Por Marilia Fakih
Outubro de 2002. O catarinense Neco Padaratz levanta o caneco em Hossegor, na etapa francesa do WCT. A galera brazuca vai ao delírio e o tão sonhado título mundial parece estar mais perto de nossas mãos.
Maio de 2008. Quase seis anos depois, o carioca Bruno Santos quebra o jejum brasileiro de vitórias no mundial ao vencer a etapa mais temida do circuito, em Teahupoo. Foi um longo jejum. Desde que o catarinense subiu ao topo do pódio na França, nossos melhores resultados no WCT foram um terceiro lugar de Danilo Costa em Teahupoo, em 2003; Dois terceiros lugares de Renan Rocha e Tânio Barreto, na Praia da Vila, em 2004; um vice-campeonato de Victor Ribas em Imbituba em 2005; e um terceiro lugar de Adriano de Souza na Austrália em 2006.
Durante todo esse jejum, os atletas, empresários, entidades responsáveis e a mídia especializada tentaram diversas vezes encontrar o motivo da falta de vitórias. Alguns afirmam que os brazucas que compõem atualmente a elite mundial são acomodados, bastando a eles estar no WCT.
Já os surfistas se defendem e dizem que vontade não falta. A culpa cai nos juízes da ASP, que julgam mal os brasileiros e não dão as notas merecidas nas baterias.
Para outros, o WCT é muito caro e as etapas acontecem em picos paradisíacos, com custo elevado. Isso dificulta a vida dos nossos atletas, que não têm dinheiro para chegar antes ao lugar e treinar para as competições.
Há quem diga ainda que o que afastou os brasileiros do pódio é a falta de boas ondas por aqui. O tour é todo baseado em ondas pesadas e tubulares, na maioria das vezes em pointbreaks, raros no Brasil. Como não temos tantos picos com ondas deste naipe, fica difícil para os nossos surfistas treinar na terra natal.
Por último, mas não menos importante, está a falta de preparo psicológico dos caras. Não é só surf no pé que um surfista precisa ter para se tornar campeão do WCT. É preciso ter a cabeça no lugar, manter a calma antes das baterias e saber lidar com a pressão do tour. Integrante da elite mundial precisa estar sempre viajando, longe da família. Se o cara não estiver preparado para enfrentar essas barras, será difícil conseguir um bom resultado.
Mas Bruno Santos mostrou nesta quinta-feira que o importante é ter vontade de ganhar. Ele não é top 45 e não tem familiaridade com as ondas do tour. Por outro lado, é cria de Itacoatiara, pico que apresenta uma das ondas mais casca-grossa do Brasil, pesadas e tubulares. Foi em Itacoá que ele desenvolveu a habilidade nos tubos. Bruninho surfou morras de até três metros nas triagens e conquistou uma vaga na etapa de Teahupoo graças a esse conhecimento.
Foi durante essa fase que o carioca se machucou, sendo aconselhado pelos salva-vidas locais a desistir de competir. Mas nem os quinze pontos que tomou na coxa fizeram o moleque deixar para trás o sonho de conquistar o título.
Bruninho também provou que os juízes não são contra os brasileiros e colecionou boas notas ao longo das disputas. Ele surfou até a última bateria focado na vitória, com a cabeça tranqüila, talvez porque não precisasse somar pontos no ranking.
Após derrotar o herói local Manoa Drollet, Bruno Santos lavou a alma brasileira e provou ao mundo inteiro, inclusive para nós, que nossos atletas tem sim potencial de ganhar um título mundial. E que, diante da determinação, disciplina, cabeça focada e surf no pé, não há obstáculos que impeçam isso.
Marilia Fakih é repórter especial do NextSurf, especialista em esportes de prancha e acredita no que talento e vontade de vencer fazem parte da receita do sucesso.
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