sexta-feira, 9 de julho de 2010

A perfeição de J-Bay só pode ser coisa divina

Em 2008, Kely Slater venceu em J-Bay - Foto: Arquivo ASP
Por Bruno Ruy

Por mais incrédulo que você seja, fica difícil duvidar da intervenção divina em Jeffrey's Bay, no sul da África do Sul, quando o swell começa a entrar alinhado na baía. Com os seus tubos milimetricamente impecáveis e as longas paredes manobráveis, J-Bay é a materialização do sonho da onda perfeita. "Jeffrey's é a jóia gelada do hemisfério sul e indiscutivelmente o point de melhor forma do mundo", disse Wayne Bartholomew, campeão mundial em 1978. A temperatura baixíssima da água e os fortes ventos obrigam os surfistas a usarem roupa de borracha espessa e que cubra o corpo todo.

A onda de Jeffrey's Bay pode ser dividida basicamente em cinco seções distintas: Boneyards, Supertubes, Impossibles, Tubes e The Point. Boneyards é a mais outside e difícil de quebrar. Depois vêm Supertubes e Impossibles, que com os seus tubos mágicos, longos e velozes são as mais clássicas e responsáveis direitas pela idolatria em torno de J-Bay. Para encerrar, duas seções menos intensas, mas não menos perfeitas, Tubes e The Point são normalmente tomadas por longboarders e iniciantes.

Em dias raríssimos, pode-se surfar da Boneyards à The Point em uma única onda. O surfista agraciado com tamanha dádiva percorre mais de um quilômetro e fica até dois minutos em cima da sua prancha. Em 1984, Picuruta Salazar, um dos maiores campeões da história do surfe brasileiro, realizou a proeza em ondas de 6 a 8 pés. Para registrar o feito, depois de passar por todas as seções, Picuruta saiu da água e desenhou um P gigante na areia.

AS PERFORMANCES ÉPICAS

As condições únicas de Jeffrey's formam o palco ideal para performances épicas dos surfistas de vanguarda através dos tempos. Na década de 70, o australiano Terry Fitzgerald e o sul-africano Shaun Tomsom, campeão mundial de 1977, foram os primeiros a dominar por inteiro a onda e mostraram ao mundo como andar rápido e dentro dos canudos no pico.

Nos anos 80, o australiano Mark Occhilupo, que viria a ser campeão mundial em 1999, provou com o seu backside attack que era possível surfar as direitas de J-Bay de costas para a parede tão bem quanto de frente. Mais recentemente, o americano Kelly Slater redefiniu os limites do lugar ao completar manobras para lá de radicais em pontos críticos da onda e ficar entocado mais fundo do que qualquer outro jamais conseguira.

SURFANDO COM O INIMIGO

Nem tudo são ondas no paraíso. O astral em J-Bay mistura os ventos terrais gelados, as roupas de borracha, as patrulhas de madrugada, as longas remadas e... o medo dos tubarões-brancos. Uma vez dentro da água, a sensação de estar sendo observado, ou até mesmo escolhido, é constante. Em 1998, após 12 anos sem nenhum registro, seis ataques aconteceram em um raio de 100 km ─ um deles, fatal. Os golfinhos também são locais do pico e costumam aparecer às dezenas, quando não às centenas, para dividir as ondas com os surfistas.

POR QUE JEFFREY'S BAY?

A cidade da onda mais famosa da África do Sul foi batizada com o nome do caçador de baleias J. A. Jeffrey, que em 1848 fundou o primeiro hotel do então pacato vilarejo. O antigo povoado de pescadores se transformou em uma bela e organizada cidade de veraneio, com freqüentadores de alto padrão e mansões imponentes de frente para a praia. Há algumas versões diferentes sobre quem foi o primeiro surfista a desbravar as ondas de J-Bay. A mais difundida é a de que na Páscoa de 1964, meia dúzia de surfistas da Cidade do Cabo tentaram pegar algumas ondas em Supertubes. Foram surpreendidos pela rapidez das ondas e acabaram surfando The Point. Supertubes só seria conquistada alguns anos mais tarde.

Bruno Ruy é estudante, apaixonado por surf e acredita que paraísos como J-Bay precisam ser preservados.

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