quinta-feira, 21 de maio de 2009

Teahupoo e Slater ''meia bomba''

Joel Parkinson aproveita para se isolar - Foto: ASP
Por Michel SP

Caros torcedores, admiradores e simpatizantes do surf, a etapa taitiana do Circuito Mundial de Surf não foi bem o que se esperava. Tubos largos e longos, posicionamento profundo e saída na baforada, além de cortes e vacas monstruosas, situações normais quando se pensa em Teahupoo, não aconteceram neste ano. Para piorar, a grande esperança brasileira – o guarujaense Mineirinho – ficou nas quartas. Pode-se dar o desconto de que ele parou no duelo contra o campeão Bobby Martinez.

A temporada começou quente nas águas australianas, com Joel Parkinson e companhia surfando de forma fluída e consistente. Boas ondas e notas altas, principalmente na Gold Coast, marcaram as duas primeiras etapas do tour. O primeiro pelotão dos tops, encabeçado por Parko, Taj Burrow e Mike Fanning, sente falta de Kelly Slater brigando pelo caneco. Talvez sinta também a falta de Bede Durbidge, Jeremy Flores e Adrian Buchan, mas esses três últimos são surfistas normais comparados ao nove vezes campeão mundial.

Bobby Martinez, surfando sem pressão e sem patrocínio, mostrou que também quer a glória. Sempre bem posicionado no ranking, o californiano mostra que aos poucos, comendo pelas beiradas, pode incomodar a potência australiana que lidera a tabela. E sempre vale a torcida pelo verde-amarelo no alto do ranking.

Diferente do ano passado, o tour 2009 promete muito mais equilíbrio e emoção. Com Slater ocupando o fundo da classificação, os primeiros colocados, que ainda não encararam o norte-americano, eliminado precocemente nas três etapas iniciais, podem começar a sonhar com título, boas colocações e grandes premiações. Ainda não tem nada definido e de três a quatro nomes podem brigar pelo título ao final da temporada.

Vale relembrar que estamos no começo e que muita coisa pode acontecer, ainda mais se a tal "magia" aparecer para o careca. Na parte de trás da tabela, acredito que Slater seja o único que possa estragar a festa dos top 3, ou até mesmo 6, atuais. O campeão dos campeões está levando a sério a síndrome Zeca Pagodinho de "Deixa a vida me levar", como diz que fez ano passado (tenho lá minhas dúvidas) e que deu certo.

Slater não está mostrando sede por vitória, sendo que todos sabem o quanto ele gosta de vencer. Pisa na areia e entra na água no dia de sua bateria, treina no pico dois dias antes, quando treina, aposta em prancha pequena, entra em ação com equipamento padrão, às vezes, se mostra focado, às vezes desinteressado. O cara é uma incógnita. Sinceramente, acho bom a galera aproveitar enquanto pode, pois se tratando de Slater, independente de falta de magia ou de vontade, quando quer, ele costuma estragar a festa de quem está na frente.

Michel SP é editor do NextSurf, admira Slater e acha ótimo que o tour 2009 seja equilibrado.

O artificial pode ajudar o lado natural do surf?

Teahupoo flat - Foto: ASP CI / Kirstin
Das características que tornam o surf um esporte especial e emocionante, o grande destaque é sua integração com a natureza. Não basta ao atleta ter talento, coragem e preparo físico: é preciso que o mar lhe dê o cenário para sua atuação. Sem uma bela e desafiadora morra, ninguém pode mostrar que é fera. O problema é que esse ponto positivo também é uma grande desvantagem nestes tempos em que vale muito a exposição na mídia.

Competidores, organizadores de eventos, patrocinadores e jornalistas especializados vivem reclamando da falta de espaço que o esporte, notadamente no Brasil, consegue na TV. Para os amantes do surf, a beleza e audácia das manobras dos seus ídolos valeriam mais transmissões direta e maior divulgação dos campeonatos. Os veículos rebatem a queixa, lembrando que a imprevisibilidade da natureza impede que isto aconteça, pois não é possível conciliar as grades de programação com as baterias das competições.

Os puristas ficam irritados quando se diz que a solução do problema virá com as piscinas artificiais, que já começam a serem montadas em várias partes do mundo. Tendo ondas garantidas nos horários determinados pelos canais de televisão, o esporte poderá ser facilmente organizado. Mas, e a integração com a natureza? Como fica intuição para saber que é a hora de arriscar tudo que os atletas de ponta possuem?

Com certeza, o tema ainda dará muito o que falar, no entanto, fica difícil fugir da realidade. A recém-acabada etapa do circuito mundial em Teahuppo é exemplo de como está difícil prever a duração de um evento. Pode-se perder dez dias esperando o swell e, depois, obrigar os surfistas a disputarem três duelos num único dia em condições ruins. Apenas, canais dedicados exclusivamente ao esporte poderiam acompanhar esse ritmo, mas isto não interessa a quem ganha dinheiro com o surf. Então, tudo indica que o futuro será do artificial, mas o natural sobreviverá como estilo de vida.

terça-feira, 12 de maio de 2009

As lições para o surf que vêm do vôlei

Raoni Monteiro encara tubos sem patrocínio - Foto: Daniel Smorigo
O anúncio de que mais uma equipe forte do vôlei brasileiro vai ser fechada, aparentemente, nada tem a ver com o surf. Esta é uma impressão falsa, uma vez que o que está acontecendo com um esporte, onde o Brasil é bi-campeão olímpico e se transformou em potência mundial, serve de alerta para todos que desejam ver o desenvolvimento sadio e sustentado do surf. Afinal, a crise nas quadras se deve aos conflitos de interesse dos que faturam com o sucesso das competições, sem grandes preocupações com os atletas. E isso não é muito diferente na vida sobre as pranchas.

O vôlei criou uma elite de astros que conseguem salários astronômicos, dão status nas telinhas da TV e são ótimos garotos e garotas-propaganda. Enquanto surgia esse grupo, esqueceu-se dos coadjuvantes, dos atletas que se empenham em quadras de todo o Brasil para que continuem existindo equipes formadoras de bons jogadores. Em paralelo, os patrocinadores se desentenderam com a mídia e na briga dos "cachorros grandes" sobrou para os menores. Há um risco muito grande de acontecer a mesma coisa com o surf.

A globalização econômica, o desenvolvimento acelerado da indústria do entretenimento, a valorização extrema do consumismo pela publicidade e a ânsia cada vez maior da mídia por audiência e faturamento mudaram totalmente os conceitos do esporte. Hoje, o que importa é quanto entra a mais no caixa das TVs e quanto se vende a mais de produtos para os patrocinadores.

Neste mar de interesses, se for preciso afogá-la uma estrela em ascensão, mata-se uma equipe e transforma-se o sonho da onda perfeita no pesadelo de uma vaca. É preciso criatividade das lideranças do surf para valorizá-lo e trazer o público para o lado dos atletas, antes que a moda mude e, como acontece com o vôlei brasileiro, não interesse mais aos donos da comunicação, divulgar esse esporte. Os sinais de alerta estão acessos.