quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Rifles é isso!

Por Cesar Calejon
Calejon se aventura pelas direitas - Foto: Arquivo pessoal

Lembra de um filme das antigas chamado Lost At Sea? Ele tem algumas sessões com Andy Irons, Cory Lopes e o time da marca na época em tubos muito fáceis, tipo 5 pés, perfeito e rodando por centenas de metros. Água azul e tubos de 10 segundos ou mais. Bom, o "muito fácil" foi como o filme me impactou na época, vendo os melhores profissionais do mundo quebrando aquelas ondas, porque Rifles é isso: uma bomba.

Localizada quase em frente ao Kandui Resort, nas Mentawai, esta direita roda muito forte sobre uma bancada rasa de reef. Vacar feio num dia acima de 6 pés representa quase certeza de bater no fundo, e se cortar. Após algumas quedas mais atiradas você provavelmente vai começar a procurar defesas, como roupa de borracha full suit, botinhas etc, mesmo com a água quente. Tem uma prancha no Kandui, autografada pelo Slater, na qual ele escreveu o seguinte: "Shred so bad you burn your stoke?", que quer dizer basicamente: "Será que você está tão cortado que começa a se questionar se vale a pena?". Rifles é isso, e a resposta é sim, claro, ainda que todo cortado, que vale a pena.

Uma única onda com mais de 4, 5 pés em Rifles pode pagar a sua viagem. Ela é totalmente perfeita, o que te oferece a chance de tentar drops atrasados e acertar aquele tubão, ou não! Além disso, ela se desloca por muitos e muitos metros, e o que é melhor: com uma intensidade e punch para ninguém botar defeito. Rifles é isso, essa onda que vai te fazer vender tudo que você possui e redirecionar a sua vida para o que realmente interessa: Surfar!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Santos surf-City

Santos tem estrutura, segurança e ondas - Foto: Divulgação
Por Bruno Ruy

PIONEIROS

A baía de Santos assistiu o primeiro surfista brasileiro levantar-se sobre uma prancha em 1934. Thomas Rittsher resolveu fabricar um daqueles estranhos barcos que descobriu na revista Popular Mechanics e imitar os sujeitos que viu nas fotos. E caminhou sobre as ondas. Bem, não foi assim tão fácil como ele mesmo publicou: "Sem a mínima orientação comecei a remar nas ondas com a ponta estreita da tábua voltada para frente. Percebi, entretanto, que ela tendia a afundar, inclinando-se para frente, o que obviamente impedia de correr toda a onda. Resolvi então inverter a posição da prancha e colocar a ponta arredondada para frente, foi aí que funcionou". Depois de descobrir o que era rabeta e bico e o prazer de "andar sobre as ondas" ajudou seu amigo João Roberto Haffes, a construir uma segunda prancha. Surgiu o primeiro crowd. Mais pranchas e novos praticantes apareceram na praia. Osmar Gonçalves era um deles. E assim o surf caminhou por ali, sobre as ondas, tranqüilo e quase despercebido até o começo dos anos 60.

ESCOLA DE PAI PRA FILHO

Existe uma razão quase antropológica para a cidade que abriga o maior porto do Brasil ser o que é. O surf surgiu na ilha como mais uma de suas atividades praianas. Cresceu como cultura local, conseqüência lógica de um ambiente propício aos esportes aquáticos. Remo, natação, jacaré, pranchinha de isopor e planondas já faziam parte do cardápio familiar daqueles oito quilômetros de praia divididos por seis canais que criam boas bancadas de areia. Ali tudo é propício. Caso seu pai não seja o primeiro a incentivá-lo a surfar, com certeza você acabará indo com um tio, primo ou alguém bem próximo.

O clima é quente no verão e agradável na maior parte do ano, assim como a temperatura do mar, já que as correntes frias de leste passam por fora da baía. Ondas amigáveis proporcionam pura diversão. A arrebentação não chega a ser complicada e facilita a vida de quem está começando. "Para quem quer aprender Santos é uma onda perfeita. Se o cara quiser ser surfista e não conseguir aprender aqui, pode desistir porque não vai aprender em nenhum outro lugar. Santos é uma escola", diz Picuruta Salazar, santista e ícone do surf no Brasil. Cisco Araña vai mais longe: "O surf cresce na cidade porque aqui você tem uma iniciação prazerosa, muita segurança e o exemplo de felicidade de tantos adeptos de todas as idades. É uma onda divertida, uma coisa familiar. Aqui é o berço do surf brasileiro. Dá pra sentir isso até na atitude das pessoas dentro d’água. Se você vier, não importa quem seja ou com que tipo estiver, acredite, não tem briga. O espírito de ALOHA está aqui".

