terça-feira, 30 de março de 2010

Serial trip de inverno

Ondas e clima de inverno fazem a cabeça - Foto: Cortesia Quiksilver
Por MichelSP

6:00 da manhã o despertador toca. O barulho da leve chuva batendo na janela do quarto e o frio da noite que se estende pela manhã, junto com o corpo cansado de uma semana inteira de trabalho, torna mais difícil a missão de abandonar a cama.

Desligado o alarme, o interfone é que acaba com o silêncio da manhã cinza e fria em um apartamento vazio. A pressa me consome. Ainda desorientado pelo sono, escuto o celular tocar. Não o atendo e continuo preparando minha bagagem. Coisas simples, porém essenciais.

Deixo o ambiente tranqüilo do apartamento e entro no elevador. Pelo hall do prédio o frio aumenta. Com um irônico sorriso de canto da boca, o porteiro questiona minha bagagem. "É um defunto que você carrega?". O comentário só alimenta meu mau humor. Mas continuo meu caminho.

Com um agasalho e um capuz me protejo do frio e da chuva, enquanto coloco o "corpo" coberto que carrego dentro do porta malas de um carro que bem poderia ser de uma agência funerária.

Ninguém na rua e poucos carros passam sem pressa, observando, com olhar de testemunhas, o que duas pessoas faziam naquela hora.

Um café puro na padaria da esquina ajudava a espantar o sono e aquecer meu corpo. Poucas palavras. Ambiente vazio. Céu escuro e chuva fina. Sigo meu destino.

Dentro do carro conversa em tom baixo, clima, pode-se dizer, amistoso. Limpador de pára-brisa no máximo. Aceleração intensa só do coração. Assim, sigo em frente.

Longa estrada, descidas e curvas consomem a atenção. Policia na área. Velocidade controlada.

O som psicodélico do Pink Floyd é a trilha sonora. O caminho é longo, mas tem fim e, quanto mais próximo, maior a ansiedade.

A chuva dá uma trégua, o destino se aproxima. Está chegando a hora. O responsável pela direção encosta o carro.

Pronto. Chegou a hora! Local vazio depõe a favor. Tiro certeiro. Os "corpos" são retirados do carro. Ninguém por perto.

Aceleramos os passos. Eufóricos e desconfiados, a roupa justa e grossa dificulta os movimentos, mas não nos segura. O frio neste momento é só na barriga.

Os pés congelam por segundos. Corpos sobre "corpos" se aquecem em movimento. Aos poucos a situação entra no trilho.

Tudo acontecendo de acordo com o programado. Mas nunca pode se descuidar. Em fração de segundos tudo vai por água abaixo. O entrelaçamento hostil entre os corpos provoca o fim. Ironia do destino. Nem sempre o fim é totalmente triste. Os momentos bons na memória fazem a cabeça.

De volta a selva de pedras com céu claro e leve vento frio, retorno ao apartamento. Em tom de brincadeira com um sorriso largo, pode-se dizer, mostro uma prancha dividida em duas partes ao porteiro "Mãe Diná" e respondo a então pergunta feita pela manhã: "Agora sim!"

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