segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Fugindo do calor

E você se achava fissurado - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

ISLÂNDIA

É a verdadeira terra do gelo (Iceland). Um país insular no continente europeu mas que tem como vizinho mais próximo a Groelândia. Sua formação é vulcânica, semelhante ao Havaí. A ilha tem 103.125 km², e tem uma população fixa de aproximadamente 320 mil habitantes. A pesca é uma importante atividade econômica, mas o turismo cresce bastante. Atualmente a população do país chega a dobrar na alta temporada do verão. No inverno, quando quebram as melhores ondas, o clima é frio e a água, literalmente, chega a congelar em alguns pontos. A maioria dos picos são em praias de pedras vulcânicas (point breaks), existem também bocas de rio e algumas lajes, que são as ondas mais pesadas e tubulares da região, só que dependem muito da sincronia de swell, maré e vento.

JACK O'NEILL

Também conhecido como "The Cheese", foi quem desenvolveu a roupa de borracha, Jack nem sequer pegava onda de prancha, mas de peito. Fazia roupas para o uso próprio, que acabaram se tornando extremamente populares, transformando sua pequena loja, chamada "Surf Shop", em uma gigante das marcas de surfe, a O'Neill. Atualmente existem roupas de borracha com tecnologia de aquecimento e materiais superflexíveis facilitando muito a prática em temperaturas extrema. Gorros, botinhas e uma boa dose de vodka também ajudam. E por falar em bebida, na Islândia comemora-se o dia da cerveja, 1º de março. Porém o Estado é rigoroso quanto ao consumo de bebidas, que são vendidas com as taxas mais altas da Europa. A gasolina também é super taxada, para desincentivar a população a andar de carro, bêbado ou não.

ESPORTES

É parte importante da cultura islandesa, apesar do surfe ser bastante desconhecido ainda. A prática mais tradicional se chama Glíma, uma luta que dizem ter sido criada pelos Vikings. Talvez pela proximidade com a Inglaterra, o futebol é atualmente o esporte mais popular na ilha. Os campeonatos são jogados apenas durante a primavera e o verão, devido às baixas temperaturas do inverno e congelamento dos gramados. O maior e mais tradicional clube é o Knattspyrnufélag Reykjavíkur, imaginem a dificuldade da torcida para apoiar o time no estádio.

COLD TOUGHTS

É o novo projeto do surfista e cinegrafista Timmy Turner. Autor do premiado "Second Thoughts", eleito o melhor vídeo do ano pela Surfer em 2004, o californiano agora procura a onda perfeita em lugares gelados e, muitas vezes, inóspitos. A Islândia foi um dos picos visitados no projeto. Timmy ficou famoso também por sua luta contra uma infecção gravíssima no cérebro, o que lhe custou alguns anos afastado da água e diversas visitas a mesa de cirurgia. De volta a ativa, só precisa seguir um conselho médico: não se expor ao calor tropical (já que suas chances de contrair uma nova infecção são grandes em tais condições climáticas).

O IDH

Índice de desenvolvimento humano é usado desde 1993 pelas Nações Unidas para classificar, anualmente, os países de acordo com o bem estar da população. Como o bem estar de cada um é relativo, o IDH e suas variáveis também o são, mas basicamente esse índice usa três fatores: renda, educação e longevidade da população. Antes da crise, a Islândia encabeçava a lista divulgada pela ONU. Ou seja, é considerado um dos melhores países do mundo para se viver. Um bom exemplo, no ano de 2007 foi registrado apenas um homicídio em toda a ilha. Como somos surfistas, acrescentaríamos ao IDH a variável qualidade das ondas. Será que a Islândia continuaria no topo do ranking? Pela quantidade de picos inexplorados e o potencial apresentado tudo indica que sim!

domingo, 27 de dezembro de 2009

2010 é hora de investir em nosso quintal

É preciso investir em nossos atletas - Foto: Eric Tedy
O surf terá um ano decisivo em 2010. A tentativa da ASP de agitar o esporte com mudanças nas regras da principal competição mundial e o calendário de provas mostram que existe grande insatisfação com o cenário atual. Sob ameaça de ver as feras do circuito se debandando para um "tour paralelo", os homens que mandam no "circo" procuram alternativas para tornar a competição mais emocionante. A saída é turbinar os prêmios e fala-se em distribuir 12 milhões de dólares entre todas as categorias.

Essa medida, por um lado, aumenta o apetite dos atletas, mas acaba encarecendo a organização dos eventos e reduz as etapas da elite. Piora a coisa a instabilidade climática que não permite que se tenha certeza de boas ondas em vários picos e a distância entre uma competição e outra leva ao desinteresse da grande mídia. A consequencia é que o surf fica sem divulgação constante e não consegue aumentar sua influência e ganhar mais adeptos. Já não são poucas as pessoas com água salgada nas veias que reconhecem a necessidade de o futuro trazer as piscinas artificiais que permitirão uma programação mais regular das etapas e a prática do surf em países onde a natureza não foi generosa na hora de distribuir as esquerdas e direitas.

Enquanto esse "futuro in-door" não chega, o Brasil precisa aproveitar para falar alto no mundo das pranchas. Temos mais de oito mil quilômetros de costa, onde se destacam picos emocionantes e podemos nos organizar para mandar bem nas provas que acontecem aqui, não só na etapa do "Dream Tour". Porém, não adianta fazer bonito quando os gringos pintam por aqui e esquecer de nosso quintal. O mais urgente, agora, é apoiar nossos atletas, não só para conseguirem marcas internacionais, mas para darem espetáculos em casa, o que vai estimular a nova geração a gostar do esporte.

Precisamos de idéias criativas para nossas competições nacionais despertarem interesse não só da galera ligada no mar, mas trazer novos adeptos. Viver de um grande nome de sucesso internacional como Mineirinho que está se transformando em californiano é repetir a sina do tênis que teve Guga como fenômeno e quando ele declinou voltou a ser secundário. O exemplo vem do vôlei que investiu nos novos, teve patrocínio, foi para a mídia e hoje é referência mundial. Vamos arrumar nosso quintal e sair para conquistar os mares internacionais.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nem na trave

Sem boa estrutura não se faz campeões - Foto: Projeto Onda
Por Bruno Ruy

Um antropólogo tentava explicar para um indignado entrevistador porque músicas como "Egüinha Pocotó" fazem tanto sucesso no Brasil. Interessante a teoria dele: "o brasileiro come mal, mora mal, tem acesso a uma educação péssima e a um atendimento médico pior ainda, porque então queremos que ele escute boa música?".

O que isso tem a ver com surf? Tudo. Olha só. Um garoto chega à praia pra fazer uma aula na escolinha de surf, com um técnico super bem intencionado que tira grana do próprio bolso pra pagar inscrição de campeonato. O moleque parece meio cansado e o professor diz pra ele: "tomou café da manhã, tomou leite, comeu frutas?" E vem a resposta: "bem que eu queria, mas na minha casa não tem". E aí, como fica? Como um moleque desse vai ter força pra remar? Como ele vai competir com moleques sarados, criados à base de "cereais mágicos de milho"? E você pode contra-argumentar: "mas os atletas da Etiópia correm descalços, não comem e são campeões mundiais". E eu respondo: "mas eles têm um adicional de fábrica chamado ‘DETERMINAÇÃO’, que nossos surfistas não têm". Infelizmente.

