modernas nas esquerdas da Vila e muita pancada de backside nas direitas do pico (lado que sacramentou a vitória sobre Mr. Slater na final), Jadson encarou todos os seus adversários como se fossem free surfers, como se estivesse disputando ondas na remada para impressionar a ninguém, ou alguma gata na areia, a lycra colorida era um mero detalhe.

Quem quer ser campeão deve ter o espírito de vencedor mesclado com a alegria de se fazer o que gosta. Não adianta apenas estratégia de bateria, saber usar a prioridade, posicionamento no pico. O sentimento de chegar aonde se chegou feliz da vida por poder deslizar em pé numa prancha é essencial.

Pressão? Nenhuma. Pra que? Só atrapalha. Tudo pode acontecer, até tubarão aparecer. Então o melhor é relaxar, se pintar a necessidade de marcar o careca, ótimo, caso contrário, segue pegando onda, decolando e abusando dos reverses.

E foi isso que Jadson fez em todas as suas baterias. Perdeu quando podia perder e depois surfou como se estivesse no quintal de casa na maioria do tempo e quando precisou partir para a estratégia, fez da melhor maneira possível. Todo grande atleta conta com ajuda da sorte. Contra o queridinho da mídia Dane Reynolds, vacilou nos minutos finais. Perdeu a prioridade, coçou a cabeça e, quando tudo parecia perdido, quebrou uma esquerda de high score para garantir a vaga. Sem desespero, perder não é o fim do mundo, para alguns.

"O Jadson estava com tudo na bateria. Ele surfou os cinco primeiros minutos da bateria como se eu nem estivesse lá. Demorei pra entrar no jogo e quando eu vi ele já tinha um 7 e um 8 e eu não tinha nada. Além de estar surfando muito bem, ele teve o apoio da torcida.", palavras de Dane.

Infeliz na bateria decisiva e nos comentários, Kelly Slater pareceu não saber perder para um jovem brasileiro cheio de disposição, feliz da vida por ter vencido seu ídolo e acreditar que sua conquista foi um "milagre".

Caro Slater, todos na praia sonhavam, torciam e acreditavam que Jadson poderia chegar a final. Ele apresentou o melhor surf da competição, seria injusto ele ficar de fora do lugar mais alto do pódio.

"Acho que todos aqui imaginariam uma final contra o Mick (Fanning), o Joel (Parkinson), mas estou feliz pelo Jadson vencer aqui em casa", disse Slater. Será?

"Agora ele precisa evoluir em ondas mais difíceis, como Jeffreys Bay (África do Sul), Teahupoo (Taiti), onde os aéreos não são tão valorizados", finalizou Kelly.

Evolução é importante para todos. Até para o careca no auge de seus 38 anos e 9 títulos mundiais. Mas, não importa em qual terreno o gol do campeonato foi marcado, como dizem, gol é gol.

O Jadson precisa melhorar, Mineiro também, mas são essas vitórias que fazem o surfista crescer e acreditar que um dia pode chegar aonde o careca chegou tantas vezes. Se o potiguar vai apresentar um bom surf em J-Bay ou Teahupoo, não sabemos. O que sabemos é que o magrelinho vai com fome de vitória para cima de seus adversários sem medo de ser feliz.