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| Santos tem estrutura, segurança e ondas - Foto: Divulgação |
Por Bruno Ruy
PIONEIROS
A baía de Santos assistiu o primeiro surfista brasileiro levantar-se sobre uma prancha em 1934. Thomas Rittsher resolveu fabricar um daqueles estranhos barcos que descobriu na revista Popular Mechanics e imitar os sujeitos que viu nas fotos. E caminhou sobre as ondas. Bem, não foi assim tão fácil como ele mesmo publicou: "Sem a mínima orientação comecei a remar nas ondas com a ponta estreita da tábua voltada para frente. Percebi, entretanto, que ela tendia a afundar, inclinando-se para frente, o que obviamente impedia de correr toda a onda. Resolvi então inverter a posição da prancha e colocar a ponta arredondada para frente, foi aí que funcionou". Depois de descobrir o que era rabeta e bico e o prazer de "andar sobre as ondas" ajudou seu amigo João Roberto Haffes, a construir uma segunda prancha. Surgiu o primeiro crowd. Mais pranchas e novos praticantes apareceram na praia. Osmar Gonçalves era um deles. E assim o surf caminhou por ali, sobre as ondas, tranqüilo e quase despercebido até o começo dos anos 60.
ESCOLA DE PAI PRA FILHO
Existe uma razão quase antropológica para a cidade que abriga o maior porto do Brasil ser o que é. O surf surgiu na ilha como mais uma de suas atividades praianas. Cresceu como cultura local, conseqüência lógica de um ambiente propício aos esportes aquáticos. Remo, natação, jacaré, pranchinha de isopor e planondas já faziam parte do cardápio familiar daqueles oito quilômetros de praia divididos por seis canais que criam boas bancadas de areia. Ali tudo é propício. Caso seu pai não seja o primeiro a incentivá-lo a surfar, com certeza você acabará indo com um tio, primo ou alguém bem próximo.
O clima é quente no verão e agradável na maior parte do ano, assim como a temperatura do mar, já que as correntes frias de leste passam por fora da baía. Ondas amigáveis proporcionam pura diversão. A arrebentação não chega a ser complicada e facilita a vida de quem está começando. "Para quem quer aprender Santos é uma onda perfeita. Se o cara quiser ser surfista e não conseguir aprender aqui, pode desistir porque não vai aprender em nenhum outro lugar. Santos é uma escola", diz Picuruta Salazar, santista e ícone do surf no Brasil. Cisco Araña vai mais longe: "O surf cresce na cidade porque aqui você tem uma iniciação prazerosa, muita segurança e o exemplo de felicidade de tantos adeptos de todas as idades. É uma onda divertida, uma coisa familiar. Aqui é o berço do surf brasileiro. Dá pra sentir isso até na atitude das pessoas dentro d’água. Se você vier, não importa quem seja ou com que tipo estiver, acredite, não tem briga. O espírito de ALOHA está aqui".
GENÉTICA × PRECONCEITO
"É a maior concentração de surfistas do litoral paulista, com certeza. É incrível o número de pessoas que encontro na rua que já pegou onda e ta querendo voltar, até por não ser mais marginalizado, é inacreditável". Quando Picuruta diz que há muita gente ele não está brincando. Pardal já contou 790 pessoas no line up do Canal 5 até o Canal 1: "Os havaianos nos ensinaram isso. Quando as ondas aparecem todo mundo pára de fazer o que está fazendo e vai pro mar. Esse é o espírito. Está logo ali. Quando dá onda você vê que a cidade fica mais feliz".