É sempre a mesma ladainha: "não tenho patrocínio decente, não tenho grana pra viajar, os juízes me boicotam, o mar estava ruim pra mim, faltou onda, estava gigante, a prancha não funcionou, dou azar, estava com dor nas costas". Não faltam desculpas pra encobrir a falta de coragem de meter as caras e entender de uma vez por todas que vida de atleta não é conto de fadas. Falta técnico, manager, ou sei lá quem, explicar que quando a bailarina sobe no palco e desliza sorridente, seus pés estão ensangüentados dentro da sapatilha e ela precisa suportar dores lancinantes. E suporta.

Competição é isso. Horas intermináveis dentro de vôos apertadíssimos, com chegada horas antes da bateria, meses longe de casa, da namorada (se não souber conciliar, melhor nem se apaixonar, muitos caras promissores "morrem na praia" por causa de parceiras histéricas na areia). Surf competitivo é profissão. E como qualquer profissional do terceiro milênio, quem não se atualizar, dança. A fila tem que andar. Não dá tempo de ficar passando a mão na cabeça porque o atleta está com problemas pessoais. Resolve e rema. Senão cai fora. A vida é assim mesmo. Difícil.

Nós, brasileiros, temos essa idéia paternalista de tentar ajeitar as coisas, facilitar, dar tudo mastigado. Um alicerce meio boca que vai acompanhar o atleta pelo resto da vida. É só lançar um olhar mais atento e crítico a indústria dos campeonatos. Há tantos eventos que dá pra viver da miséria dos prêmios e ser chamado de surfista. Uma bermuda aqui, um bloco ali. Biscates do surf. Triste, mas é verdade. O moleque ainda está de fralda e todo mundo enxergando um futuro Slater. E o resto da história a gente já conhece. Alguns veteranos dando show, garantindo o nome do Brasil no pódio e a nova geração se perdendo no caminho. Salvo raríssimas exceções, é claro.

E aí, acabamos sobrecarregando uma meia dúzia de atletas, que na verdade são nossas únicas fichas. E fingimos indignação por não termos um campeão mundial. Só pode ser fingimento. Senão seria burrice. Ou inocência.

Os empresários, que fique claro, os poucos empresários brasileiros que têm uma visão empresarial do surf, deveriam cobrar de seus atletas o dinheiro neles investido. Agir como pais de adolescentes. Marcação cerrada. Liberdade com responsabilidade. Um relacionamento maduro que implicaria em um "toma lá dá cá". O verdadeiro atleta já espera essa postura da empresa. Aliás, é a consciência de seu real valor e produtividade que permitem que ele consiga um patrocínio condizente com seu desempenho. Quantos atletas temos nessas condições atualmente? O resto? Bem, o resto é resto, e vai engrossar as estatísticas dos atletas conformados.

Como dizem: "Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor". Enquanto isso, o caneco continua desfilando em mãos menos bronzeadas e gringas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Como evitar problemas no North Shore

Backdoor ou Pipeline? Dúvida cruel... Foto: ASP / Cestari
Colunista do NextSurf, Bruno Ruy dá dicas de como passar uma boa temporada no Hawaii, evitando roubadas e gastos desnecessários.

Confira algumas informações que podem ajudar antes do embarque e quando já estiver no paraíso de frente para as melhores ondas do planeta.

Respeito garante respeito (e conserva os dentes)

O localismo existe, mas você consegue perceber quem são os locais, seja andando na rua, seja pelo jeito de agir ou falar. Ficar tranqüilo, ser simpático e respeitar as regras são dicas para garantir uma estadia sem problemas por lá. Não fale alto dentro ou fora da água, espere suas ondas pacientemente e, se possível, converse sempre em inglês. Se o Hawaii fosse no Brasil, seria muito pior. Lá a lei funciona e mantendo a calma tudo acaba dando certo.

Entenda o mar antes de entrar

Não se deixe levar pela euforia, entrando na água com tudo. Analise bem o pico onde deseja surfar. Saber por onde entrar e por onde sair é fundamental. Veja onde estão quebrando as ondas e por onde outros surfistas estão entrando, saindo e onde é o canal. O tamanho das ondas pode variar com uma velocidade impressionante. Fique sempre ligado.

Saiba onde você está

No outside, ache um ponto de referência na areia. As correntezas são muito fortes e não é bom ser arrastado sem perceber. Isso lhe ajudará a se posicionar para pegar as melhores ondas.

Deixe a natureza te ajudar

Nunca lute contra a correnteza, isso será inútil. Se sua cordinha estourar, não nade para o canal, onde fica quase impossível sair da água. Vá em direção à zona de impacto e tome uma onda na cabeça. Vai dar uma chacoalhada, mas naturalmente você será arrastado em direção à areia e chegará com maior facilidade à praia.

Escolha um lugar para ficar

O primeiro passo quando se planeja viajar para o Hawaii é escolher um lugar para ficar. Principalmente nas últimas cinco temporadas, tem ocorrido uma superlotação no North Shore. Definir o local ainda no Brasil é muito importante para evitar roubadas e um gasto duas ou três vezes maior com estadia. A melhor maneira de fazer isso é pegar contatos com amigos ou conhecidos que já estiveram por lá ou negociar pela internet com os proprietários. Quanto mais tempo você ficar, mais barato será.

Vá com o quiver certo

Saia com duas a três pranchas do Brasil, que vão funcionar bem em ondas de até 6 pés e garantem boa diversão em locais como Rocky Point, Off The Wall e outros picos alternativos. Mas para surfar as ondas mais pesadas como Pipeline e Waimea, onde você coloca sua cabeça em jogo, o melhor é comprar uma ou duas pranchas já no Hawaii. Os shapers de lá estão acostumados e sabem o que uma prancha precisa ter para ser usada nesses mares.

Não acredite em lendas

Todo mundo costuma falar que o North Shore é muito crowd, que as ondas são pesadas e muito difíceis por causa dos locais. Tudo isso é verdade, mas o Hawaii é um lugar alucinante. Se você for com paz de espírito, muita disposição e paciência para esperar sua hora, com certeza surfará as ondas da vida. Vibe boa é sinônimo de bons resultados.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

De molho na areia

Ficar sem surfar é castigo para surfista - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

Impressionante como os problemas do corpo parecem pequenos frente à dor psicológica causada pela impossibilidade de surfar. Já perdi a conta do número de vezes que vi surfistas chorando feito crianças, porque estavam intimidados, por motivos médicos, a ficar longe da água salgada.

No Tombo, há alguns anos, por conta do esgoto que saía no Bostrô, houve uma epidemia de hepatite. Imagine só, a galera desesperada quando o diagnóstico apontava para pelo menos um mês de cama. Tinha neguinho que com duas semanas largava o tratamento e preferia arriscar uma seqüela no fígado, do que amargar a perda de um canto direito de gala. Sobreviveram.

Tenho um amigo que em menos de um ano conseguiu duas lesões graves. Na primeira, jogando futebol, adquiriu uns pinos no tornozelo e dois meses fora d'água. Foram intermináveis dias de queixas pelo MSN. Da segunda, surfando, conseguiu uma torção no joelho, que rendeu um enxerto no ligamento e seis meses fora de cena. Desta vez, conseguiu a solidariedade do fisioterapeuta que também é surfista e exibe um joelho "turbinado" com pinos. Ele garante que preferia morrer se tivesse que deixar de surfar. Um tanto quanto radical, mas bem próximo do sentimento que afeta os fissurados que são obrigados a fincar os pés na areia enquanto o corpo se recupera. Aliás, outro dia escutei uma definição bem engraçada: um desesperado de plantão diz ter descoberto duas coisas importantes quando teve que ficar uns meses no seco: a primeira foi que detesta praia e a segunda que os melhores mares quebram quando você não pode entrar. Faz sentido.