GENÉTICA × PRECONCEITO

"É a maior concentração de surfistas do litoral paulista, com certeza. É incrível o número de pessoas que encontro na rua que já pegou onda e ta querendo voltar, até por não ser mais marginalizado, é inacreditável". Quando Picuruta diz que há muita gente ele não está brincando. Pardal já contou 790 pessoas no line up do Canal 5 até o Canal 1: "Os havaianos nos ensinaram isso. Quando as ondas aparecem todo mundo pára de fazer o que está fazendo e vai pro mar. Esse é o espírito. Está logo ali. Quando dá onda você vê que a cidade fica mais feliz".

A praia é o quintal, o clube e a academia da cidade. Tudo é perto e plano. Sete quilômetros. Essa é a maior distância do mar. Você chega à praia em não muito mais que meia hora, seja lá de onde for que você venha com sua bike, veículo amplamente utilizado. A movimentação é surpreendente em dias de onda. O gerente do banco surfa na hora do almoço, o estudante matutino cai de tarde. Empresários mudam suas reuniões para aproveitar o terral... Hoje em dia não há preconceitos com essas atitudes como atestou Picuruta: "Estava conversando com um senhor de 70 anos que está fazendo aulas com o Cisco. Ele me dizia: ‘Quem diria que hoje estaria aprendendo a pegar onda? No passado falava para os meus netos não irem surfar porque era coisa de vagabundo. Eu mesmo cuspi no prato que estou comendo’. É bacana constatar que criamos um lance que pode ajudar as pessoas hoje a viverem algo bom para o espírito e saúde delas". Realmente as coisas mudaram desde o começo dos anos 70 como lembra o Cisco: "Na época a prática do surf não era permitida. Inclusive era aqui mesmo no Posto 2, que as pranchas ficavam presas ou eram quebradas. Hoje a Escolinha Radical está aqui, uma escola pública de surf. Independente do profissionalismo e competições, aqui surgiram os surfistas que mostraram que o caminho podia ser diferente. A informação no nosso gene e o reflexo que está aí é de que o surf faz bem pra vida da gente, pra nossa cabeça, para o corpo, para fazer amigos... nem sempre a competição traz isso. Existem pessoas que começam e nem sabem que são tão talentosas assim, mas sorriem como a gente. O caminho do surf santista é exatamente esse. Tudo está no mesmo nível... o cara ali é competidor, mas eu também surfo e está tudo certo".

OUTROS PALANQUES

É isso. Em Santos o surf é visto além de uma disputa pelas ondas. Picuruta até se queixa disso: "Fico até meio chateado com esse lance. Tanta gente pega onda na cidade e não aparecem mais competidores. Depois da nossa geração não conseguimos revelar muitos talentos. Apareceram Renato Wanderley, Piu (únicos a chegarem ao WCT), Jairzinho, Andrew Serrano, Sininho, mas sempre poucos. Não há realmente uma nova geração representando Santos fora daqui. O surf é mais lazer que competição. E nos perguntamos, eu e Almir: Será que erramos em algum ponto? Faltou alguma coisa na fórmula? Conseguimos fazer muita gente surfar, mas não conseguimos formar campeões!". Verdade, a cidade produziu grandes competidores e campeões estaduais, Cisco foi destaque nos anos 70 e 80. O primeiro paulista a quebrar a hegemonia carioca no "Festival Brasileiro" em Ubatuba foi Paulo Rabelo, seguido por Picuruta, na segunda colocação. Na época isso foi muito importante para deflagrar a expansão do esporte na Baixada Santista. Mas Pardal tem uma teoria quanto à falta de mais competidores hoje: "Aqui existem muito mais oportunidades além do surf, ou não é tão importante economicamente para tantos meninos. Não que Santos seja melhor que outros lugares, mas fora daqui existem garotos que dependem exclusivamente disso para contribuir com a renda familiar. Santos é diferente. Temos mais faculdades, uma economia melhor e toda história da cidade, desde a independência, faz com que Santos tenha muitas lideranças. Temos gente, formada em nossas bases, atuando em todos os setores do surf. Todos esperam que façamos novos campeões, mas acho que com tantos setores funcionando, na cultura, organização esportiva... essa sinergia em prol de algo maior irá somar de forma diferente, levando o surf a outro patamar".