A praia é o quintal, o clube e a academia da cidade. Tudo é perto e plano. Sete quilômetros. Essa é a maior distância do mar. Você chega à praia em não muito mais que meia hora, seja lá de onde for que você venha com sua bike, veículo amplamente utilizado. A movimentação é surpreendente em dias de onda. O gerente do banco surfa na hora do almoço, o estudante matutino cai de tarde. Empresários mudam suas reuniões para aproveitar o terral... Hoje em dia não há preconceitos com essas atitudes como atestou Picuruta: "Estava conversando com um senhor de 70 anos que está fazendo aulas com o Cisco. Ele me dizia: ‘Quem diria que hoje estaria aprendendo a pegar onda? No passado falava para os meus netos não irem surfar porque era coisa de vagabundo. Eu mesmo cuspi no prato que estou comendo’. É bacana constatar que criamos um lance que pode ajudar as pessoas hoje a viverem algo bom para o espírito e saúde delas". Realmente as coisas mudaram desde o começo dos anos 70 como lembra o Cisco: "Na época a prática do surf não era permitida. Inclusive era aqui mesmo no Posto 2, que as pranchas ficavam presas ou eram quebradas. Hoje a Escolinha Radical está aqui, uma escola pública de surf. Independente do profissionalismo e competições, aqui surgiram os surfistas que mostraram que o caminho podia ser diferente. A informação no nosso gene e o reflexo que está aí é de que o surf faz bem pra vida da gente, pra nossa cabeça, para o corpo, para fazer amigos... nem sempre a competição traz isso. Existem pessoas que começam e nem sabem que são tão talentosas assim, mas sorriem como a gente. O caminho do surf santista é exatamente esse. Tudo está no mesmo nível... o cara ali é competidor, mas eu também surfo e está tudo certo".
OUTROS PALANQUES
É isso. Em Santos o surf é visto além de uma disputa pelas ondas. Picuruta até se queixa disso: "Fico até meio chateado com esse lance. Tanta gente pega onda na cidade e não aparecem mais competidores. Depois da nossa geração não conseguimos revelar muitos talentos. Apareceram Renato Wanderley, Piu (únicos a chegarem ao WCT), Jairzinho, Andrew Serrano, Sininho, mas sempre poucos. Não há realmente uma nova geração representando Santos fora daqui. O surf é mais lazer que competição. E nos perguntamos, eu e Almir: Será que erramos em algum ponto? Faltou alguma coisa na fórmula? Conseguimos fazer muita gente surfar, mas não conseguimos formar campeões!". Verdade, a cidade produziu grandes competidores e campeões estaduais, Cisco foi destaque nos anos 70 e 80. O primeiro paulista a quebrar a hegemonia carioca no "Festival Brasileiro" em Ubatuba foi Paulo Rabelo, seguido por Picuruta, na segunda colocação. Na época isso foi muito importante para deflagrar a expansão do esporte na Baixada Santista. Mas Pardal tem uma teoria quanto à falta de mais competidores hoje: "Aqui existem muito mais oportunidades além do surf, ou não é tão importante economicamente para tantos meninos. Não que Santos seja melhor que outros lugares, mas fora daqui existem garotos que dependem exclusivamente disso para contribuir com a renda familiar. Santos é diferente. Temos mais faculdades, uma economia melhor e toda história da cidade, desde a independência, faz com que Santos tenha muitas lideranças. Temos gente, formada em nossas bases, atuando em todos os setores do surf. Todos esperam que façamos novos campeões, mas acho que com tantos setores funcionando, na cultura, organização esportiva... essa sinergia em prol de algo maior irá somar de forma diferente, levando o surf a outro patamar".
GEOGRAFIA DA BAIXA VELOCIDADE
Esqueça água verde. Não, não é sujeira. A cidade foi construída numa ilha com características de manguezal, por isso a areia é escura, assim como as ondas. A baía fechada bloqueia a entrada de ondas grandes. A ondulação de sul é recebida desde a barra (onde os navios ficam atracados) por um raso fundo de areia compacta, fazendo com que se arraste, perdendo velocidade e força até chegar à praia. Mas do Canal 6, onde a praia termina e forma-se o canal de entrada dos navios ao porto, até o Quebra-Mar, divisa com São Vicente, temos uns 50 picos. "Com um bom swell de sul e vento nordeste você pode achar ondas maravilhosas só pra você. São ondas que podem ser até tubulares no Canal 3, 4, 5... Canal 6, por exemplo, é perfeito!", conta Cisco ainda empolgado com as ondas que forjaram seu estilo.