Surfistas realmente parecem sofrer algum tipo de metamorfose quando passam um tempo fora do mar. Sabe aquele comercial do garotão na piscina do clube, quase morrendo, que só recupera os sentidos quando os amigos o seqüestram e jogam no mar? E aí rolam tentativas desesperadas pra salgar o corpo e a alma. E dá-lhe filme, revista, games de surf virtual. Vale tudo pra sentir-se o mais próximo possível da sensação de deslizar pelas ondas. Mas, como não há mal que sempre dure... Um dia o corpo se recupera e você percebe que toda a privação só serviu pra estimular ainda mais seu tesão e a volta é sempre triunfal, com gosto de primeira vez.

Na real, esse texto surgiu no dia em que um grupo de amigos, no qual me incluo, descobriu que um dos tripulantes estava com câncer e um tipo de câncer que afeta os ossos. O susto da notícia foi minimizado pela informação de que há cura, mas quando soubemos que por conta do risco de fraturas haveria a necessidade de ficar longe do mar, a indignação foi unânime: "mas essa médica sabe das seqüelas que a falta do surf vai trazer?" Não, ela não sabe. Nem imagina. Isso é o surf!

Sabemos que em breve o nosso brother vai voltar e a galera estará lá no outside esperando pra dropar junto. A única preocupação é que esse cara é tão fominha, daqueles que pega uma e sai remando de volta feito um louco pra não perder nada, que já está todo mundo se preparando, porque a volta vai ser irada.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Universo em expansão

Phil Rajzman radicalizando de pranchão - Foto: Fábio Minduim
Por Bruno Ruy

Quem pensa que o longboard é tudo a mesma coisa, está enganado. Assim como as pranchinhas, existem diversos modelos de longboards, sendo que as principais variações estão no tamanho, no fundo, no rocker e nas quilhas, além das novas tecnologias que controlam muito melhor o peso das pranchas.

Longboards progressivos são mais usados hoje, principalmente no Brasil. É resultado de uma mistura bem refinada, das antigas pranchas clássicas com designs mais modernos, que surgiram para suprir a necessidade dos surfistas de realizar manobras radicais. Esses longboards costumam medir entre 9’0" e 9’3", com largura média variando entre 22" e 23" e quilha central com estabilizadores. O fundo funciona bem tanto com v-botton + concave no bico, quanto com o full concave.

Alguns longboarders profissionais usam esses modelos com uma curva mais acentuada na rabeta (quick tail), para facilitar o drive nas manobras. Quanto à flutuação, o maior volume fica concentrado na longarina, sendo distribuído suavemente pela prancha até as bordas, que chegam a ficar parecidas com as bordas e rabetas de pranchinhas. Os longboards progressivos são ótimos para fazer um surf completo, com muitas curvas e manobras extremas preservando características que possibilitam um excelente desempenho nas manobras de nose.

Graças a essas evoluções os longboarders podem surfar ondas grandes e cavadas com segurança. Em picos como Pipeline, os pranchões seguem a mesma linha progressiva, porém com mais rocker e medidas mais compactas, geralmente 9 pés. Para surfar onda buraco, as pranchas devem ser mais estreitas (bico, meio e rabeta) e com as bordas mais finas do que os longboards progressivos convencionais, lembrando que o maior volume de flutuação fica na longarina.

Os moldes clássicos, apesar de pouco apreciados pelos brasileiros, são os preferidos pelos californianos e europeus, principalmente para ondinhas perfeitas e longas. É muito comum na Califórnia ver surfistas de todas as idades, inclusive garotas, "passeando" com longboards clássicos, com até 10 pés de tamanho e single fin. A maioria dessas pranchas apresenta v-bottom bastante acentuado e borda 50×50 (ou quase). Para conseguir surfar bem com esses modelos, o surfista precisa ter muita técnica. A força não ajuda muito, o melhor negócio é fluir com a onda e entender os movimentos, que devem ser suaves e harmoniosos, já que normalmente são mais pesados. Longos hang fives e hang ten estilosos são as melhores opções de manobras para esse tipo de prancha.

O tamanho e o posicionamento das quilhas também são determinantes para um bom desempenho em condições diferenciadas de ondas. A caixa de quilha permite que o surfista adapte o pranchão para a condição de mar que ele vai surfar, deslocando a quilha central mais pra frente ou para trás. Quanto mais atrás, isto é, quanto mais próxima da rabeta a quilha estiver, mais projeção o surfista terá na onda. Porém, deve-se tomar cuidado para a prancha não ficar muito presa nas manobras. Com a quilha nessa posição, as curvas ficam mais abertas e a sustentação nas manobras de nose, ajudada pelo peso, será maior. Esse posicionamento de quilha também é indicado nos dias de ondas grandes ou muito fortes. Se a quilha central for colocada mais para frente, o longboard ficará mais solto nas curvas, porem a projeção será menor. Além disso, no momento de um hang five e principalmente do hang ten, as chances da quilha desgarrar da água serão grandes, limitando o tempo de permanência do surfista no bico da prancha. Portanto, deve-se encontrar o ponto certo para fixar a quilha central, que pode variar de uma pessoa para outra e de uma prancha para outra também.

O tamanho da quilha também influencia no desempenho. Para surfar com uma quilha só, prefira as maiores e com base mais larga, ideal para ondas menores. Se a onda estiver com tamanho médio e cavada, desista da mono. Coloque uma quilha média e estabilizadores, que vão garantir a segurança nas curvas mais fortes. Geralmente é assim que funciona, mas para toda regra existe exceções.

Enfim, surfar de longboard está cada vez mais interessante, graças a essas variações de quilhas, fundos, curvas e tamanhos. Talvez por isso, cada vez mais surfistas se preocupam em ter um longboard para dar umas caídas de vez em quando. E os longboarders se preocupam em ter um quiver diferenciado, pois sabem apreciar essa diferença entre surfar com um clássico single fin e um long progressivo, principalmente porque conseguem assimilar que o resultado dessas variações é importante para lapidar manobras e, principalmente, estilo. Opções não faltam na hora de fazer um long, converse com um bom shaper e pendure-se.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O sultão da velocidade

Fitzgerald criou a marca HB - Foto: Dan Merkel/Swell
Por Bruno Ruy

Alguns poucos surfistas na história foram apelidados assim: "Sultão da Velocidade". Poucos merecem esse título (o último foi Rob Machado), mas o protótipo original chama-se Terry Fitzgerald, notável fera dos anos 70 e "um dos primeiros estilistas das ondas" *.

Local de Sydney, ele aprendeu a surfar em Maroubta Beach e mais tarde sua família se mudou para Narrabeen, ao norte de Sydney, na Austrália. O garotão cabeludo cobria largas áreas da face das ondas com inesperadas linhas e ainda transformava em velocidade cada cantinho do oceano. Tradução? Ele ia aonde poucos tinham ido numa onda e fazia isso com uma mistura única de radicalidade e abandono, num estilo fluido e excêntrico; os joelhos dobrados distantes um do outro, os braços estendidos retos simetricamente desde os ombros. As manobras eram iniciadas através dos quadris e pélvis, com os joelhos, ombros e cabeça vindos em seguida em perfeita sincronização.