GEOGRAFIA DA BAIXA VELOCIDADE

Esqueça água verde. Não, não é sujeira. A cidade foi construída numa ilha com características de manguezal, por isso a areia é escura, assim como as ondas. A baía fechada bloqueia a entrada de ondas grandes. A ondulação de sul é recebida desde a barra (onde os navios ficam atracados) por um raso fundo de areia compacta, fazendo com que se arraste, perdendo velocidade e força até chegar à praia. Mas do Canal 6, onde a praia termina e forma-se o canal de entrada dos navios ao porto, até o Quebra-Mar, divisa com São Vicente, temos uns 50 picos. "Com um bom swell de sul e vento nordeste você pode achar ondas maravilhosas só pra você. São ondas que podem ser até tubulares no Canal 3, 4, 5... Canal 6, por exemplo, é perfeito!", conta Cisco ainda empolgado com as ondas que forjaram seu estilo.

Esse "estilo" é outro ponto peculiar do surf santista. Questões econômicas e culturais transformaram a maneira de surfar e forjaram pranchas diferentes das que se usava normalmente no mundo e no Rio dos anos 70. Isso definiu a maneira dos filhos dessa ilha expressarem-se nas ondas, atacando-as com um jeito mais "australiano". Lequinho, irmão mais velho de Picuruta, inventava trocas de base no meio de batidas enquanto o maior colecionador de troféus do país vencia os primeiros eventos dos anos 70 apresentando "cavalos de pau" e outras manobras que só eram possíveis sobre aquelas pranchas, menores, mais finas e adaptadas para a diversão e criatividade nas lentas ondas de Santos. "Ondas muito manobráveis, a diferença no surf e nas pranchas é por causa disso. Temos essa característica muito mais australiana. Os cariocas tinham um lance mais havaiano por conta da extensão menor das ondas e seus tubos. Daniel, Ptizalis... só o Cauli, depois dos anos 80, mudou isso... Santos tem esse estilo mais agressivo. O Mudinho já dizia que essa onda com um metro ou um e meio possibilitaria uma quantidade de manobras incríveis, permitindo o desenvolvimento daqueles cutbacks famosos e tantas manobras expressivas. Tivemos grandes mestres, fui da primeira equipe do Homero e queríamos mostrar nosso surf pro resto do país e íamos com as inovações do Homero e hoje até eu contribuo com a prancha adaptada para deficientes visuais. Não tínhamos onde expressar nossas manobras e por isso gostávamos de ir aos campeonatos. Os santistas sempre gostaram de desenvolver as coisas".

DESENVOLVIMENTO

O esporte se desenvolveu em Santos numa época em que a informação era difícil, especialmente para a maioria daquela galera que muito embora vivesse ao lado do Porto, porta de entrada de tudo que vinha de fora rumo à capital, não tinham muita grana. Não havia revistas especializadas, a não ser que você fosse até o aeroporto de Congonhas (SP) para comprar uma Surfing ou Surfer e a maioria nem lia inglês. Cisco e Picuruta foram alguns dos surfistas mais conhecidos a viajarem para fora primeiro e isso já foi quase nos anos 80. A Internet ainda não existia e a única referência a ser vista na TV eram aquelas bobagens estereotipadas de Hollywood tipo: "Alegrias de Verão", "Folias na Praia" ou o clássico "Mar Raivoso". O "Endless Summer" começou a ser reproduzido no Cine Indáia, em 67 e tenho certeza de que aquelas tardes de cinema influenciaram muita gente. Aliás, Santos foi a primeira cidade a exibir o filme no Brasil graças ao Toninho Campos, dono dos cinemas, que já surfava e surfa até hoje.