Esse "estilo" é outro ponto peculiar do surf santista. Questões econômicas e culturais transformaram a maneira de surfar e forjaram pranchas diferentes das que se usava normalmente no mundo e no Rio dos anos 70. Isso definiu a maneira dos filhos dessa ilha expressarem-se nas ondas, atacando-as com um jeito mais "australiano". Lequinho, irmão mais velho de Picuruta, inventava trocas de base no meio de batidas enquanto o maior colecionador de troféus do país vencia os primeiros eventos dos anos 70 apresentando "cavalos de pau" e outras manobras que só eram possíveis sobre aquelas pranchas, menores, mais finas e adaptadas para a diversão e criatividade nas lentas ondas de Santos. "Ondas muito manobráveis, a diferença no surf e nas pranchas é por causa disso. Temos essa característica muito mais australiana. Os cariocas tinham um lance mais havaiano por conta da extensão menor das ondas e seus tubos. Daniel, Ptizalis... só o Cauli, depois dos anos 80, mudou isso... Santos tem esse estilo mais agressivo. O Mudinho já dizia que essa onda com um metro ou um e meio possibilitaria uma quantidade de manobras incríveis, permitindo o desenvolvimento daqueles cutbacks famosos e tantas manobras expressivas. Tivemos grandes mestres, fui da primeira equipe do Homero e queríamos mostrar nosso surf pro resto do país e íamos com as inovações do Homero e hoje até eu contribuo com a prancha adaptada para deficientes visuais. Não tínhamos onde expressar nossas manobras e por isso gostávamos de ir aos campeonatos. Os santistas sempre gostaram de desenvolver as coisas".
DESENVOLVIMENTO
O esporte se desenvolveu em Santos numa época em que a informação era difícil, especialmente para a maioria daquela galera que muito embora vivesse ao lado do Porto, porta de entrada de tudo que vinha de fora rumo à capital, não tinham muita grana. Não havia revistas especializadas, a não ser que você fosse até o aeroporto de Congonhas (SP) para comprar uma Surfing ou Surfer e a maioria nem lia inglês. Cisco e Picuruta foram alguns dos surfistas mais conhecidos a viajarem para fora primeiro e isso já foi quase nos anos 80. A Internet ainda não existia e a única referência a ser vista na TV eram aquelas bobagens estereotipadas de Hollywood tipo: "Alegrias de Verão", "Folias na Praia" ou o clássico "Mar Raivoso". O "Endless Summer" começou a ser reproduzido no Cine Indáia, em 67 e tenho certeza de que aquelas tardes de cinema influenciaram muita gente. Aliás, Santos foi a primeira cidade a exibir o filme no Brasil graças ao Toninho Campos, dono dos cinemas, que já surfava e surfa até hoje.
O fato é que já pelos anos 70 havia um certo número de praticantes que começaram na década de 60 e já existia gente fabricando pranchas a partir do que imaginavam ser esse objetivo. Homero foi um dos pioneiros e acabou por revolucionar a industrialização e o conceito de design. Kareca começou em 69 e continua na ativa. Avelino Bastos seguiu a linhagem e inova até hoje assim como tantos outros profissionais da plaina que produzem na Baixada. As pranchas e o próprio surf desenvolveram-se de forma distinta que em outros lugares como Guarujá ou Rio. Sem muitas referências, o negócio foi produzir aquilo que servia para as ondas santistas. Isso fez com que as pranchas fossem diferentes assim como o surf "radical" que começava a surgir na orla de Santos.
Pranchas finas porque vinham de outras descascadas. Há que acelerar para mandar manobras. Existe espaço e tempo pra manobrar muito e desenvolver a criatividade. Isso tudo misturado fez a diferença.
NEW OLD SCHOOL
Essa diferença pode ser constatada pelo perfil dos santistas que hoje aparecem nas revistas especializadas. Daniel Cortez, Rodrigo "Sininho", Gringo, Rodrigo "Baby", Cassio Sanches e tantos outros levam o nome da cidade adiante de forma irreverente. Freesurfers ou competidores de eventos onde o que conta é a ousadia. Aéreos, tricks e competições de uma nova geração de profissionais. WQS, CT? Talvez um dia. O que importa para os santistas é continuar no mar. O que vale é a energia e o orgulho que surge por criarem o Museu do Surf, Santos Surf Festival, Campeonato Pioneiros, Unipran (Universidade da prancha) e tantos outros eventos e ações que desvendam o espírito da cidade.
Uma das marcas nascidas ali promove o Natural Art Pro-Am de Surf com período de espera, organizado pela Associação Santos de Surf e com apoio da Prefeitura. Santos tem ondas, basta esperar. Quem é de lá sabe disso, não tem pressa, vive ali, de frente para o mar. A cidade entende isso de tal forma que os estudantes são liberados das aulas para competirem no meio da semana, se preciso for. A própria Secretaria de Educação entende o evento como promoção da cultura local. É Surf City ou não?

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