E pensar que quando criança, aos 10 anos, uma osteomelite, doença degenerativa nos ossos, quase lhe custou à perna esquerda, embaixo do joelho. Uma série de enxertos de ossos salvou seu membro. Terry era o mais jovem, mas não menos talentoso que seus compatriotas que chocaram o mundo com um surf mais agressivo na metade dos anos 70 (Michael Peterson, Pete Townend, Wayne Bartholomew, etc.).

Outro fato importante: ele semeou "multi surfistas" em seu país. Foi tanto um mestre nas ondas grandes no Hawaii, como um caçador de secret spots paradisíacos, shaper e empresário (criou a famosa Hot Buttered). E, culto e articulado, ainda conseguia traduzir a mágica do surf em belos artigos para revistas especializadas.

Visionário, Fitzgerald sabia onde devia estar para evoluir. Por isso mudou-se para Kirra quando tinha 19 anos (1969) para aprender com mestres do shape e das ondas aussies, como o mago construtor, Bob McTavish e os futuros mitos, Michael Peterson e Pete Townend, entre outros. Logo voltou para Sydney, onde fundou a HB, em 1970. No mesmo ano hipnotizou a comunidade das ondas ao desenhar as mais variadas linhas em Sunset. Esse desempenho brilhou no clássico filme Morning of the Earth. E Terry ainda aproveitou para se aprofundar na arte das pranchas com o lendário Dick Brewer, que o convidou para conhecer sua casa e oficina de shape em Kauai. Isso resultou numa grande colaboração de design que incluiu Reno Abellira, San Hawk and Owl Chapman. Surgiram as modernas bases como a "v" espiral (um concave duplo básico) e wings.

De volta à sua Narrabeen, Terry trabalhou os novos designs com os surfistas e shapers mais quentes do pedaço, feras como Simon Anderson, Col Smith, Derek Hynd, Steve Wilson, Greg Day, Greg Webber, entre outros. Suas pranchas, em geral estreitas, vigorosas e experimentais (como as monoquilhas acrescidas de duas canaletas laterais, como se fossem mini quilhas), ainda eram verdadeiras peças de arte moderna psicodélicas: os loucos e belos desenhos com spray feitos por Martin Worthington, de golfinho a entardeceres mágicos. Foi ele ainda o primeiro surfista pró a ter um quiver, com pranchas para diferentes condições de ondas, algo raríssimo na época.

A carreira competitiva de Terry, mesmo com belas vitórias (campeão australiano em 1975, vencedor de eventos do mundial no Hawaii e Indonésia), não o seduziu muito. O chamado da onda perfeita e outros interesses o apanharam cedo. Foi um dos primeiros a desbravar Grajagan, junto de Gerry Lopez, em 1973; depois, Sumbawa.

No início dos anos 80, sua empresa espalhou-se pela Inglaterra, EUA, Japão e Tahiti, onde ele apoiou muitos jovens promissores como Vetea David. Terry seria ainda um dos responsáveis pela revitalização do circuito júnior de seu país, que voltou a ser uma fábrica de revelar talentos.

Hoje, Terry Fitzgerald, que perdeu o filho caçula, Liam, falecido há seis anos em um trágico acidente, segue vivendo em Narrabeen, com a esposa, Pauline (com quem se casou aos 21 anos, em 1971). Ele curte a carreira dos filhos, Joel e Kye, que cavam lá embaixo e aceleram o máximo que podem honrando o pai, o legítimo e eterno Sultão da Velocidade. O cara que produzia tanto barulho, visual e faísca na água que era como se o estilo mais potente do rock da época, o heavy metal, se materializasse nas ondas. "Se surfistas pudessem ser bandas de rock, Fitz era o Led Zeppelin!", afirmou Drew Kampion.

*O apelido supersônico de Terry é obra do célebre jornalista australiano, Phil Jarratt, ao assistir sua fantástica exibição nas longas direitas de Jeffrey’s Bay, em 1977.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O segredo das ondas está no fundo

Maresias tem potencial internacional - Foto: Manu D'Almeida
Por Burno Ruy

POINTBREAK ─ Regularidade e Consistência

As ondas de pointbreak começam a quebrar na ponta da baía e se refratam para dentro dela, num movimento constante a partir da costa curvada. Possuem impressionante regularidade e consistência. Normalmente, o fundo é de pedra e areia, ou apenas a costa é repleta de rochas e a baía é de areia fina. Ondas como Burleigh Heads, na Austrália, e Raglan, na Nova Zelândia são exemplos clássicos de pointbreak.

REEFBREAK ─ Perfeição e Força

O fundo de um reefbreak é formado por corais, pedras ou outras coisas parcialmente submersas. A onda quebra subitamente e com força. Sua forma varia de acordo com a configuração, profundidade e tamanho do obstáculo encontrado. Banzai Pipeline é uma onda de recife perfeita, cujo fundo possui formato triangular. Quando este triângulo é eqüilátero e a ondulação entra de frente, a onda abre tubos perfeitos para os dois lados.

BEACHBREAK ─ Mudanças constantes

Os Beachbreaks são os tipos de fundo mais comuns no Brasil. Normalmente as praias são retas, o fundo é de areia ou cascalho e há uma leve inclinação que faz com que a onda quebre. Como o fundo de areia muda constantemente, as ondas têm formação mais irregular. As correntes de água que voltam para o mar são chamadas de canais. Maresias, no Brasil, e Puerto Escondido, no México, estão entre os melhores beachbreaks do mundo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A história do wetsuit

Jack O'Neill - Foto: Dina Scoppettone
Por Bruno Ruy

Deveríamos canonizar o cara e rezar a cada manhã gelada para "São Jack do Corta Friaka". Cansado de ouvir seus comparsas de mar e passar ele mesmo por momentos horripilantes de frio, Jack resolveu inventar uma roupa apropriada para surfar mais tempo em baixas temperaturas. O cara era inovador. Até o começo dos anos 50, as session lá pelos lados da Califórnia não duravam muito. Neguinho tentou de quase tudo para se aquecer, desde blusa de lã com óleo, whisk goela abaixo e sabe-se lá mais o quê. Em 1952, Jack abriu sua primeira loja, diga-se de passagem, a primeira realmente nomeada surf shop. As outras, como de Dale Velzy e Hobie Alter, só vendiam pranchas, mas a dele já começou vendendo algumas vestimentas feitas com pedaços de neoprene colados. Sim, roupas de borracha. Daquela época até os dias de hoje seu invento tornou possível o surf de Santa Mônica, na Califórnia, a J-Bay; da Tasmânia às geladas ondas de Maverick's. Graças a ele é sempre verão dentro de um wetsuit.

Como o próprio nome já diz (wetsuit = roupa molhada) a idéia é conservar a temperatura e não manter o cara seco, como muitos podem pensar. Isso acontece porque mesmo ao criar uma película de água entre a roupa e o sujeito, o que importa é o ar que fica retido dentro do material unicelular (espuma) de forma que o corpo esquenta a água e a temperatura não escapa dali. Ou seja, não aquece, mas não deixa esfriar, contanto que não haja um grande fluxo de água. Testando diferentes tipos de espumas flexíveis, nosso mestre inventor chegou ao PVC. Era moldável e tinha propriedades térmicas, mas ainda teria que confrontar as agruras do meio. Mr. Jack colou plástico sobre o PVC e pronto! A primeira "roupa de borracha", se assim podemos chamar, estava no outside. Mas o material era difícil de trabalhar.