O fato é que já pelos anos 70 havia um certo número de praticantes que começaram na década de 60 e já existia gente fabricando pranchas a partir do que imaginavam ser esse objetivo. Homero foi um dos pioneiros e acabou por revolucionar a industrialização e o conceito de design. Kareca começou em 69 e continua na ativa. Avelino Bastos seguiu a linhagem e inova até hoje assim como tantos outros profissionais da plaina que produzem na Baixada. As pranchas e o próprio surf desenvolveram-se de forma distinta que em outros lugares como Guarujá ou Rio. Sem muitas referências, o negócio foi produzir aquilo que servia para as ondas santistas. Isso fez com que as pranchas fossem diferentes assim como o surf "radical" que começava a surgir na orla de Santos.

Pranchas finas porque vinham de outras descascadas. Há que acelerar para mandar manobras. Existe espaço e tempo pra manobrar muito e desenvolver a criatividade. Isso tudo misturado fez a diferença.

NEW OLD SCHOOL

Essa diferença pode ser constatada pelo perfil dos santistas que hoje aparecem nas revistas especializadas. Daniel Cortez, Rodrigo "Sininho", Gringo, Rodrigo "Baby", Cassio Sanches e tantos outros levam o nome da cidade adiante de forma irreverente. Freesurfers ou competidores de eventos onde o que conta é a ousadia. Aéreos, tricks e competições de uma nova geração de profissionais. WQS, CT? Talvez um dia. O que importa para os santistas é continuar no mar. O que vale é a energia e o orgulho que surge por criarem o Museu do Surf, Santos Surf Festival, Campeonato Pioneiros, Unipran (Universidade da prancha) e tantos outros eventos e ações que desvendam o espírito da cidade.

Uma das marcas nascidas ali promove o Natural Art Pro-Am de Surf com período de espera, organizado pela Associação Santos de Surf e com apoio da Prefeitura. Santos tem ondas, basta esperar. Quem é de lá sabe disso, não tem pressa, vive ali, de frente para o mar. A cidade entende isso de tal forma que os estudantes são liberados das aulas para competirem no meio da semana, se preciso for. A própria Secretaria de Educação entende o evento como promoção da cultura local. É Surf City ou não?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Era digital invade o outside

Por Bruno Ruy

A era digital, um dos braços da era da informação, é imprevisível. Em 2004, uma empresa situada no norte da Califórnia se lançou no mercado com uma linha de pequenas câmeras, no estilo "faça você mesmo", voltada para alguns esportes radicais específicos. Com o sugestivo nome de GoPro, os caras começaram a produzir equipamentos que podiam ser acoplados aos carros de corrida, capacetes de moto e, o mais relevante para nós, pranchas de surfe.

Voltando um pouco no tempo, as câmeras são conseqüência do crescimento desenfreado do mercado digital, principalmente sua vertente para amadores. Os grandes fabricantes investiram maciçamente em câmeras fotográficas e filmadoras totalmente voltadas para a maior fatia do mercado, a do consumidor amador. Graças à tecnologia digital tudo se tornava mais viável e simples, desde o clique a impressão. Esse tipo de produção ganhou espaço e se desenvolveu rapidamente, até tornar-se acessório obrigatório do homem do século XXI. Fatos esses que, em pouco tempo, se tornaram uma dor de cabeça para os profissionais da área de mídia. No caso do surfe quem mais sofria eram fotógrafos e vídeomakers, vendo a linha que divide o profissionalismo e o amadorismo cada vez mais tênue. Muitos conservadores se recusaram por bastante tempo a usar equipamentos digitais alegando a falta de qualidade, se comparado à película. Mas, salvando-se casos muito específicos, isso é puro papo. O digital vinha engolindo tudo e todos que não o acompanhavam. Porém, em 2004, quando a câmeras de reduzida dimensão, resistente ao impacto e à prova de água, foi lançada como grande revolução para surfistas amadores, poucos deram bola e nem de longe era uma ameaça à fotógrafos e vídeomakers, graças a um simples fato: ninguém usava a tal câmera. O produto era visto como tão amador que chegava a ser de "prego", o bom surfista arrumava alguém que fizesse suas imagens, nem que fosse com aquela câmera digital mais vagabunda que vendia através de um 0800.