Vale quanto pesa - Jack parecia saber onde estava pisando! Acarpetando o chão de um avião DC-3, descobriu o neoprene. Era térmico, boiava e se moldava facilmente. Logo surgiram os modelos long, com ou sem mangas, short johns e aquelas jaquetas com uma alça que passava entre as pernas e abotoava na frente. Muita gente torceu o nariz e tirava a maior onda dos caras com aquelas roupas esquisitas no mar. A verdade é que logo as "vests" de borracha voaram da loja e Jack O'Neill estava no mercado.

Hoje a tecnologia chegou ao requinte de permitir roupas sem zipers, sem costura, muito mais flexíveis, leves e, lógico, mantendo cada vez mais eficácia o tão desejado e necessário calorzinho em modelos equipados com aquecimento elétrico. O único problema é que ainda não inventaram roupas mais baratas, especialmente por aqui, onde dependemos na maior parte do tempo da importação. Mesmo assim, acredite, esse item é mais que um acessório indispensável, especialmente se você mora da Bahia para baixo. Normalmente damos graças a Deus por cada centavo que deixamos na loja.

Por isso mesmo mandamos aqui alguns toques que podem fazer seu investimento durar mais que um inverno.

CUIDA QUE É CARO - As roupas vêm sempre com etiquetas dizendo o que pode e não pode ser feito. Tá, eu mesmo, devo confessar, sempre gostei de jogar as minhas na secadora ou de deixá-las ao sol. Nada bom. Isso acaba com a flexibilidade delas e promove o encolhimento das bolhas de ar que mantém o calor. Seja mais responsável, siga as instruções de uso. Vão aí algumas dicas.

* O certo é secá-la num local aberto e à sombra. Não deixe fritando no carro, fica um cheiro desgraçado e acaba com a maciez da borracha. Lave sempre com água fresca. Isso tudo vai manter a parte de fora dela com boa aparência e a borracha macia. Ah! O cloro das piscinas também não ajuda em nada a vida do seu wetsuit. Isso pode doer, mas a verdade é que a água quente detona a elasticidade, portanto entre no chuveiro e tire a roupa na água fria antes de transformar seu banheiro naquela sauna.

* Se você ainda está em fase de crescimento, compre uma roupa que não seja tão justa e use uma lycra para dar uma enchida, assim você não perde a roupa tão rápido. Roupas apertadas são um inferno, especialmente na zona do... Bem, você deve imaginar. Se ela veste perfeitamente, não precisa a tal da lycra. Quando for comprar, pergunte qual a porcentagem de laciamento quando molhadas. Existem roupas que ficam bem mais largas dentro d'água.

* Não faça xixi dentro delas. Eu sei, a sensação é ótima. Quentiiiiinho! Mas do mesmo jeito que não entra muita água, também não sai. O ácido úrico da urina compromete o material e a roupa fica com um cheiro miserável.

* Se ficar com a roupa "meio vestida", enrolada ou com as mangas penduradas enquanto dá um rolê pela praia, cuidado com o velcro. Essa indispensável parte da roupa pode facilmente grudar e danificar o tecido sobre a borracha quando em contato com ele.

* Quando sua roupa for descansar durante o verão, vale a pena jogar um pouco de talco (pó) sobre ela antes de dobrar e guardar no armário, de preferência pendurado. Quando a friaca atacar novamente ela terá escapado ao ressecamento que pode criar pequenas "rachaduras" na borracha.

* Areia na roupa. Um saco! Não leve para casa, não deixe na roupa. Tente sempre tirar seu wetsuit nas pedras, grama ou na canga da gata. Bom, talvez ela te xingue. Nenhuma das alternativas é possível? Vá até a beira do mar e saia dela ali, dando uma lavada na areia que ainda vai ficar. Cuidado, dependendo do tipo de roupa (shorts ou pernas longas) é necessária uma certa habilidade. Seu carro, sua mão e você mesmo vão agradecer depois.

* Não tem jeito, parafina suja mesmo. Os caras dizem que dá para limpar assim e assado, mas na real nada parece funcionar, você vai ter que conviver com isso. E mesmo que conseguisse limpar não adiantaria nada. Você vai colocá-la novamente na parafina, não?

* As cores da roupa não mudam em quase nada em seu funcionamento. Acredite, é só uma questão de moda. Mas o preto clássico pode fazer você passar mais despercebido entre um crowd não familiar e as meninas na praia não saberão diferenciar entre um e outro caso você não mande muito bem. Pense nisso.

* Como entrar naquele ambiente ainda gelado do fim de tarde do dia anterior? Não tem jeito, roupa molhada é um caso a ser enfrentado. Quanto mais rápido, melhor. Portanto, entra aqui o velho golpe do saco plástico no pé ou nas mãos. Ele faz deslizar com mais facilidade, diminuindo o tempo e o choque térmico. Tenha sempre um a mão, inclusive é bom para guardar a roupa molhada na hora de ir embora.

* As roupas variam de preço pela tecnologia ou por pura sacanagem do lojista. Fique atento. Veja o tipo de costura (invisível, zig-zag, soldada, tosca...), se são seladas com um fino material sobre as costuras, quanto de material flexível existe no modelo, que tipo de materiais e suas espessuras. As roupas mais usadas no Brasil devem ter no máximo partes com 3 milímetros. Não vá na onda de ninguém, é uma escolha que deve ser muito bem pensada. No fim, é você quem vai passar um bom tempo ali dentro.

Em 1950, Hugh Bradner, da universidade de Berkeley, na Califórnia, (também) inventou a roupa de borracha. Foi uma pesquisa em parceria com a marinha e a empresa Rubatex, que fabricava um material unicelular (neoprene) que viria a ser a principal fornecedora do mercado de wetsuits durante anos. O material foi indicado pelo engenheiro de pesquisas, Willard Bascon. O problema é que a patente e o uso comercial da roupa desenvolvida levaram anos num vai e vem burocrático de falta de visão de ambas as partes. Ninguém realmente se interessou na manufatura em pequena ou larga escala e a liberação do uso e patente vieram em 1967, quando as ondas geladas já conheciam muitos surfistas emborrachados. Está tudo documentado: Sunset Magazine, publicada em maio de 1998.

sábado, 17 de outubro de 2009

Já dizia um velho ditado

Mineiro é esperança brazuca - Foto: ASP
Por Stephanie Sayuri

Mineirinho que de mineiro só tem o apelido, provou também que "não come quieto". Botou pra baixo, arrancou highs scores dos juízes, euforia da galera, "uhuls" dos companheiros e desconcertou o Velho Mundo com seus poucos e comprovadamente maduros vinte e dois anos. Com sua audácia, Mineirinho chegou até a repaginar a imagem do tradicional azarento número treze, lembrando em sua primeira entrevista após a final da coincidência entre sua primeira vitória no tour em 13 de outubro e seu aniversário comemorado em 13 de fevereiro. Coincidência ou não, esse tal de 13 trouxe ao Mineiro sua primeira conquista no circuito e ao surf brasileiro o nascimento de uma das suas maiores esperanças da atualidade.

Confirmou não ser promessa e sim realidade. Em terras ibéricas mostrou fazer jus ao velho ditado espanhol "Si quieres buena fama, no te dé el sol en la cama", "Se queres boa fama, não te ache o sol na cama" - se quer que os outros te respeitem, é preciso trabalhar e não ser preguiçoso. "Buena fama" ele conquistou, graças a falta de preguiça e muito trabalho que deve manter a constância e o padrão, uma vez que o trem desse mineiro está "bão" demais.

É, o garoto, menino, moleque, mineiro, paulista, do Guarujá, de Minas, da Espanha, do Brasil, do mundo, renova nossas esperanças e imprimi orgulho em nosso peito. É preciso e foi provado que se deve acreditar no surf brasileiro, pois como já dizia nosso velho ditado "Eu sou brasileiro e não desisto nunca".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Renascer

Guilherme Costa chegando no Tahiti - Foto: Arquivo pessoal
Por Bruno Ruy

O Oceano estava lá, como sempre, em toda sua majestade com seu infinito manto azul subindo e descendo, balançando com ternura seus súditos e seres que fazem desse manto e reino seu habitat natural. Dono do maior império já visto, alcança todo o redor do globo, chega nos lugares mais inóspitos e produz os mais diferentes cenários, desde a movimentada província Atlântica a misteriosa e ironicamente denominada Pacífica. O Pacífico, a maior das províncias, esconde mistérios e embora sustente uma imagem paradisíaca, revela-se altamente temperamental.

Repleto de verdadeiras obras de arte naturais, as ilhas do Pacífico são almejadas tanto pelos ricaços de plantão atrás de luxuosos resorts, quanto por aventureiros, particularmente os maiores deles, os surfistas, visto que a maior ameaça do Pacífico encontra-se em suas ondas. Estas crescem aos olhos e sonhos de surfistas de todos os cantos do mundo que ano a ano largam a terrinha em busca das mais fortes, porém perfeitas ondas.

E assim, observador atento de toda essa aventura, num dia qualquer, cansado da mesmice do céu, um anjo daqueles típicos loirinhos e de olhos claros, deixou não sua terrinha, mas seu céuzão para ir ao encontro do reino Oceano, mais especificamente na província Pacífica. A pista de pouso escolhida, um país de dimensões continentais, multicultural, multiétnico, bonito por natureza, cheio de lugares a se explorar e ondas espalhadas por um vasto litoral banhado pela província Atlântica. O campo de concentração, uma ilha ao sul deste país. Escolhido seu lar e família, era questão de tempo para o anjo crescer e partir rumo ao sonho.

O anjo, agora adulto, enfim corre atrás de seu destino e entre tantas a serem escolhidas no Pacífico, a primeira parada seria um novo país, este também de dimensões continentais, dessa vez cercado pelo Oceano por todos os lados. Após sete anos residindo tão longe de casa e tão próximo da realização de um sonho, as férias já estavam programadas e o destino era o que buscou desde o princípio quando desceu dos céus atrás da emoção de chegar a um arquipélago no meio do Pacífico, onde os surfistas alucinados deliciavam-se com o maior encanto do Triângulo Polinésio, as ondas. Algum tempo trabalhando, alguma grana poupada e o anjo entregou-se ao prazer: desfrutou do aqui e o agora como se fosse seu último dia na terra. E poderia ter sido mesmo, deslizando sobre o majestoso reino Oceano.

As ilhas eram a visão do paraíso e após boas ondas e longos dias tranquilos, o reino revoltou-se, o anjo já estava na água desde as seis e quarenta e cinco da manhã, o Oceano dava estranhos sinais e, atento, o anjo sentiu algo errado. Sentimento este confirmado com o repentino recuo do mar, que voltou-se maior e mais forte contra o arquipélago. Estava formada a tsunami que deixara um rastro de destruição, varrendo casas, prédios, sonhos e famílias. Com toda sua força, o anjo agarrou-se em uma pedra para salvar sua vida e mesmo cercado de aflição e apreensão, sua aura brilhou e com sua força e poder de anjo resgatou em meio a escombros lágrimas e medo, crianças assustadas que viram a esperança renascer dentro do abrigo formado pelos braços e prancha deste anjo vindo de longe. Seus olhos claros lhes transmitiram confiança, seus braços segurança e sua prancha um passaporte para sobrevivência.

Sobrevivente de uma tsunami devastadora provocada por um tremor que alcançou a magnitude de 8 graus na escala Richter em setembro de 2009 atingindo intensa e principalmente as Ilhas Samoa no Triângulo Polinésio no Oceano Pacífico, Guilherme Costa de 27 anos, estava de férias no arquipélago, reside atualmente na Austrália e sua família em Florianópolis. Ele loiro de olhos claros, que provou ser um verdadeiro anjo, nasceu no Brasil e renasceu em Samoa.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A velha polêmica do Tow In

Dupla treinando em ondas de 1 metro - Foto: Eduardo Vertullo
Por Cesar Calejon

Durante o último dia 3 de outubro, fui surfar em São Pedro, no Guarujá (SP). Acompanhado do fotógrafo Edu Vertullo, cheguei para conferir as condições do mar por volta de 9:00h da manhã. Grata surpresa foi encontrar ondas de 1 metro abrindo muito, com a arrebentação fácil e pouco crowd na água.

Após surfar boas esquerdas e direitas por quase uma hora, tive outra grande surpresa, esta nada boa: duas duplas de tow in começaram a passar entre os surfistas, ao ponto de que em algumas situações eu vi o piloto desviar de surfistas que estavam sentados esperando a série. Isso mesmo, os caras estavam fazendo tow in em 1 metro de onda, no meio de pelo menos meia dúzia de surfistas que assistiam indignados às cenas bizarras.

Não sou contra o tow in, muito pelo contrário, admiro muito o esporte, apesar de não praticar. O problema é que a modalidade está se disseminando com muita intensidade e pouca organização ou respeito. Muito se fala em associações, regulamentação etc, mas a verdade é que isso não tem acontecido na prática. Sinceramente, vejam as fotos deste dia ao qual me refiro. Compare as imagens dos surfistas de remada e as imagens que o fotógrafo Du Vertullo fez dos surfistas de tow in. Além de todo o treinamento que aborda pilotagem, técnicas de resgate, primeiros socorros, entre tantas outras que o tow in demanda, os surfistas que usam o jet precisam de muito bom-senso. Surfar ondas de 1 metro em meio a outros surfistas é no mínimo perigoso e imprudente, para não dizer constrangedor!

Cesar Calejon é jornalista, surfista e não é contra o surf rebocado, desde que seja praticado em determinadas condições.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Surfando um tsunami

É possível surfar um tsunami? - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

Surfistas viciados em adrenalina se desdobram diante das previsões de bóias de medição oceânicas para encontrar a maior onda do planeta.

O atual mito é a onda de 100 pés, que equivale à altura de um prédio de dez andares, nunca antes surfada. Já parou pra pensar na força desse vagalhão? Muitos surfistas se preparam para esse grande desafio, mas será que algum deles já se imaginou surfando algo com volume de água 5.000 vezes maior?

Uma onda bem menor que Jaws, em altura, porém, bem maior em largura; um outro gigante, capaz de devastar cidades e desaparecer com milhares de pessoas. Como a tragédia que aconteceu na semana passada, na Ásia.

O tsunami com certeza não atinge os 100 pés de altura, que acreditam poder alcançar um dia a onda de Cortes Bank, mas sem dúvida é a mais tenebrosa onda do planeta, aquela na qual ninguém gostaria de ser pego desprevenido, ou... poderíamos dizer... sem sua prancha?

QUEM SE AVENTURA?