De volta a 2009, fica a pergunta: o que mudou nessas câmeras para se tornarem a febre, entre surfistas amadores e profissionais, que são atualmente? Entre muitas respostas, uma se sobressai: a publicidade. A empresa, no ano passado, investiu forte em atletas capacitados que divulgaram imagens produzidas pela câmera em ondas de respeito. Todos viam com os próprios olhos o potencial do produto.

Outra grande propaganda foi feita de tabela por caras como Brian Conley e Timmy Turner, nos filmes "My Eyes Wont Dry" e "Second Thoughts". Apesar de usarem um equipamento muito mais sofisticado do que a da empresa da Califórnia, a "tube vision" é praticamente a mesma. Assim, a "xeretinha", que já foi tirada de "prega", deu a volta por cima e é considerada atualmente inimiga nº1 dos que vivem de produzir imagens de terceiros, também conhecidos como fotógrafos ou vídeomakers. Mas também se tomou uma das melhores amigas dos surfistas, afinal eles dividem a mesma onda sem reclamações.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Diversão de alma

Rasta se diverte - Foto: Hilton Dawe / transworld
Por Bruno Ruy

Apesar do senso poético que norteia minha vida, sempre questiono qual a melhor definição pra surf de alma. E pra outra pérola do nosso esporte: "o verdadeiro espírito do surf". E nesse caso, como seria o "falso espírito do surf" ou o "surf sem alma". Essas definições são tão concretas quanto o meio onde se desenvolve o surf. Tudo é extremamente relativo.

Pra quem desce 50 pés de onda, o verdadeiro espírito do surf está na possibilidade de "chamar a natureza pro pau" e dar conta do recado, mesmo que pra isso seja necessário um amigo de jet ski na retaguarda. Ai, vem alguém que faz isso na remada e diz: "o verdadeiro espírito do surf é encarar isso no braço, porque a máquina mata a essência do surf". Percebe?

Sonhar com a primeira vez no Hawaii incorpora o verdadeiro espírito do surf. Chegar lá e ficar no inside de Pipe, seria surf sem alma? Quem perde a balada, despista a namorada, tudo, só pra poder surfar, tem mais alma de surfista do que o maluco que transou a noite inteira, bebeu todas, riu muito e só consegue pegar as sobras mexidas no final de tarde?

Campeonatos à parte, por que alguém surfa? Prazer? Só isso? Ou a platéia importa? Os reis havaianos surfavam tranqüilos em praias reservadas pra eles. Aos súditos cabia fazer o coro de uhuuu!!! a cada boa manobra realizada e se contentar com os piores picos e pranchas. Hoje, todo mundo tem um toco que bóia e a democratização do esporte terminou em crowd, que por sua vez, gera a competitividade. A realeza, nesse caso, é conseguida pelo fato de você ser local do pico ou surfar muito mais do que os outros. O homem é competitivo por natureza, desde a pré-história. E esse jogo do "sou mais forte pra proteger minha caverna", inevitavelmente invade o campo do lazer, mesmo quando esse é aquático como o nosso.

Acho o máximo quando vejo alguém que surfa mal e ao sair da água relata com detalhes incríveis uma merreca que nem parede tinha e faz com que pareça que surfou Mavericks. Tem gente que nunca entubou, mas sai da água dizendo: viu meu tubo? Ai eu penso: bom, se ele acha que entubou, ou que a onda tinha um tamanho 5 vezes maior do que o real, então esse cara é muuuuito feliz. Porque o surf tem que ser pra você, pra mais ninguém. Se depois de um dia de surf você for dormir se achando o máximo, quem tem o direito de dizer o contrário?

Se eu tivesse que definir mesmo o surf de alma, diria que é a sensação da primeira onda surfada que se carrega pela vida afora, como se fosse um vírus para o qual não acharam a cura. A eterna dependência da água salgada e a fissura de poder deslizar em ondas que nunca se repetem. Um desvirginar eterno que concede um poder especial ao homem.

Conheço muita gente que vendeu a alma pro diabo pra poder surfar. Aí não resta alternativa a não ser botar pra baixo. Mesmo desalmado.