Na tentativa de entender como seria essa loucura, algumas pessoas até comparam a idéia com surfar uma pororoca gigante. Seria preciso uma prancha com flutuação bem maior para suportar a força das suas águas e também a ajuda de potentes jet-skis, pois o tsunami é 20 vezes mais rápido que a onda comum. Tomar cuidado para não trombar com troncos de árvores e pedaços de casas no meio do caminho também não seria exagero, já que o tsunami avança a 800 km/h pelo oceano e, quando chega à costa, varre como uma avalanche praias e cidades, arrastando detritos. Isso mesmo, uma avalanche. Essa é a forma de um tsunami, uma enorme espuma branca... Já pensou perder sua prancha por ali?

Fui pesquisar se haveria algum candidato para tal loucura, e descobri um voluntário a cair na água no meio de uma grande tormenta. Ele contou na reportagem que "numa onda de maremoto eu iria, mas teria de ser de tow-in e com um bom parceiro me rebocando. Já caí no mar no meio de um furacão no México. Tinha 25 pés de onda, e fui o único a estar ali". Além disso, ele completa "mas o tsunami mesmo eu não sei se daria para surfar, porque a onda não tem parede e a espuma dele te varre".

Já que a tarefa parecia inviável, fui ver se valeria a pena sair a bordo de um jet-ski ou barco a motor procurando um lugar em alto-mar, onde talvez seria possível surfar o tsunami. Ao perguntar a um amigo e estudante de oceanografia, ele diz não acreditar que esse lugar exista, porque a formação do tsunami é diferente à de uma onda comum. "O tsunami em alto-mar é uma ondinha muito baixa e que não quebra. Tanto que ele pode até passar despercebido".

Mas é interessante imaginar o surf sobre um tsunami. O peruano Felipe Pomar certa vez disse ter realizado a proeza, em 1974, numa ilha próxima de Lima, capital do Peru. Ele e o amigo Pitti Block estavam no mar, pegando ondas de 1 metro, quando o local foi atingido por um violento terremoto. Os surfistas foram sugados por quase 2 quilômetros oceano adentro, e meia hora depois Pomar teria conseguido pegar e surfar um tsunami de 3 metros até a praia. "Remei através dos destroços e cheguei a terra. Pitts chegou um pouco depois. As pessoas vinham correndo dos morros, sem acreditar que estávamos vivos", contou Pomar, anos depois, em uma entrevista na revista Surfer.

Bruno Ruy é estudante, surfista do Rio de Janeiro e, agora, pesquisador de tsunamis surfaveis pelo planeta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Brasil não pode desperdiçar esta onda

Surfistas comemoram escolha do Rio - Foto: Maurício Val / Fotocom.net
É só olhar para os lados e se vê que não faltam problemas ao Brasil. São muitas crianças nas ruas pedindo esmolas, uma estrutura educacional deficiente, serviços de saúde longe do ideal, medo da insegurança nas ruas e políticos corruptos agindo na cara dura. Porém, não se pode negar que nunca nosso país esteve em condições de surfar uma onda tão boa na área econômica e se fazer respeitar no mundo.

A grande evidência de que temos de aproveitar a oportunidade foi a impressionante vitória conseguida na corrida para sediar as Olimpíadas de 2016. A gente sabe que o evento não será a solução de nossos problemas, não acabará com a corrupção, não garantirá comida para os meninos e meninas que perambulam pelas esquinas e nem modernizará a estrutura do nosso surf. Mas, é inegável que haverá benefícios para todos.

O Rio deverá herdar várias melhorias em sua estrutura urbana e a economia vai girar com mais intensidade. Isso acontecendo, conseguiremos consumir mais comida e roupas e as empresas deverão investir em divulgação. Não é sonho acreditar que sobrarão recursos para patrocínio de atletas e competições de surf. Afinal, nosso esporte tem uma imagem ligada à juventude e esta faixa etária deve ser a que estará em destaque daqui a sete anos, quando a tocha olímpica for acesa em nossas terras.

No entanto, para que tudo não se transforme numa vaca, será preciso que a população acompanhe cada passo da organização. Há um medo geral de que aconteçam desvios de recursos e outras irregularidades na preparação do Rio 2016. Não podemos permitir isso. Como disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no discurso que emocionou o mundo, o Brasil recebeu um crédito de confiança. Não podemos perder esta onda. Vamos provar que temos condições de fazer jogos memoráveis e de melhorar a vida de nossa gente. A hora é esta e os amantes do surf, como bons brasileiros, não fugirão da batalha.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Stand Up dominando o outside

Koxa é adepto da modalidade com remo - Foto: blog do koxa
Por Burno Ruy

Todo surfista sabe que pegar onda de pranchão é uma delicia. Afinal, eles têm uma ótima flutuação, conseqüentemente, proporcionam menos esforço para remar. No final das contas o surfista consegue ficar mais tempo na água e surfar muito mais ondas. Também não é novidade que os longboarders são mal vistos pelo pessoal que surfa de shortboards. Isso se deve ao fato da quantidade de ondas surfadas. Além do preconceito com a modalidade, chamada de "surf para os coroas".

Com a expansão do longboard, o crowd aumentou e agora, eles têm mais gente para disputar as ondas, os praticantes de Stand Up Paddle. Tem gente por aí que pensa que o SUP só é praticado quando o mar está pequeno, praticamente sem ondas. Porém, quem ainda pensa assim, está muito errado. Hoje em dia, essas pranchas já evoluíram bastante e é sim, possível, surfar ondas grandes e temidas como: Maresias e Teahupoo.

Agora, os longboarders ganharam mais um nessa disputa pelas ondas, pois a galera do SUP fica mais no outside, esperando a melhor da série, já que a prancha junto ao remo permite isso. E como tudo tem um preço, lá na Califórnia isso já vem causando conflitos de quem está dentro d’água, pois o aumento de praticantes do SUP tem aumentado rapidamente e estão dominando os picos onde antes os "donos" eram outros.

Ano passado, mas precisamente em novembro, estava vendo pela internet o Oxbow Pro Longboard, na Califórnia, e notei um número bem grande do pessoal que pratica SUP em uma bancada perto da área do campeonato. Mas todos estavam se respeitando, eles surfavam apenas em uma área determinada. Pena que não é sempre assim que acontece.

Bruno Ruy é estudante, apaixonado por surf e acredita que o respeito é a chave para todos se entenderem dentro da água.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Dream Tour pessoal

Viagens alimentam nossos conhecimentos - Foto: Divulgação
Por Henrique Chaves (Visionário do surf)

O surf já se mostrou uma modalidade na qual precisamos conhecer o mar em todas as suas características, suas condições.

Pegar onda nem sempre foi muito fácil. Basta ver e analisar suas próprias sessões. Os profissionais então, que dependem disso para sobreviver, analisam cada detalhe antes de qualquer caída no mar para tirar o máximo de proveito da onda e de suas formas.

Então a viagem pelo surf para ser necessária. Conhecer ondas diferentes: cavadas, gordas, buracos, abertas. Surfar sobre fundos diferentes: artificiais, de areia, de pedra, de coral. Encarar swells: grandes, marolas, overhead, intransponível. Sentir ventos em ângulos com relação a onda: terral, maral, ´ladal`, nordeste, sul.

Para vivenciar todo o surf é preciso se deslocar. Sair da toca de onde foi criado. Encarar as criaturas marítimas vizinhas a sua redondeza, a sua praia, a sua cidade, até ao seu país.

O quesito evolução só acontece quando procuramos. A arte de fluir sobre as ondas de maneira dócil e agressiva ao mesmo tempo só acontece com conhecimento, tempo de água e experimentação. Basta lembrar as primeiras baterias de nossa vida no surf. Recordo uma das minhas. Comecei a surfar no Sapê, praia ao sul de Ubatuba, região conhecida e ´esquecida` pelo seu tamanho pequeno em média no ano todo. Moleque e empolgado com a minha primeira vez que surfaria fora dali, fui levado até a famosa Vermelha do Norte. O potencial desta praia é completamente o inverso de onde eu aprendera o surf. Águas rasas, ondas cavadas, rápidas e fortes. E ainda por cima com um swell grande (para mim na época). 8 anos. E apenas poucas e pequenas ondas gordas no verão do Sapê. Não preciso contar o resto. Fica com a imaginação de vocês.

A partir de então percebi que não adiantaria ficar parado. Parece como mágica, mas claramente decidi investir em viagens na minha vida. Uma decisão sábia, porém muita nova para uma criança da minha idade. Mas desde então eu me liguei mais a isso. E estava certo.

Desta data em diante comecei a buscar, toda vez que viajava, conhecer praias novas. Quando conheci todas da região, comecei a me aventurar por outras no estado. E daí para sair de São Paulo e do país foi um pulo. Roubadas aquáticas eu já passei em todo o tipo de mar. Do maior ao minúsculo. Mas a cada dia que passava eu me especializava. Aprendia mais como a onda reage a alguma variável. E então passei a curtir mais o meu surfe. E claro que estando mais feliz, você procura fazer mais e mais. E é isso o que faço agora. Qualquer brecha é um motivo para viajar, levar a esposa (surfista também) e nossos filhos (as pranchas).

Peço licença que estou tendo uma nova oportunidade neste momento. Fico por aqui. O pessoal no carro já reclama da minha demora.

Henrique Chaves é MBA em marketing esportivo, diretor do Ibrasurf e faz de cada trip uma lição de vida e de surf.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O famoso efeito amnésia

O respeito é importante - Foto: Stephanie Sayuri
Por Bruno Ruy

Saudade. O surf deixou, deixa e deixará muitas saudades. É certo que novos tempos virão, só não é certo esquecer que ótimos tempos já se foram e que marcaram muito mais do que com fotos, lembranças ou pranchas quebradas.

Marcaram mentes, almas.
Marcaram contos inesquecíveis para os incansáveis contadores de histórias.
Marcaram vidas, sonhos e realizações.
Marcaram gerações. E gerações, e gerações...

Embora embutidos em uma série de coisas ditas "modernas" muitos destes ensinamentos fazem parte do dia-a-dia do surf nos dias de hoje. Ou você acha mesmo que fishes, quadriquilhas, surf em ondas mais do que gigantes, entre outras ideias surgiram agora? Não mesmo! Os caras estão com a cabeça no surf muito antes de muitos de nós sabermos que o mundo é mundo dentro do ventre de nossas mães. Entretanto, a questão mesmo não é saber quem inventou o que, quando e porquê. A questão é não deixar os nossos antepassados perderem seu valor, admiro-me com a falta de respeito de alguns pelos nossos clássicos e pioneiríssimos longboarders, ou pelo bodyboard e o mais "antiquado" dos estilos: o surf de peito. É incrível como a evolução do surf para shortboarders encaminhou-nos não só para evolução do esporte para uma maior rapidez e agilidade nas ondas, mas também para a triste realidade desse preconceito bobo. Quer saber? Quer saber mesmo? É maravilhoso o deslizar das ondas, deslizar tendo contato direto de corpo inteiro com o oceano então, pode até não poder ser classificado como melhor ou pior, gosto é relativo, porém, não deixa de ter uma pureza única, é se entregar literalmente de corpo e alma; bem como em todas as outras modalidades, que devem mais do que se respeitar, precisam se amar. Entender que todos são parte de uma mesma família.

Saudade do tempo que se foi, saudade de ondas perfeitas e limpas, saudade de praias livres de conflitos, livres de localismos - o planeta é da natureza e fazemos parte dela e não de uns poucos privilegiados que sentem-se donos dela - saudade dos longos discursos dos grandes mestres que sabem como ninguém o que é amar o oceano por uma vida inteira, saudade dos grandes "tocos" polinésios onde os nativos aprendem desde novos o que é brincar com o mar, saudade da pureza do sentimento, saudade da sinceridade nos olhos ao ver o oceano, saudade principalmente da valorização destes princípios, visto que no fim eles jamais foram apagados e sim, espero eu, temporariamente esquecidos num breve e passageiro efeito amnésia.

Bruno Ruy é estudante, apaixonado por surf e não admite a falta de respeito com os verdadeiros pioneiros e mestres das ondas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A responsabilidade social no surf

Por Henrique Chaves (Visionário do Surf)

Falar de surf não é fácil. Ainda mais quando queremos, e desejamos, que o nosso país construa e tenha, de fato, o seu primeiro campeão mundial da principal categoria do surf.

Já temos campeões no longboard, no bodyboard e na segunda divisão do surf mundial. As meninas estão quase lá, através da Silvana Lima. E nos homens, Adriano de Souza, o Mineirinho, é a nossa grande esperança. Neste momento que escrevo ele acaba de passar para as oitavas de finais da etapa californiana do Circuito Mundial da ASP. Joel Parkinson, líder do circuito, já deixou a competição. Tem em mãos uma boa oportunidade de se aproximar da ponta do ranking.

Mas nossas esperanças não poderiam ficar por aí. Para um país populoso como o Brasil, com mais de 180 milhões de habitantes, deveríamos ter, pelo menos, e medindo por baixo, 40 atletas em condições de correr o circuito mundial e lutar pelo título. A Austrália, como já citei em texto anterior, e com uma população extremamente inferior a brasileira, com aproximados 20 milhões de pessoas, desenvolve um trabalho fantástico no esporte. Mas não é de comparações que queremos viver.

O Brasil tem condições de sobra para compor um novo cenário no ranking mundial. Basta termos pessoas interessadas em levar o esporte para os extremos da tabela. Ou seja, levar o surf às pessoas de menor condição social e financeira. Vejo que nossos centros fecham-se em nichos organizados e antigos. Grupos que procuram estimular a modalidade entre eles próprios e não procuram abranger um mercado maior.

Claro que se preocupam no seu bem-estar. E não estão errados. Só que precisam sair da sua zona de conforto. Trabalharem a causa. Cansei de olhar grupos como estes, privando novatos e comunidades carentes do acesso ao surf e ao mesmo tempo inflarem discursos calorosos sobre o motivo da não fabricação do campeão mundial em terra brasilis.

A forma de não levar adiante uma informação já basta para atrasarmos ainda mais a evolução do surf brasileiro. A forma de não incentivar novatos e impossibilitados de contactarem o surf é mais um fator que pesa no desenvolvimento. Mas não é só isso.

A socialização, a inclusão, a oportunidade e o aprendizado são fatores essenciais para a formação do ser. E consequentemente para a formação dos seres que virão após este.

Com o tempo, isso trará benefícios a todos, sem distinção de credo, raça, religião ou qualquer outra forma de preconceito que delimite nossos horizontes.

E quanto a mim, enquanto trabalho para esse futuro melhor, neste momento resta-me torcer: Vai Mineirinho! Força Heitor!

Henrique Chaves é MBA em marketing esportivo, diretor do Ibrasurf e torce por um futuro melhor tanto dentro, quanto fora d’água.